Guia · Art nouveau · 1908

O Beijo de Klimt: o ouro real, a Viena de 1900 e o abraço antes da queda

Belvedere Superior, Viena · 1908 · Leitura de 10 minutos

O Beijo, de Gustav Klimt, 1908

Dois corpos ajoelhados num campo de flores, envolvidos por um manto que parece um casulo de ouro. Ele beija a face dela. Ela fecha os olhos. Em volta do casal existe metal: folhas finíssimas de ouro coladas sobre a tela, e não tinta cor de ouro. Gustav Klimt pintou O Beijo entre 1907 e 1908, e a obra virou o rosto de Viena.

Poucos quadros conseguem parecer, ao mesmo tempo, uma joia e uma despedida. O Beijo é os dois: o ápice do chamado Período Dourado de Klimt e, sem que ninguém pudesse saber na época, o retrato de uma cidade brilhante prestes a desaparecer na Primeira Guerra.

Este guia reconstrói a obra por dentro: a tela, o metal, a cidade, os erros de leitura e um roteiro de observação.

O que você vê na tela

A tela é quadrada, 180 por 180 centímetros, e o formato não é neutro: o quadrado não tem direção preferida, fecha a cena e deixa o casal no centro da caixa, sem saída lateral.

No meio, um casal ajoelhado se abraça. O homem está atrás e um pouco acima, e curva a cabeça para beijar a face da mulher. Ela inclina o pescoço, fecha os olhos e mostra uma expressão de êxtase contido. O rosto dele não aparece: você vê a nuca, o maxilar e as duas mãos que seguram a cabeça dela. Uma das mãos dela segura a dele com firmeza próxima do desespero, cada dedo dobrado num ângulo deliberado. É um abraço tenso.

Os dois estão cobertos por um manto dourado sem volume real, superfície plana que ignora a anatomia por baixo. No lado do homem, retângulos pretos, brancos e cinza. No lado da mulher, círculos, ondas, espirais e flores. O masculino angular, o feminino redondo, ambos sob o mesmo metal.

Só quatro regiões escapam do ornamento: os rostos, as mãos, os ombros dela e os pés. São ilhas de pele com sombra e volume num mar chapado, e o contraste entre carne modelada e ouro plano é o motor visual da obra.

Os pés do casal repousam sobre um prado de flores miúdas, vermelhas, brancas e azuis. A borda do gramado termina exatamente onde os dedos dela tocam a beirada, curvados, agarrados à ponta. Um passo a mais, e ela cairia no vazio dourado. O detalhe não é acidente.

O ouro não é cor, é metal

O que separa o original de qualquer reprodução é o material. Klimt aplicou folhas metálicas reais sobre uma base de óleo. O Belvedere, museu que guarda a obra, descreve a técnica como óleo com ouro e prata sobre tela, e a divulgação costuma citar ouro de 23 quilates. Antes do número vem o essencial: existe metal de fato colado ali.

A familiaridade veio de casa. Ernst Klimt, pai do pintor, era gravador em ouro, e a oficina da família foi a primeira escola de Gustav. Georg, o irmão, trabalhava metal e executou peças em bronze para a sede da Secessão Vienense.

E ele não deixou a superfície uniforme. Variou os tons, criou granulações, riscou e puncionou zonas do metal. A luz da sala bate no relevo e faz o quadro mudar de brilho conforme você caminha diante dele. A pintura reage a quem olha.

Em 1903, Klimt viajou duas vezes a Ravena, na Itália, e estudou os mosaicos bizantinos de San Vitale, com os painéis dourados de Justiniano e Teodora. Ali o ouro não é cenário nem parede: é a supressão do espaço físico. Sem horizonte, sem sombra projetada, sem profundidade, a cena passa a acontecer fora do mundo.

Klimt pegou essa gramática sagrada e a aplicou a um tema privado. Onde Ravena punha o imperador e a corte, ele pôs um casal anônimo se beijando, e a pintura ganhou ar de ícone religioso sem nenhum santo dentro.

Linha do tempo de O Beijo

  1. 1862Gustav Klimt nasce perto de Viena, filho de Ernst Klimt, gravador em ouro.
  2. 1888O imperador Franz Joseph condecora Klimt pelos trabalhos decorativos no Burgtheater. Aos vinte e seis anos, ele já é pintor oficial.
  3. 1897Klimt ajuda a fundar a Secessão Vienense e assume a presidência do grupo, sob o lema "a cada época a sua arte, a cada arte a sua liberdade".
  4. 1902O Friso de Beethoven termina num casal enlaçado dentro de uma forma dourada, primeiro ensaio do abraço de 1908.
  5. 1903Duas viagens a Ravena acendem o uso do metal. Começa o Período Dourado, que vai até por volta de 1909.
  6. 1905Klimt devolve o pagamento dos painéis da Universidade de Viena e deixa de aceitar encomenda pública.
  7. 1907 a 1908Ele pinta O Beijo sobre tela quadrada de 180 por 180 centímetros.
  8. 1908A obra é exibida na Kunstschau de Viena e comprada pelo Estado austríaco por 25.000 coroas, cifra registrada como a maior paga a um artista vivo no país até então.
  9. 1918Klimt morre em fevereiro, no mesmo ano em que Egon Schiele, Otto Wagner e Koloman Moser também morrem e o império se desfaz.

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A Viena que produziu o quadro

O Beijo não nasceu num ateliê isolado, e sim numa cidade de cerca de dois milhões de habitantes, capital de um império que já rangia. Sigmund Freud tinha publicado A Interpretação dos Sonhos em 1900 e atendia pacientes na Berggasse. A ideia de que embaixo da vida burguesa educada corria um porão de desejo e medo estava no ar, e Klimt a traduziu em imagem melhor que quase qualquer contemporâneo. Em dezembro de 1908, Arnold Schoenberg estreou o Segundo Quarteto de Cordas, peça em que a tonalidade se dissolve no movimento final. Egon Schiele, com dezessete anos, procurou o pintor em 1907 e virou seu protegido mais famoso.

Do outro lado do debate estava o arquiteto Adolf Loos, que atacava o ornamento como crime numa conferência conhecida a partir do começo dos anos 1910. Enquanto Loos pregava a superfície limpa, Klimt cobria uma tela inteira de espirais e retângulos. A cidade sustentava as duas teses, e sustentava também a economia visual por trás delas: a Wiener Werkstätte, fundada em 1903 por Josef Hoffmann e Koloman Moser, tratava talher, tecido, joia e casa como projeto único.

O escândalo que empurrou Klimt para o privado

Em 1894, o Ministério da Cultura encomendou a Klimt três painéis de teto para a Universidade de Viena: Filosofia, Medicina e Jurisprudência. Quando Filosofia foi exibida, em 1900, oitenta e sete professores assinaram um protesto contra a obra. Medicina, no ano seguinte, trouxe uma figura da morte no meio de uma corrente de corpos nus, e o caso chegou ao parlamento. A universidade esperava alegoria do saber triunfante. Recebeu um painel sobre pulsão, doença e acaso.

Em 1905, com apoio do colecionador August Lederer, Klimt devolveu o pagamento e retomou os painéis, preferindo recusar o dinheiro a aceitar correção de conteúdo. Nunca mais assinou encomenda pública. Os três foram destruídos em 1945, num incêndio no castelo de Immendorf, e hoje só existem em fotografia.

A consequência explica o ouro. Sem Estado, Klimt passou a pintar para clientes privados: industriais, banqueiros e suas famílias, gente que queria retrato luxuoso e casa projetada inteira. O metal precioso virou também produto.

E o abraço dourado não caiu do céu em 1907. O Friso de Beethoven, de 1902, terminava com um casal enlaçado dentro de uma forma dourada, ilustrando o verso da ode de Schiller musicada por Beethoven. O friso do Palais Stoclet, mansão erguida por Hoffmann em Bruxelas entre 1905 e 1911, repete o gesto num painel chamado Realização: o homem de costas coberto por retângulos, a mulher marcada por círculos. O quadro famoso é o fim de uma pesquisa de quase uma década, não o começo.

Onde a leitura mais comum erra

O erro mais frequente é ler a tela como cartão-postal romântico. A imagem é doce à distância e desconfortável de perto: a mão dela em garra, os dedos dos pés curvados na beira do precipício, os olhos fechados que tanto podem indicar entrega quanto recusa em olhar.

O segundo erro é tratar a identidade dos modelos como fato resolvido. A hipótese mais repetida aponta Emilie Flöge, estilista dona de um salão de moda em Viena e companheira intelectual de Klimt por quase três décadas, ao lado do próprio pintor. Falta consenso documental, outras leituras propõem modelos do ateliê, e há quem defenda que o casal não retrata pessoa alguma. O honesto é dizer: hipótese forte, prova ausente.

O terceiro erro é confundir O Beijo com o Retrato de Adele Bloch-Bauer I, de 1907, a outra tela dourada célebre de Klimt. Nasceram quase juntas, com o mesmo repertório de metal, e tiveram destinos opostos. O retrato de Adele foi tomado de uma família judia vienense durante o nazismo, virou objeto de uma disputa de restituição decidida em 2006 e acabou vendido a um colecionador. O Beijo pertence à República da Áustria desde 1908 e nunca entrou em litígio.

O percurso das cinco paradas

Um roteiro curto rende mais que encarar o quadro inteiro de uma vez. Faça as paradas nesta ordem, na sala ou numa boa reprodução.

Primeira parada, a borda do prado. Comece pelos pés dela e localize onde o gramado acaba e o dourado começa. A cena se equilibra sobre alguns centímetros de flor.

Segunda parada, as mãos. Siga o braço dela até os dedos e compare a tensão da mão com a serenidade do rosto. As duas informações se contradizem, e a contradição é deliberada.

Terceira parada, a costura dos padrões. Encontre a linha onde os retângulos do lado dele encostam nos círculos do lado dela. Aquela emenda é a fronteira entre duas pessoas dentro de um manto que finge ser um corpo.

Quarta parada, a pele. Percorra as quatro zonas de carne e perceba que só ali existe volume e anatomia. O resto é superfície.

Quinta parada, o metal. Ande dois passos para a esquerda e dois para a direita. Diante do original, o brilho muda de lugar e o quadro parece respirar. Numa foto, essa parada não acontece.

Por que a obra continua de pé

O Beijo virou estampa de bolsa, capa de caderno e pôster de quarto. A saturação costuma matar uma imagem. Com essa não matou.

Uma explicação é material: o efeito completo só existe na presença física, porque depende de luz refletida em metal. Outra é estrutural: numa única tela, Klimt juntou ícone bizantino, ornamento moderno, corpo desejante e ameaça de queda, tudo amarrado num quadrado que não deixa o olho fugir.

E há o contexto que o tempo acrescentou. A guerra chegaria em 1914, o império acabaria em 1918, e o próprio Klimt morreria naquele mesmo ano. Ele pintou um casal fixando um instante de plenitude à beira de um abismo dourado, sem saber quanto o abismo era literal. Mais de cem anos depois, o casulo ainda brilha, e a beirada continua logo abaixo dos pés dela.

Perguntas frequentes

Onde está O Beijo de Klimt?

No Belvedere Superior, em Viena, na Áustria. O Estado austríaco comprou a obra em 1908, durante a Kunstschau, e a pintura permanece no acervo público da cidade.

O ouro de O Beijo é ouro real?

Sim. Klimt colou folhas metálicas sobre a base de óleo. O Belvedere descreve a técnica como óleo com ouro e prata sobre tela, e a divulgação costuma citar ouro de 23 quilates.

Quem é o casal retratado em O Beijo?

A identidade nunca foi confirmada. A hipótese mais aceita aponta Emilie Flöge, companheira intelectual de Klimt por quase trinta anos, ao lado do próprio pintor. Faltam documentos que fechem a questão, e parte dos estudiosos defende que a cena é alegoria, não retrato.

Quanto vale O Beijo de Klimt?

A obra não tem preço de mercado porque não está à venda: pertence ao Estado austríaco desde 1908, quando foi comprada por 25.000 coroas. Para comparar, o Retrato de Adele Bloch-Bauer I foi vendido em 2006 por valor divulgado na casa dos 135 milhões de dólares.

Por que Klimt pintou com ouro?

Por herança e por escolha. O pai era gravador em ouro, e o filho cresceu dentro da oficina. A decisão de cobrir telas de metal veio depois de ver os mosaicos de San Vitale, em Ravena, onde o fundo dourado elimina o espaço e coloca a cena fora do mundo.

O que é o Período Dourado de Klimt?

É a fase em que o pintor usou folha de ouro e de prata como material central, aproximadamente entre 1903 e 1909. Além de O Beijo, inclui o Retrato de Adele Bloch-Bauer I e o friso do Palais Stoclet. Depois, Klimt abandonou o metal e migrou para cores intensas.

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