Guia · Pós-impressionismo · 1888
A Noite Estrelada de Van Gogh: as duas versões e o que cada uma revela
Musée d'Orsay, Paris · 1888 · Leitura de 10 minutos

Neste guia
Existe uma Noite Estrelada que todo mundo conhece, com o céu girando em espirais azuis. E existe esta, pintada um ano antes, à beira de um rio, com as estrelas paradas e um casal caminhando na margem. As duas são de Van Gogh. Poucos sabem que são obras diferentes, feitas em cidades diferentes e por métodos opostos.
A versão do céu em redemoinho está em Nova York. A outra, mais calma, quase discreta, está em Paris. Entender por que existem duas, e o que muda entre elas, é acompanhar a transformação que aconteceu na cabeça de Van Gogh entre setembro de 1888 e junho de 1889.
Este guia reconstrói as duas telas: o que cada uma mostra, como Van Gogh resolveu o problema de pintar no escuro, o que os pigmentos da época fizeram com a cor ao longo de um século e por que a primeira é o mundo observado e a segunda é o mundo remontado.
O que você vê nesta tela
A obra da imagem é A Noite Estrelada sobre o Ródano, pintada em Arles, no sul da França, em setembro de 1888. São cerca de 72 por 92 centímetros de óleo sobre tela, hoje no Musée d'Orsay, em Paris. Não é a mesma do céu espiralado. É a irmã mais velha, mais serena.
Em primeiro plano, o rio Ródano corre escuro, quase azul-petróleo. As luzes a gás da cidade refletem na água em traços longos e ondulantes, amarelos e dourados, descendo até a borda inferior da tela. Cada reflexo é uma pincelada alongada, como um cometa preso na correnteza.
Acima da linha da cidade, o céu é um campo de azul profundo salpicado de estrelas. Van Gogh pintou o Carro da Ursa Maior em destaque, cada estrela envolta num halo de tinta amarela espessa, quase tátil. A noite não é preta. É azul-cobalto, viva.
Na margem, um casal modesto caminha de mãos dadas em direção a quem observa. As figuras são pequenas, sem rosto. Não são as protagonistas. O protagonista é a relação entre o céu e a água.
Repare no detalhe de composição que passa despercebido. A linha da cidade corta a tela quase ao meio, e as duas metades se espelham: em cima, pontos de luz fixos; embaixo, os mesmos pontos derretidos pela correnteza.
A história por trás das duas versões
Van Gogh chegou a Arles em fevereiro de 1888 atrás de luz, calor e cor, depois dos invernos cinzentos do norte. Encontrou as três coisas. Em poucos meses pintou os girassóis, o quarto, os campos de trigo, os cafés e a primeira Noite Estrelada.
Ele morava na Casa Amarela, na Place Lamartine, a poucos minutos a pé do cais do Ródano. A tela foi feita ali, ao ar livre, à noite, com o cavalete montado na margem. Para enxergar a paleta no escuro, segundo relatos de contemporâneos, prendia velas acesas na aba do chapéu. As pinceladas que parecem tão livres foram dadas contra o tempo e contra a falta de luz.
O gás da cena também tem data. A iluminação pública a gás chegou às cidades francesas de porte médio poucas décadas antes, e em carta ao irmão Theo o pintor descreve o efeito que buscava: as lâmpadas da cidade refletidas na água azul. A tela registra uma noite urbana recém-inventada.
A segunda Noite Estrelada veio quase um ano depois, em junho de 1889, já dentro do antigo mosteiro de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy-de-Provence, onde ele se internou por vontade própria em maio, depois da crise que terminou com o episódio da orelha. Não foi pintada diante do céu real. Foi feita durante o dia, no ateliê do térreo, a partir de estudos, desenhos e memória.
"Isto é uma coisa que tenho frequentemente em mente: a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia." Vincent van Gogh, em carta ao irmão Theo, setembro de 1888.
A distância entre as duas telas é a distância entre observar e remontar. A do Ródano é o que os olhos viram de um cais. A de Saint-Rémy é o que a mente juntou de pedaços: o céu da madrugada visto pela janela gradeada, um cipreste provençal e um vilarejo de torre pontuda que lembra mais a Holanda da infância do que o sul da França.
Linha do tempo das duas Noites Estreladas
- Fevereiro de 1888Van Gogh chega a Arles em busca da luz do sul da França e começa o período mais produtivo da vida.
- Setembro de 1888Pinta A Noite Estrelada sobre o Ródano ao ar livre, à beira do rio, a poucos minutos da Casa Amarela.
- Outubro de 1888Paul Gauguin chega a Arles e os dois dividem a Casa Amarela por nove semanas intensas.
- 23 de dezembro de 1888Depois de uma crise, Van Gogh corta parte da própria orelha esquerda. Gauguin vai embora.
- Maio de 1889Ele entra por vontade própria no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, em Saint-Rémy, onde recebe um quarto e um ateliê no térreo.
- Junho de 1889Pinta a segunda Noite Estrelada, a do céu em espiral, durante o dia e a partir da memória.
- Setembro de 1889A tela do Ródano é exposta em Paris, no Salon des Indépendants, uma das raras aparições públicas da obra em vida.
- 29 de julho de 1890Van Gogh morre aos 37 anos em Auvers-sur-Oise, dois dias depois de um tiro no peito.
- 1941A versão de Saint-Rémy entra no acervo do MoMA, em Nova York, por um legado da colecionadora Lillie P. Bliss.
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Como Van Gogh resolveu o problema de pintar no escuro
Pintar de noite ao ar livre cria um problema prático antes de criar um problema estético. Com pouca luz, o olho humano troca os cones, que enxergam cor, pelos bastonetes, que enxergam contraste e movimento. Um azul-cobalto e um azul-ultramarino ficam quase idênticos à luz de uma vela.
A saída de Van Gogh foi trabalhar por sistema, e não por percepção imediata. Ele acompanhava a teoria das cores complementares que circulava na França desde os estudos de Chevreul, e organizava a paleta em pares fixos: o amarelo do gás contra o azul do céu, o laranja das lâmpadas contra o violeta da água. Com os pares decorados, dava para escolher o tubo certo quase às cegas.
O hábito de medir antes de pintar vem de mais longe. Ainda na Holanda ele mandou fabricar um quadro de perspectiva, moldura com fios cruzados fincada no chão diante do motivo, para acertar proporção e alinhamento. A fase inteira de Arles é de alguém que constrói a cena antes de soltar a mão.
E há o material. A tinta vai aplicada espessa, quase esculpida, técnica chamada de impasto. De perto, a superfície da tela tem relevo mensurável, e a luz da sala bate nele em ângulos diferentes. A estrela não é só amarela: ela devolve o brilho da galeria de um jeito que o céu ao redor não devolve.
A cor que o tempo mexeu
Nenhuma das duas telas está hoje com as cores que saíram do tubo, e o motivo é químico.
O amarelo de cromo, pigmento barato e potente que Van Gogh usava muito, é instável. Análises com feixe de raios X em laboratórios europeus mostraram que a camada mais superficial do pigmento reage à luz e se transforma, puxando o amarelo vivo para um marrom-oliva. Os tons mais brilhantes que ele escolheu de propósito são os mais vulneráveis.
Os vermelhos de laca também desbotam. O caso mais estudado na obra dele é O Quarto em Arles: as paredes que hoje lemos como azuis foram pintadas em violeta, e o violeta perdeu o componente vermelho com as décadas. A mesma perda muda a temperatura de qualquer céu noturno feito de mistura.
Some-se a camada de verniz aplicada por restauradores de épocas passadas, que amarela com a idade. Daí a conservação moderna trabalhar com o mínimo de intervenção sobre superfícies em relevo: limpar demais um impasto arranca o gesto que produz o efeito. O que se enxerga hoje é uma versão envelhecida de um quadro mais quente em 1888.
Os três erros mais comuns sobre A Noite Estrelada
O primeiro é tratar a tela do Ródano como esboço da famosa. Não são etapas do mesmo projeto. São duas obras acabadas, separadas por nove meses, duas cidades, dois estados mentais e dois métodos opostos de trabalho.
O segundo é ler os redemoinhos de Saint-Rémy como sintoma de loucura, como se a espiral fosse alucinação transcrita direto na tela. As cartas apontam para o contrário: ele pintava nos intervalos lúcidos, planejava composições e criticava o próprio resultado com dureza. Estudos de física publicados a partir de 2006 apontaram semelhança entre a distribuição de brilho do céu pintado e modelos estatísticos de turbulência, sinal de observação apurada.
O terceiro é imaginar a versão de 1889 pintada de janela aberta, com o céu logo à frente. O quarto do asilo tinha grade, a vista dava para um campo cercado, e a obra saiu no ateliê, durante o dia. O vilarejo de torre pontuda entrou na composição por escolha do pintor.
O exercício das duas noites
Guia de museu costuma mandar olhar com calma, e a instrução não ajuda ninguém. Um roteiro com nome e ordem funciona melhor. Chame de exercício das duas noites e aplique em qualquer pintura noturna.
Primeiro passo, a fonte. Localize de onde vem a luz e conte quantas famílias de fonte existem. No Ródano são duas: as estrelas em cima e o gás da cidade embaixo, e o quadro vive da conversa entre elas. Em Saint-Rémy a fonte é uma só, o céu, e o vilarejo quase não emite luz própria.
Segundo passo, o horizonte. Meça com o dedo a que altura da tela ele está. Na obra de Paris ele fica no meio, o que divide o quadro em duas metades equivalentes e produz a sensação de equilíbrio. Na de Nova York o horizonte desce, o céu ocupa quase toda a superfície e a paisagem vira rodapé.
Terceiro passo, a gente. Procure figuras humanas e compare o tamanho delas com o resto. O casal na margem do Ródano é minúsculo e está presente. Na versão do asilo não há ninguém caminhando, só janelas amarelas de casas fechadas. Quem desaparece do quadro diz muito sobre quem estava pintando.
Por que a obra importa
A versão famosa virou estampa de caderno, capa de disco, parede de quarto. A do Ródano, mais antiga e mais discreta, ainda pertence ao Van Gogh que olhava antes de inventar, e foi uma das pouquíssimas obras que ele expôs em vida.
E talvez seja essa a lição das duas telas juntas. Antes de cada redemoinho existe uma noite calma, com estrelas reais refletidas em água real, vista por alguém que ainda acredita no que vê. Olhe para o casal anônimo na margem. Eles não sabem que estão dentro da última noite tranquila.
Perguntas frequentes
Quantas Noites Estreladas Van Gogh pintou?
Duas telas levam esse nome. A Noite Estrelada sobre o Ródano, de setembro de 1888, hoje no Musée d'Orsay em Paris, e A Noite Estrelada de Saint-Rémy, de junho de 1889, no MoMA em Nova York. A segunda, do céu em espiral, é a mais conhecida das duas.
Onde está A Noite Estrelada de Van Gogh?
Depende de qual. A do céu espiralado fica no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA, onde entrou em 1941. A versão sobre o rio Ródano fica no Musée d'Orsay, em Paris, museu dedicado à arte do século dezenove.
Qual a diferença entre as duas Noites Estreladas?
Método, lugar e temperatura. A de 1888 foi pintada ao ar livre, no cais de Arles, com pincelada firme e horizonte no meio da tela. A de 1889 saiu do ateliê do asilo de Saint-Rémy, a partir de memória e estudos, com o céu girando e ocupando quase todo o quadro.
Van Gogh pintou A Noite Estrelada olhando para o céu?
A do Ródano, sim: foi feita ao ar livre, à beira do rio, e a tradição conta que ele prendia velas no chapéu para enxergar as cores no escuro. Já a versão famosa de Saint-Rémy foi montada no ateliê, com o céu recomposto pela memória do artista.
Por que o céu de A Noite Estrelada gira?
Porque a pincelada deixou de descrever o que estava à frente e passou a organizar o quadro por conta própria. As ondas concêntricas criam movimento contínuo e prendem o olho num circuito fechado. Estudos de física compararam a distribuição de brilho dessas ondas com modelos de turbulência.
Quanto vale A Noite Estrelada?
Nenhuma das duas está à venda nem tem preço público. A de Saint-Rémy pertence ao MoMA desde 1941, por legado de uma colecionadora, e a do Ródano integra coleções públicas francesas, protegidas por regra de inalienabilidade. Museus não divulgam valores de seguro.
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