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Quando Benjamin West nomeou o filho primogênito Raphael, em 1769, não havia ambiguidade no gesto: era uma declaração de fé artística. O pai admirava Rafael de Urbino como o maior pintor que havia existido, um modelo de equilíbrio, harmonia e graça ao qual dedicou décadas de estudo.
E quando pintou a esposa com o bebê no colo, por volta de 1770, escolheu como modelo direto a *Madonna della Sedia* de Rafael. A homenagem era completa: o nome do filho e a forma do quadro.
I
O que você vê
A tela é quase quadrada, medindo 66 por 66 centímetros. O formato circular é sugerido pelo enquadramento da composição: as duas figuras estão inscritas dentro de um óvalo escuro que domina o centro da tela, como um medalhão ou um espelho, recurso compositivo diretamente inspirado na *Madonna della Sedia* de Rafael, que também adota o formato tondo.
Elizabeth West está no centro ligeiramente à direita. É uma jovem de cabelos escuros, presos com um lenço bordado com fio dourado. Veste uma capa cinza-azulada com bordas douradas, sobre roupa de cor vinho. O rosto é sereno, com um leve sorriso, e ela olha diretamente para o espectador, um olhar de presença, não de performance.
No colo, o bebê Raphael usa uma camisola branca de mangas compridas. Ele está levemente reclinado para trás, o rosto voltado para cima e para a esquerda, os olhos abertos e atentos. As bochechas são redondas e coradas. A mão esquerda de Elizabeth segura o braço do filho; a direita pousa sobre o ombro da criança com firmeza gentil.
O fundo é escuro e neutro, a mesma penumbra que emoldura os retratos formais do século XVIII, exceto pela abertura oval que enquadra o par. Nessa zona escura ao redor do medalhão, há uma levíssima sugestão de paisagem nublada à esquerda, quase imperceptível.
O ponto de contato entre as duas cabeças é o centro emocional da obra: bochechas quase se tocando, o rosto da criança prestes a encostar-se ao rosto da mãe. Toda a ternura está nesse centímetro de distância.
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"West estudou as obras de Rafael com uma devoção que poucos artistas do seu tempo igualaram; nele encontrou a perfeição que buscava entre a natureza e o ideal." John Galt, *The Life, Studies, and Works of Benjamin West*, 1820.
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II
A história por trás
Benjamin West nasceu em 1738 na Pensilvânia, então colônia britânica. Foi o décimo filho de uma família quáquera, e sua inclinação para a pintura surgiu cedo, conta-se que índios da região lhe ensinaram a fazer tinta com argila e baga quando ainda era menino. Sem mestres disponíveis na Pensilvânia colonial, aprendeu o que pôde por conta própria e de artistas itinerantes.
Aos vinte e dois anos, em 1760, partiu para a Itália. Passou três anos em Roma, Florença e Veneza, estudando os mestres do Renascimento com uma intensidade que impressionou quem o conheceu, inclusive por ser um americano das colônias, território então considerado improvável para produzir artistas sérios.
Em 1763, instalou-se em Londres. Ali, a carreira ascendeu com velocidade surpreendente. O rei George III ficou fascinado com seu trabalho e tornou-se patrono generoso. Em 1772, West foi nomeado pintor histórico da corte. Após a morte de Joshua Reynolds, em 1792, tornou-se presidente da Royal Academy, o posto mais alto das artes britânicas, ocupado por um homem nascido na América.
Elizabeth Shewell, sua esposa, era de uma família de mercadores da Filadélfia. Ela o seguiu até Londres, desafiando a oposição do pai, que não aprovava a mudança para a Inglaterra. Casaram-se em 1764. Raphael West, o filho retratado nesta tela, nasceu em 1769, e seguiu a carreira do pai como pintor.
O Cleveland Museum of Art recebeu esta obra em 1927, por doação de Charles W. Harkness.
III
Por que importa
West era americano num momento em que ser americano significava ser periférico. A Europa era o centro; as colônias, a margem. Ele inverteu essa equação não por rebeldia, mas por competência e ambição cuidadosamente exercidas: estudou os melhores, trabalhou para o mais poderoso patrono do mundo anglófono e fez da sua estrangeiridade uma vantagem, o olhar de quem não carrega o peso das escolas locais.
Este pequeno retrato em formato de medalhão, pintado para si mesmo, não para um comissionante, é talvez o seu gesto mais pessoal. Ele não está provando nada. Está registrando o que ama: a esposa, o filho que carrega o nome de um mestre, e a forma que aprendeu a admirar na Itália aos vinte e poucos anos.
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Olhe com calma.
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