Arte do Dia #004 · Peça de caça com uma garça morta
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 004

Peça de caça com uma garça morta

Jan Weenix · 1695 · Óleo sobre tela

Leia ouvindo

Arte do Dia

Spotify
Peça de caça com uma garça morta

Ver obra original no Metropolitan Museum →

A garça está morta. As penas brancas se espalham sobre a pedra como um vestido desamarrado. Jan Weenix não pintou uma cena de caça. Pintou o que sobra quando a caça termina. E fez dessa sobra uma das naturezas-mortas mais elegantes do barroco holandês.

I

O que você vê

A garça ocupa o centro da composição, o corpo curvado sobre uma balaustrada de pedra. O pescoço longo pende pra baixo, a cabeça quase toca o chão. As asas estão meio abertas, mostrando o branco das penas internas contra o cinza das externas. Ao lado, frutas, uma lebre, outros troféus de caça dispostos como adornos.

A luz entra da esquerda e bate nas penas brancas da garça com uma intensidade quase teatral. Cada pluma é pintada individualmente. O branco não é um branco só. São dezenas de tons: creme, cinza-pérola, azul-gelo, rosa-pálido. Weenix conhecia penas como um alfaiate conhece tecidos.

O fundo é um jardim aristocrático, com colunas, vegetação escura e um céu crepuscular. É um cenário de palácio. A morte do animal não é tratada como violência. É tratada como decoração. E é exatamente esse contraste que torna a pintura inquietante.

"Weenix transformava a morte em ornamento. E fazia isso tão bem que ninguém protestava." Mariët Westermann, historiadora da arte holandesa.

II

A história por trás

Jan Weenix nasceu em Amsterdã em 1642, filho do pintor Jan Baptist Weenix, que já era conhecido por cenas italianas e naturezas-mortas. O filho herdou o ateliê, o talento e a clientela. Mas em vez de copiar o pai, especializou-se num gênero muito específico: peças de caça monumentais.

A caça era o esporte da aristocracia europeia. Nos Países Baixos, onde a nobreza competia em ostentação com a burguesia mercantil, exibir os resultados da caça era declaração de status. As mansões precisavam de pinturas que mostrassem essa abundância. Weenix era o pintor perfeito para isso.

Em 1702, o Eleitor Palatino Johann Wilhelm contratou Weenix para decorar o Castelo Bensberg, perto de Colônia. Foram doze painéis enormes de caça, cada um com mais de três metros de altura. O projeto levou anos. Weenix pintava com uma precisão quase científica: estudava anatomia animal, mantinha espécimes mortos no ateliê como modelos, e usava técnicas de empasto para dar textura às penas e pelos.

Esta tela de 1695 é anterior ao projeto de Bensberg, mas já mostra a maestria plena. A garça era uma presa rara e valiosa. Pintá-la morta, com essa elegância, era afirmar que o dono do quadro podia se dar ao luxo de caçar o que outros só viam voar.

Weenix morreu em 1719. Sua reputação declinou com o fim da moda das peças de caça monumentais. Só no século XX os historiadores começaram a resgatar seu trabalho como exemplo máximo do gênero.

III

Por que importa

Existe algo perturbador numa pintura que transforma um animal morto em objeto de admiração. E esse desconforto é parte do ponto.

Weenix não escondia a morte. Ele a embelezava. E ao fazer isso, forçava o espectador a confrontar uma pergunta incômoda: por que achamos bonita uma coisa que deveria nos incomodar? As penas continuam brancas. O olho continua fechado. E a beleza, nesta tela, não pede desculpas por existir onde não deveria.

Olhe com calma.

Continue lendo