Arte do Dia #015 · Sob as Árvores
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 015

Sob as Árvores

Édouard Vuillard · 1894 · Têmpera sobre tecido

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Sob as Árvores

Ver obra original no Cleveland Museum of Art →

As figuras se confundem com as árvores. As árvores se confundem com o tecido. Vuillard pintou um jardim público onde tudo se mistura: gente, natureza, padrões, cores. Não há primeiro plano nem fundo. Há só uma superfície vibrante onde o olho não descansa.

I

O que você vê

O formato é estreito e alto, quase como uma tapeçaria. Troncos de árvores cruzam verticalmente a composição, criando ritmo. Entre eles, figuras femininas e crianças aparecem e desaparecem entre manchas de verde, ocre e violeta. Os vestidos estampados se fundem com as folhas.

A perspectiva é achatada. Não há profundidade convencional. As figuras do fundo são do mesmo tamanho que as da frente. Tudo parece colado na superfície, como papéis sobrepostos. A influência das estampas japonesas é evidente: bidimensionalidade, padrões, linhas sinuosas.

A paleta é surpreendente. Verdes que viram roxos, ocres que viram laranjas, sombras que não são pretas mas azuis. Vuillard misturava cores diretamente na superfície, criando vibrações ópticas que anteciparam a abstração.

"Vuillard é o pintor do que está entre as coisas. Não os objetos, mas o ar entre eles." Belinda Thomson, historiadora do pós-impressionismo.

II

A história por trás

Édouard Vuillard nasceu em Cuiseaux, na Borgonha, em 1868. A mãe era costureira, e o ateliê dela, cheio de tecidos estampados, moldou o olhar do filho pra sempre. Vuillard pensava em termos de padrões antes de pensar em formas. Tecidos, papéis de parede, carpetes: tudo virava matéria-prima visual.

Em 1894, o marchand Alexandre Natanson encomendou a Vuillard nove painéis decorativos para o apartamento parisiense. O tema era "Os Jardins Públicos". Este painel é um deles. Vuillard visitou parques de Paris por semanas, observando como a luz filtrada pelas árvores transformava as figuras em manchas de cor.

A técnica é peinture à la colle: pigmento misturado com cola animal, aplicado sobre tecido não preparado. O resultado é uma superfície mate, aveludada, que absorve a luz em vez de refleti-la. As cores parecem embutidas no tecido, não aplicadas sobre ele. É pintura que quer ser tapeçaria.

Vuillard pertencia ao grupo dos Nabis, artistas influenciados por Gauguin e pelo simbolismo que acreditavam que a pintura deveria ser, antes de tudo, superfície decorativa. "Um quadro, antes de ser um cavalo de batalha, uma mulher nua ou qualquer anedota, é essencialmente uma superfície plana coberta de cores numa certa ordem." A frase é de Maurice Denis, amigo de Vuillard. Mas ninguém aplicou essa ideia com mais consistência.

III

Por que importa

Vuillard dissolveu as fronteiras. Pessoas viram padrões. Padrões viram paisagem. Paisagem vira tecido. A pintura não representa o jardim. A pintura é o jardim.

Existe uma liberdade enorme nesse gesto. Quando você para de separar figura e fundo, sujeito e cenário, importante e acessório, o mundo inteiro vira superfície. E na superfície, tudo tem o mesmo valor. Tudo merece o mesmo olhar.

Olhe com calma.

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