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Ela está afinando o alaúde. Virou o rosto pra janela, concentrada no som que não podemos ouvir. A luz entra e banha o lado esquerdo do rosto com um brilho suave. Vermeer pintou música com luz. E o silêncio da tela faz o som parecer mais real.
I
O que você vê
A mulher está sentada perto de uma janela que não vemos inteira. O alaúde repousa no colo, as mãos ajustam as cravelhas. Um mapa pendurado na parede do fundo mostra a Europa, parcialmente visível na penumbra. Na mesa à esquerda, livros de música e outro instrumento.
A composição é típica de Vermeer: interior doméstico, janela à esquerda, luz natural, uma figura absorvida numa atividade. Mas a peculiaridade desta tela é a condição de conservação. A pintura está gasta, com áreas onde o verniz escureceu e os detalhes se perderam. O fundo é quase ilegível. E, paradoxalmente, essa deterioração dá à obra um mistério que pinturas em perfeito estado não têm.
O vestido amarelo brilha. É a nota mais forte da composição, a âncora visual que segura o olhar antes que ele se perca na penumbra ao redor. O amarelo de Vermeer era feito com ocre natural, às vezes misturado com chumbo-estanho. É um amarelo quente, dourado, que parece emitir luz própria.
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"A música em Vermeer nunca é performance. É intimidade. O som é sempre pra ela, nunca pra nós." Arthur Wheelock, curador da National Gallery de Washington.
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II
A história por trás
A música era central na vida doméstica holandesa do século XVII. Famílias de classe média possuíam instrumentos, e saber tocar era sinal de educação refinada. O alaúde era particularmente associado a mulheres jovens de boa família. Pintá-lo era indicar status e virtude.
Mas na tradição pictórica holandesa, instrumentos musicais também carregavam conotação erótica. O alaúde podia simbolizar harmonia amorosa. Os livros de música na mesa, abertos, podiam sugerir a espera de um parceiro para o dueto. O mapa na parede podia indicar o amante distante. Vermeer trabalhava com essa ambiguidade. Nunca confirmava, nunca negava. Deixava o observador decidir se a cena era inocente ou carregada.
Vermeer pintou esta tela por volta de 1662, na fase central da sua carreira. A técnica é a mesma das obras-primas do período: camadas translúcidas de cor aplicadas sobre uma base clara, pontos de luz depositados com pincel fino, transições suaves que eliminam contornos duros.
A questão da camera obscura persiste. Vários estudiosos argumentam que Vermeer usava o dispositivo óptico pra projetar a cena na tela antes de pintar. As evidências incluem a forma como os desfocados aparecem em certas áreas, imitando o comportamento de uma lente. Nesta tela, o desfocamento do primeiro plano é especialmente notável. Mas câmera ou não, o olho e a mão eram de Vermeer.
III
Por que importa
O som não existe na pintura. Nunca existirá. E é exatamente isso que torna a cena tão magnética. Sabemos que ela está tocando. Sabemos que o som está ali. Mas não podemos ouvi-lo.
Vermeer pintou a ausência. E na ausência, o imaginário completa o resto. Cada pessoa que olha pra esta tela ouve uma música diferente. Esse é o truque. Não é o que ele pintou. É o que ele deixou de pintar.
Olhe com calma.
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