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Uma princesa de cinco anos. Duas damas de companhia. Uma anã, um menino, um cachorro. Um pintor diante de uma tela enorme. E, ao fundo, num espelho minúsculo, o rei e a rainha. Quem é o protagonista? A pergunta nunca foi respondida.
I
O que você vê
A tela tem mais de três metros de altura. No centro, a infanta Margarida Teresa, de cinco anos, em vestido branco bordado de prata, com a luz da janela à direita iluminando seu cabelo dourado. Está rígida, como aprendeu a posar desde os dois anos.
À esquerda da princesa, ajoelhada, a dama Maria Agustina Sarmiento oferece-lhe um búcaro de barro vermelho com água. À direita, em pé, a dama Isabel de Velasco faz uma reverência. Mais à direita ainda, a anã Maribárbola, mulher adulta com nanismo, encara o espectador com firmeza. A seu lado, o menino anão Nicolasito Pertusato apoia o pé sobre o cachorro mastim deitado, sonolento, à frente.
Atrás da infanta, em segundo plano, o pintor Diego Velázquez aparece à esquerda, paleta na mão, diante de uma tela enorme cuja face está virada para nós. Vemos apenas a parte de trás da tela, gigantesca, ocupando o canto esquerdo do quadro. Velázquez tem expressão concentrada e veste o hábito da Ordem de Santiago, com uma cruz vermelha pintada no peito.
E entre os personagens do fundo e a porta aberta do corredor, um espelho retangular pendurado na parede mostra duas figuras pequenas: o rei Filipe IV e a rainha Mariana de Áustria. Eles estão fora do quadro. Estão no lugar do espectador. Ou estão posando para a tela que Velázquez pinta dentro do quadro. A geometria nunca foi resolvida.
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"Esta é a verdadeira filosofia. Aqui, a aparência é a substância. E a substância, mero reflexo." Luca Giordano, pintor napolitano em visita ao Alcázar, c.1692.
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II
A história por trás
Diego Velázquez nasceu em Sevilha em 1599 e morreu em Madri em 1660. Foi pintor de câmara do rei Filipe IV da Espanha desde 1623, posição que manteve por 37 anos. Tinha acesso íntimo à família real e ao Alcázar, palácio dos Habsburgos espanhóis em Madri. As Meninas foi pintada em 1656, no último período da carreira de Velázquez, quatro anos antes de sua morte.
A cena se passa no Salão dos Espelhos do Alcázar, especificamente em uma sala chamada cuarto del Príncipe, antigo quarto do filho mais velho do rei, falecido em 1646. A sala havia sido transformada em estúdio para Velázquez. As paredes do fundo mostram quadros do pintor flamengo Peter Paul Rubens e do italiano Jacob Jordaens, que pertenciam à coleção real.
A infanta Margarida Teresa era filha do segundo casamento do rei. Ela morreria em 1673, aos 21 anos, após sucessivas gestações. Filipe IV, ao olhar para esta tela, via uma criança que ele queria ver crescer. A obra original não tinha o título atual. Era listada em inventários reais como La familia. O nome As Meninas só apareceu no inventário de 1843.
A cruz vermelha de Santiago no peito de Velázquez foi pintada depois. O pintor recebeu o hábito da ordem em 1659, três anos depois de pintar a tela. Reza a tradição, registrada por Antonio Palomino em 1724, que o próprio rei Filipe IV pintou a cruz pessoalmente sobre a obra acabada, como honra. Análises técnicas modernas mostram que a tinta da cruz é diferente do resto.
A obra foi salva do incêndio que destruiu o Alcázar em 1734. Em 1819, foi para o Museo del Prado, onde está hoje na Sala 12, com paredes vermelhas e iluminação cuidadosa. É a peça central da coleção e foi descrita pelo filósofo Michel Foucault, em As Palavras e as Coisas (1966), como uma meditação sobre os limites da representação.
III
Por que importa
Velázquez pintou um enigma de geometria, de hierarquia e de olhar. O quadro que ele pinta dentro do quadro pode ser o retrato dos reis, espelhados ao fundo. Pode ser a própria obra As Meninas, que ele estaria pintando no momento. Pode ser nada disso. Cada geração tira dele uma resposta diferente.
Mas o que dura é a sensação de estar dentro da cena. Margarida olha para você. Maribárbola olha para você. O cachorro fica deitado. E o pintor, lá no fundo, com o pincel suspenso, parece prestes a olhar também. As Meninas é o quadro que se vira para o espectador e diz: você também é parte disso. E há quase 370 anos a gente continua entrando.
Olhe com calma.
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