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Um homem de meia-idade apoia a cabeça na mão, o cotovelo fincado numa mesa vermelha. Casaco azul abotoado, boné branco, e um olhar que passa de lado por quem observa.
Sobre a mesa, dois livros amarelos empilhados e um copo de vidro com um ramo de dedaleira dentro. A planta está tombada, deitada na borda em vez de subir.
A tela foi pintada em junho de 1890, em Auvers-sur-Oise, poucas semanas depois de o pintor chegar à cidade para ficar sob os cuidados desse médico. Cem anos depois ela virou o quadro mais caro já leiloado e sumiu de vista.
I
O que você vê
São sessenta e sete por cinquenta e seis centímetros de óleo sobre tela. Existem duas versões pintadas com poucos dias de diferença, e esta é a primeira delas.
A figura corta o quadro na diagonal. O corpo pende para a esquerda de quem olha, o ombro desce, e a cabeça repousa inteira sobre a mão fechada. Nada na pose sugere alguém prestes a levantar.
O casaco é azul-escuro, pesado, fechado até o alto do peito. Por baixo da gola aparece uma faixa fina de camisa clara. É roupa de dia de trabalho, vestida sem cerimônia.
O boné branco puxa toda a luz para o alto da tela. É a mancha mais clara da cena, e faz a pele do rosto parecer ainda mais lavada logo abaixo dela.
O rosto é magro, de barba ruiva rala. As sobrancelhas sobem no meio da testa, as pálpebras caem, e os olhos claros param num ponto fora do quadro. A boca some numa linha reta.
A mão que sustenta a cabeça foi pintada em poucos traços, sem detalhe de dedo. A outra repousa aberta na mesa, à frente do corpo, quase encostando na pilha de livros.
A mesa é um vermelho seco, de tampo inclinado, e ocupa o canto de baixo do quadro. Não tem toalha, nem papel, nem instrumento de trabalho. É superfície nua para dois objetos.
Os dois livros estão fechados, um sobre o outro, de capa amarela gasta. São romances franceses baratos, do tipo que se comprava em banca e se lia no trem.
Ao lado deles, o copo de vidro com o ramo de dedaleira. As flores roxas pendem em forma de dedal, o caule se deita na borda, e nenhuma delas aponta para cima.
O fundo é azul e não tem parede. São faixas de colina que ondulam atrás da figura, mais claras no alto, escuras junto ao ombro, sem nenhuma linha de horizonte reta para segurar a cena.
A pincelada muda conforme o campo. No fundo ela serpenteia em curvas longas, no casaco desce em riscos paralelos, e no rosto se aperta em toques curtos que constroem o volume.
A cor trabalha em três blocos. Azul no corpo e no fundo, vermelho na mesa, amarelo nos livros. O rosto claro fica preso no meio dos três, no ponto onde o olho cai primeiro.
E há o gesto. A mão que segura a cabeça é a pose que a pintura usa desde Dürer para dizer melancolia, e aqui ela aparece num retrato de quem tinha o cargo de cuidar dos outros.
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Um médico posa para o próprio paciente e recebe, no lugar de maleta e jaleco, um ramo de planta num copo de água. O quadro devolve a ele a mesma tristeza que ele deveria tratar.
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II
A história por trás
Auvers-sur-Oise, 20 de maio de 1890. Um trem de trinta quilômetros traz o pintor de Paris para uma cidade pequena à beira do rio, depois de um ano inteiro internado no sul da França.
O nome do médico veio de Pissarro. Ele contou ao irmão do pintor que havia em Auvers um clínico que gostava de artistas, entendia de nervos e recebia gente do ramo dentro de casa.
Paul Gachet tinha 62 anos. Atendia em Paris dois dias por semana e passava o resto do tempo na casa de Auvers, entulhada de quadros, gravuras, gatos e galinhas.
Em 1858 ele havia defendido uma tese sobre melancolia. Era homeopata numa época em que a palavra ainda soava a novidade, e cuidava de gente de humor difícil havia mais de trinta anos.
O primeiro julgamento do hóspede foi duro. Em carta ao irmão, ele escreve que o médico parecia tão doente quanto ele, e pergunta o que acontece quando um cego resolve guiar outro cego.
Duas semanas depois a opinião virou. Ele passa a falar de um amigo de verdade, quase um irmão, tão parecidos os dois no corpo e na cabeça.
Em junho começa o retrato. Numa carta ele explica o que persegue: não a semelhança do rosto, mas a expressão desolada do próprio tempo, algo que uma fotografia não daria conta de guardar.
A dedaleira sobre a mesa não é enfeite de vaso. É a planta de onde se extrai a digital, remédio de coração usado desde o século anterior, e funciona ali como o crachá silencioso da profissão.
Os dois livros amarelos também têm nome. São romances dos irmãos Goncourt, os mesmos que o pintor lia e citava nas cartas, escolhidos para dizer que o retratado era homem de cidade e de leitura moderna.
Poucos dias depois ele pinta a segunda versão. Fundo mais liso, livros fora de cena, a dedaleira mantida no copo. Essa tela fica com a família do médico e hoje está pendurada em Paris, no Musée d'Orsay.
Em 29 de julho de 1890 o pintor se vai, num quarto de hospedaria de Auvers, cinco semanas depois de terminar o retrato. Gachet fica ao lado da cama e desenha o rosto dele numa folha.
A primeira versão segue com a família e é vendida em 1897 por trezentos francos. Nos vinte anos seguintes troca de dono meia dúzia de vezes, até parar num museu de Frankfurt em 1911.
Em 1937 o regime nazista confisca a tela como arte degenerada. Hermann Göring a tira do lote e a revende a um banqueiro holandês, que a repassa a um banqueiro judeu em fuga para Nova York.
Por quatro décadas a família emprestou o quadro ao Metropolitan. Quem passava por Nova York podia ver o retrato numa sala aberta ao público, sem pagar nada além da entrada do museu.
15 de maio de 1990, Christie's, Nova York. O martelo fecha em cerca de três minutos. Com a comissão, o preço chega a oitenta e dois milhões e meio de dólares, recorde absoluto de leilão até ali.
O comprador é Ryoei Saito, dono de uma indústria japonesa de papel. Dois dias depois ele leva também um Renoir por setenta e oito milhões, e guarda os dois num depósito climatizado perto de Tóquio.
No ano seguinte ele declara em público que quer ser cremado com as duas telas. A frase corre o mundo, museus reagem, e ele recua dizendo que era apenas um jeito de falar do apego que sentia.
Vêm as dívidas da empresa e um processo na justiça. Os quadros viram garantia de banco. Saito se vai em 1996, e a partir dali a tela circula em negócios privados, sem endereço confirmado e sem exposição pública.
Desde 1990 ninguém mais viu a primeira versão fora de fotografia. A segunda, a que ficou com a família do médico, continua em Paris, e é a única das duas que ainda se deixa olhar de perto.
III
Por que importa
Importa porque é o retrato de um médico feito pelo paciente. A ordem normal se inverte: quem examina passa a ser examinado, e o quadro devolve ao retratado a mesma tristeza que ele deveria tratar.
Importa pelo objeto no lugar do instrumento. Em vez de maleta ou jaleco, um ramo de planta num copo. A profissão entra na cena como símbolo botânico, do jeito que os retratos antigos faziam com livro e caveira.
Importa pela frase que ficou. Perseguir a expressão desolada do tempo, e não a semelhança do rosto, resume o que a pintura de retrato passou a buscar quando a fotografia tomou conta da semelhança.
Importa pela biografia do objeto. A mesma tela foi comprada por um museu, confiscada como arte degenerada, revendida por um chefe do regime, salva por um banqueiro em fuga e emprestada a um museu americano por quarenta anos.
Importa pelo que aconteceu em 1990. O preço virou manchete maior do que a pintura, e o recorde transformou um retrato de consultório no símbolo do mercado de arte do fim do século.
Importa pelo sumiço. Uma obra que era pública havia décadas saiu de circulação num único lance de martelo, e o acesso a ela hoje depende de um dono que ninguém sabe nomear.
Diante da obra, comece pelo boné branco. Desça pelo rosto e pare nas pálpebras caídas. Siga o braço até a mesa vermelha, passe pelos dois livros amarelos e termine na dedaleira tombada dentro do copo.
Olhe com calma.
Olhe com calma.
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