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Uma cama de madeira clara ocupa quase metade do quadro. Ao redor dela, duas cadeiras de palha vazias, uma mesinha com jarra e bacia, uma janela entreaberta e, nas paredes, retratos pendurados e uma toalha num prego.
Não existe sombra em lugar nenhum. A cama não mancha o chão de escuro, as cadeiras não projetam nada. Cada objeto é uma placa de cor pura, contornada e chapada, como figura de gravura.
A tela foi pintada em outubro de 1888, em Arles, no sul da França. Mostra o quarto do próprio pintor na Casa Amarela, e nasceu com uma missão escrita em carta: expressar descanso absoluto.
I
O que você vê
A primeira versão tem cerca de setenta e dois por noventa centímetros, óleo sobre tela, e vive em Amsterdã. As duas irmãs dela, refeitas de memória um ano depois, moram em Chicago e em Paris.
O cômodo é estreito e fundo. À direita, a cama robusta de madeira, com dois travesseiros e uma coberta vermelha. No fundo, a janela de duas folhas, entreaberta. À esquerda, a mesinha de toalete encostada na parede, com jarra e bacia.
As cores não foram achadas, foram planejadas. Ele as listou numa carta: paredes violeta-pálido, chão de ladrilhos vermelhos desbotados, cama e cadeiras num amarelo de manteiga fresca, lençóis verde-limão quase brancos, coberta escarlate, mesa laranja, bacia azul.
Hoje as paredes parecem azuis, e a diferença não é impressão. O pigmento vermelho que ele misturou ao azul pra chegar no violeta desbotou com as décadas. O quadro pendurado nos museus é mais frio que o quadro que saiu do cavalete.
A parede do fundo corta o cômodo em ângulo estranho, e não é descuido. O quarto de verdade era assim: a Casa Amarela fazia esquina aguda, e o cômodo era um trapézio, não um retângulo.
Mesmo sabendo, o olho estranha. O chão sobe como uma ladeira, a cama parece deslizar pra frente, a mesa se inclina, as cadeiras apontam pra lados diferentes. Nada fica quieto num quadro feito pra falar de repouso.
Não há ninguém na cena, mas tudo vem em par. Dois travesseiros, duas cadeiras, dois retratos na parede, duas folhas de janela, dois desenhos perto da cama. Um quarto de homem sozinho, mobiliado como quem espera companhia.
Acima da cabeceira, retratos pequenos observam o cômodo. Na primeira versão, são dois amigos que ele fez em Arles: um poeta e um militar. Nas versões seguintes, um dos rostos pendurados passa a ser o dele mesmo.
A tinta é aplicada em campos chapados, com contorno escuro ao redor de cada objeto, herança direta das gravuras japonesas que ele colecionava. Sem sombra, sem meio-tom, sem volume: só cor encostada em cor.
Há duas portas fechadas, uma em cada parede lateral. Uma dava pra escada da casa; a outra, pro quarto de hóspedes que ele tinha arrumado pra receber Gauguin dali a dias.
E há o ponto de vista. Quem olha não espia da porta: está de pé dentro do cômodo, na altura de quem acabou de entrar. O quadro não mostra um quarto, ele hospeda.
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Ele pintou o descanso que não conseguia ter. Uma cama arrumada, cadeiras vazias, nenhuma sombra: o retrato mais fiel do sono é um quarto onde ninguém está dormindo.
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II
A história por trás
Arles, setembro de 1888. Depois de meses dormindo em hotel e comendo em café, o pintor holandês recebe do irmão Theo uma remessa de trezentos francos e faz a primeira mudança da vida adulta: mobília própria.
Ele gasta quase tudo em duas camas de madeira, mais colchões e cadeiras. Em meados de setembro, dorme pela primeira vez na Casa Amarela. Tinha trinta e cinco anos e nunca tinha tido uma casa sua.
A casa era a peça central de um sonho maior: o ateliê do Sul, uma comunidade de pintores vivendo e trabalhando juntos. O primeiro convidado, Paul Gauguin, tinha aceitado vir, sustentado por uma mesada de Theo em troca de quadros.
Outubro chega e o corpo cobra a conta do verão. Foram meses pintando girassóis, vinhedos, cafés e pontes quase sem pausa. Numa carta, ele conta que precisou passar dias inteiros na cama, esgotado, sem conseguir trabalhar.
É desse repouso forçado que o quadro nasce. Em 16 de outubro, ele descreve a Theo a tela nova em que está trabalhando: o próprio quarto. No dia seguinte, manda a Gauguin uma carta com um desenho do quadro e a lista de cores.
A carta explica o método: aqui, a cor tem que fazer tudo. Simplificada, chapada, sem sombra projetada, à maneira das gravuras japonesas, pra sugerir o sono e o descanso em geral.
E fecha com a frase que virou programa: olhar o quadro deve descansar a cabeça. Ou melhor, a imaginação.
Uma semana depois, em 23 de outubro, Gauguin desembarca em Arles. O quarto pintado vira cenário habitado: os dois dividem a casa, pintam lado a lado e discutem noite adentro.
A convivência dura nove semanas. Na noite de 23 de dezembro, depois de mais uma briga, o pintor fere a própria orelha com uma navalha. Gauguin parte pra Paris, e o dono da casa acorda num leito de hospital.
Enquanto ele se recupera, o inverno invade a casa vazia. Uma cheia do rio Ródano alaga o bairro, a umidade sobe pelas paredes e a tinta da tela do quarto começa a descascar.
Ele volta e encontra o quadro ferido. Decide mandá-lo a Paris pra restauro, mas faz um pedido junto: quer o quadro de volta depois, porque pretende copiá-lo.
A vida, enquanto a tela viaja, desmonta. Vizinhos assinam um abaixo-assinado pedindo a internação dele, a Casa Amarela é fechada, a mobília vai pra um depósito. Em maio de 1889, ele entra por vontade própria no asilo de Saint-Rémy.
No asilo, o quarto volta como assunto. Em setembro, ele refaz o quadro inteiro no mesmo tamanho, de memória, pincelada a pincelada, num quarto que agora tem grade na janela.
Semanas depois pinta a terceira versão, menor, feita de presente pra mãe e pra irmã Wil. O quarto de Arles, habitado de verdade por menos de um ano, vira três quartos pintados.
De longe, as três telas parecem a mesma. De perto, os detalhes contam o tempo: os retratos sobre a cama trocam de rosto, o chão muda de tom, e o traço do asilo é mais tenso que o original.
O sossego que o quadro prometia nunca voltou. A casa estava perdida, o ateliê do Sul tinha acabado, e a tela refeita era lembrança de um endereço onde ele não podia mais morar.
Ao rever os próprios quadros depois da crise, ele escreveu ao irmão que o melhor de todos era o quarto.
A original, restaurada, está no museu de Amsterdã que carrega o nome dele. A cópia do mesmo tamanho vive em Chicago, e a pequena pertence ao Museu d'Orsay, em Paris.
Do endereço real sobrou pouco. A Casa Amarela foi atingida num bombardeio em 1944 e depois demolida. O quarto que era pra descansar a imaginação existe hoje só onde ele sempre funcionou: dentro do quadro.
III
Por que importa
Importa porque é um manifesto de cor. Sustentar um espaço inteiro sem sombra e sem meio-tom, só com placas de cor encostadas umas nas outras, era abrir mão da ferramenta que a pintura usava havia séculos pra criar profundidade.
Importa pela missão declarada. Poucas obras têm o objetivo registrado em carta: descansar quem olha. Numa época em que o quadro devia impressionar salão e júri, ele pintou um pra acalmar.
Importa pelo assunto. Quarto simples de aluguel, com cadeira de palha e mesinha de pinho, não era tema digno de pintura séria em 1888. Ele deu a um cômodo comum o tratamento que a tradição reservava a palácio e altar.
Importa pela perspectiva torta. O que parece erro é fidelidade a um cômodo em forma de trapézio, e o desconforto que o olho sente ali virou caminho: gerações de pintores modernos aprenderam que o espaço pode entortar junto com quem o habita.
Importa pelas três versões. O mesmo cômodo pintado no auge da esperança e refeito de memória quando o sossego tinha acabado. A série mede a distância entre o que se tem e o que se lembra.
Importa pelo desbotamento. As paredes violeta viraram azuis sem ninguém encostar nelas, só pela química do pigmento envelhecendo. Até parado num museu, o quadro continua mudando.
Importa pelo contraste com a vida. O homem que fez a imagem definitiva do descanso dormia mal, trabalhava até o esgotamento e teve pouquíssimos meses de paz naquela casa. A tela guarda o desejo, não a rotina.
Diante da obra, comece pela coberta vermelha, o ponto mais quente da cena. Siga os pares: duas cadeiras, dois travesseiros, dois retratos. Procure alguma sombra e repare que não existe nenhuma. Depois deixe o chão subir e imagine a noite de sono que ele encomendou àquela cama.
Olhe com calma.
Olhe com calma.
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