Arte do Dia #032 · A Noite Estrelada sobre o Ródano
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 032

A Noite Estrelada sobre o Ródano

Vincent van Gogh · 1888 · Óleo sobre tela

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A Noite Estrelada sobre o Ródano

Ver obra original no Musée d'Orsay →

Existe uma Noite Estrelada que todo mundo conhece. E existe esta. Pintada um ano antes, em Arles, com os pés ainda no chão e os olhos ainda voltados para o rio. Aqui, o céu não gira. Apenas brilha. E na margem, um casal caminha devagar.

I

O que você vê

Em primeiro plano, o Ródano corre escuro, quase azul-petróleo. As luzes a gás da cidade de Arles refletem na água em traços longos e ondulantes, amarelos e dourados, descendo até a borda inferior da tela. Cada reflexo é uma pincelada deliberada, alongada como um cometa preso na correnteza.

Acima da linha da cidade, o céu é um campo de azul profundo salpicado de estrelas. Van Gogh pintou as sete principais da Ursa Maior em destaque, cercadas por outras menores. Cada estrela é um halo de tinta amarela vibrante, espessa, quase tátil. A noite não é negra. É azul-cobalto, viva, respirando.

À margem direita, um casal modesto caminha em direção ao espectador. As figuras são pequenas, anônimas, sem rosto definido. Estão de mãos dadas. Não são protagonistas. São testemunhas. O verdadeiro protagonista é a relação entre o céu e a água, entre o que está em cima e o que está embaixo.

A pincelada é firme, direcional, controlada. Sem o turbilhão da versão de Saint-Rémy. Aqui Van Gogh ainda observa o mundo. Não o reinventa.

"Isto é uma coisa que tenho frequentemente em mente: a noite é ainda mais ricamente colorida do que o dia." Vincent van Gogh, carta ao irmão Theo, setembro de 1888.

II

A história por trás

Van Gogh chegou a Arles, no sul da França, em fevereiro de 1888. Buscava luz, calor e cor depois dos invernos cinzentos do norte. Encontrou as três coisas. Em poucos meses, produziu algumas das obras mais importantes da pintura moderna: os girassóis, o quarto, os campos de trigo, os cafés.

A Noite Estrelada sobre o Ródano foi pintada em setembro de 1888, à beira do rio Ródano, em frente à cidade. Diferente da versão posterior, mais conhecida, esta foi feita ao ar livre, à noite, com a tela montada na margem. Van Gogh prendia velas no chapéu para enxergar a paleta. As pinceladas que parecem tão livres foram feitas no escuro, contra o tempo, contra a umidade do rio.

A obra precede em quase um ano a Noite Estrelada de Saint-Rémy, pintada em junho de 1889 já dentro do sanatório onde ele se internara. As duas conversam. A primeira é o mundo observado. A segunda, o mundo transformado pela mente. Esta é a calma antes do redemoinho.

O ano de 1888 também marca a chegada de Paul Gauguin a Arles, em outubro. Os dois pintores viveram juntos na Casa Amarela por nove semanas tensas, produtivas e devastadoras. A relação terminou na noite de 23 de dezembro, com o episódio da orelha cortada. Mas em setembro, quando esta tela foi pintada, Van Gogh ainda estava lúcido, esperançoso e apaixonado pela noite do sul.

A pintura foi exposta em Paris em 1889, no Salon des Indépendants, junto com Íris. Foi uma das poucas obras de Van Gogh exibidas em vida. Hoje pertence ao acervo do Musée d'Orsay, em Paris.

III

Por que importa

A versão famosa da Noite Estrelada virou ícone, estampa, capa de caderno, parede de quarto de adolescente. Esta aqui, mais antiga, mais discreta, ainda pertence ao Van Gogh que olhava antes de inventar.

E talvez seja isso que ela ensina. Antes de cada redemoinho existe uma noite calma, com estrelas reais, refletidas em água real, vistas por alguém que ainda acredita no que vê. Olhe para esse casal anônimo na margem. Eles não sabem que estão dentro da última noite tranquila.

Olhe com calma.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Van Gogh pintou A Noite Estrelada sobre o Ródano dentro do sanatório de Saint-Rémy, no mesmo período da versão famosa.

VVerdadeiro FFalso

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