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Há um bebê nesta tela que você nunca vai ver. Ele existe só na corda esticada e no gesto paciente de quem embala. Van Gogh sabia que o consolo dispensa o motivo à vista.
Augustine Roulin segura uma corda com as duas mãos. A corda está fora do quadro, vai até o berço do filho recém-nascido, que não se vê. Ela apenas balança, devagar, sem olhar para nada em especial.
Van Gogh pintou esta mulher cinco vezes seguidas no inverno de 1888 para 1889, em Arles, enquanto a sua própria vida desmoronava ao seu redor. Queria que o resultado fosse um ícone, uma imagem capaz de consolar marinheiros no meio do mar.
I
O que você vê
A tela é vertical, com cerca de 93 por 74 centímetros, e está inteiramente dominada por uma presença central: Augustine Roulin, sentada numa cadeira de braços vermelha, ocupa quase todo o espaço da composição. Não há profundidade espacial convencional, a figura preenche o quadro como uma estátua preenche uma hornacina.
Ela veste um vestido verde-escuro de mangas compridas, com o cabelo castanho preso, e os braços descansam sobre os joelhos enquanto as mãos seguram a corda invisível. A expressão é fechada, absorta, não de tristeza, mas de concentração no gesto repetitivo de balançar o berço. O olhar está ligeiramente baixo, para o lado.
O que rouba a atenção do rosto é o fundo.
Van Gogh cobriu o plano traseiro com um padrão floral exuberante: flores cor-de-rosa e brancas, que parecem crisântemos ou dálias, sobre um fundo verde intenso, com hastes onduladas em vermelho e linhas curvas que preenchem cada centímetro do espaço não ocupado pela figura.
É uma superfície decorativa e vibrante, quase sufocante na sua abundância, que contrasta com a quietude imóvel de Augustine.
A cadeira vermelha e o chão também vermelho criam uma moldura quente ao redor da figura. As cores são saturadas, aplicadas em camadas pastosas com pinceladas visíveis, a textura da tinta é parte da imagem. A seda do vestido reflete a luz em tons mais claros de verde, sugerindo volume sem ilusionismo.
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"Imaginei esse quadro entre os dois de girassóis que ficam ao lado, formando um tríptico. Os girassóis seriam como tochas ou candelabros, e a berceuse no centro. Pintei-o especialmente para os marinheiros, que são tanto crianças quanto mártires." Vincent van Gogh, carta ao irmão Theo, janeiro de 1889 (carta 741).
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II
A história por trás
Augustine-Alix Pellicot Roulin era a esposa do carteiro Joseph Roulin, uma das poucas amizades que Van Gogh construiu durante os meses turbulentos em Arles. A família Roulin, o pai com a barba espessa, a mãe, os filhos, aparece repetidamente em sua produção daquele período, como se o calor doméstico deles oferecesse um contraponto à instabilidade que o perseguia.
Van Gogh começou "La Berceuse" em dezembro de 1888, durante o período em que Paul Gauguin ainda vivia com ele na Casa Amarela. A crise que levou à mutilação da própria orelha interrompeu o trabalho. Quando se recuperou o suficiente para retomá-lo, em janeiro de 1889, pintou mais quatro versões, um processo obsessivo que ele descreveu em detalhes nas cartas ao irmão Theo.
A ideia do tríptico com os girassóis, a berceuse ao centro, os girassóis como "tochas" laterais, foi explicitada por Van Gogh em carta a Theo de janeiro de 1889: uma composição pensada como consolo para marinheiros bretões, comparando a figura da mulher que ninar a um ícone religioso popular.
A versão do Metropolitan Museum pertenceu à coleção de Walter H. e Leonore Annenberg, que a doaram ao museu em 1996.
Van Gogh nunca viu o tríptico montado. Internado em Saint-Rémy em maio de 1889, e morto em julho de 1890, deixou a ideia como projeto, documentada nas cartas, mas nunca realizada em exposição durante sua vida.
III
Por que importa
Há uma estranheza serena nesta tela que desafia a expectativa. Augustine Roulin não olha para o filho. Não sorri. Não exibe o afeto que um retrato de mãe costuma exibir. Ela apenas executa o gesto: balança. E é exatamente nessa repetição mecânica que Van Gogh encontrou o que procurava, não a maternidade como sentimento declarado, mas como presença constante e silenciosa.
Que um homem sem lar fixo, sem família própria, sem a estabilidade que nunca conseguiu manter, tenha pintado cinco vezes este ícone do aconchego doméstico diz algo sobre o que faltava e sobre o que a arte pode fazer quando falta: criar uma imagem do que não se tem, e viver dentro dela por um tempo.
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Olhe com calma.
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