|
Vermelho nas paredes, verde no teto, amarelo nas lâmpadas. Uma mesa de bilhar vazia no centro. Algumas figuras dormem encostadas na parede. É madrugada em Arles. Van Gogh dormiu três noites em claro pintando este café. Queria mostrar um lugar onde alguém poderia perder a cabeça.
I
O que você vê
A composição é dominada por uma perspectiva forçada. As paredes laterais convergem rapidamente para o fundo, criando uma sensação de instabilidade visual. O chão amarelo-ocre se inclina em direção ao espectador, com tábuas de madeira que parecem afundar.
No centro, uma mesa de bilhar verde, sem ninguém jogando, ocupa o primeiro plano. Sua sombra escura se projeta no chão de forma exagerada. Atrás dela, ao fundo, está a porta dupla com cortina rosada que dá para uma sala dos fundos. Sobre o balcão à direita, uma jarra branca, um vaso de flores e algumas garrafas de vinho.
À esquerda, contra a parede, três figuras dormem em mesas. Os corpos são quase informes, com cabeças apoiadas nos braços. Não há rosto visível. À direita, mais afastado, um homem solitário com paletó preto encara o espectador, parado em pé como uma sentinela. Mais ao fundo, dois fregueses sentados a uma mesa baixam a cabeça sobre garrafas de absinto.
No teto, quatro lâmpadas a gás emitem círculos de luz amarela com halos verdes ao redor. Cada lâmpada é cercada por uma auréola circular de tinta amarela vibrante. As paredes vermelho-vivo absorvem essa luz e a devolvem alterada. O contraste entre o vermelho-sangue das paredes e o verde-bile da mesa de bilhar gera uma tensão cromática física, quase dolorida.
A pincelada é direta, espessa, sem nuance. Van Gogh aplicou tinta densa, em pasta, com pinceladas curtas e direcionais. As linhas das paredes não são paralelas. As mesas estão em ângulos errados. Tudo se inclina, treme, vibra.
|
"Eu tentei expressar com vermelho e verde as terríveis paixões humanas. O salão é vermelho-sangue e amarelo-pálido, com uma mesa de bilhar verde no meio." Vincent van Gogh, carta ao irmão Theo, 8 de setembro de 1888.
|
II
A história por trás
Vincent van Gogh chegou a Arles, no sul da França, em fevereiro de 1888. Buscava luz, e encontrou também solidão e insônia. Hospedou-se inicialmente no Café de la Gare, na Place Lamartine, propriedade de Joseph e Marie Ginoux. Depois mudou-se para a Casa Amarela, ali perto, mas continuou frequentando o café diariamente.
O Café da Noite foi pintado entre 4 e 8 de setembro de 1888, segundo as cartas de Van Gogh ao irmão Theo. O pintor passou três noites seguidas dentro do café, dormindo durante o dia e trabalhando à noite, tomando muito café preto. O proprietário Ginoux permitiu o experimento porque Van Gogh pagava o aluguel das hospedagens e da comida com pinturas, num sistema de troca informal.
A escolha das cores foi consciente e teórica. Van Gogh estudava as teorias cromáticas de Charles Blanc e Eugène Chevreul, físico francês cujos estudos sobre o contraste simultâneo das cores tinham influenciado o impressionismo. A oposição complementar de vermelho e verde gera, segundo Chevreul, um efeito de vibração na retina. Van Gogh usou esse princípio para criar não um efeito decorativo, mas um efeito psicológico: o desconforto físico do olhar dentro do café.
Em outra carta a Theo, datada de 9 de setembro, Van Gogh escreveu: "Procurei expressar a ideia de que o café é um lugar onde alguém pode arruinar a si mesmo, enlouquecer ou cometer um crime." Esta sentença é provavelmente a chave da obra. Van Gogh não pintou um café simpático, decorativo. Pintou um lugar onde a noite acontece quando o dia já desistiu.
A obra foi vendida pelo irmão Theo, marchand em Paris, e passou por várias coleções europeias. Em 1933, foi adquirida por Stephen Carlton Clark, herdeiro da fortuna Singer. Em 1961, ele a doou à Yale University Art Gallery, onde está até hoje em New Haven, Connecticut.
III
Por que importa
O Café da Noite é um experimento de cor. Mas é também um experimento moral. Van Gogh queria saber se a pintura podia carregar não apenas o que se vê, mas o que se sente diante do que se vê. A resposta foi sim. Quem entra na sala onde o quadro está pendurado sente o ar pesar.
Setenta anos antes do expressionismo abstrato, dez anos antes da palavra ansiedade entrar na psiquiatria moderna, Van Gogh pintou ansiedade. Não como cena, mas como espaço. As paredes vermelhas continuam vibrando. A mesa de bilhar continua vazia. As lâmpadas continuam acesas. E o homem de paletó preto continua olhando para você, esperando, sem dizer o que.
Olhe com calma.
|