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Van Gogh contou em carta que esta tela levou menos de uma hora. O que parece pressa é decisão acumulada: meses de convivência tensa e um rosto que ele conhecia de cor. Repare em como nenhum traço hesita.
Em novembro de 1888, Van Gogh e Gauguin viviam juntos numa casa amarela em Arles, no sul da França. A convivência estava tensa, as visões artísticas dos dois colidiam a cada dia.
Foi nesse período que ambos pediram a Marie Ginoux, a dona do café onde frequentemente jantavam, que posasse para um retrato. Gauguin fez um esboço a carvão.
Van Gogh, com base nesse esboço, pintou em menos de uma hora, segundo a sua própria carta, aquela que viria a ser uma de suas imagens mais directas e mais replicadas.
I
O que você vê
A tela tem 91 por 74 centímetros e é dominada pelo amarelo intenso do fundo, um amarelo que não é dourado nem suave, mas saturado, quase vibrante, que ocupa toda a área atrás da figura e confere à composição uma energia imediata.
Madame Ginoux está sentada de três quartos, ligeiramente voltada para a esquerda do espectador. Usa uma blusa branca com detalhes em rosa no peito, sobre ela um casaco escuro, preto com reflexos azul-esverdeados, que cobre os ombros. No pescoço, um laço branco. Os cabelos pretos estão apanhados na nuca, com um detalhe de tecido azul que mal se vê.
Sobre a mesa verde à sua frente repousam dois livros: um laranja-amarelo e um vermelho, pousados de forma casual. A mão esquerda da mulher descansa sobre a mesa, o rosto apoiado levemente no punho direito, o cotovelo dobrado. O olhar vai levemente para a direita, pensativo ou distraído.
O rosto é de traços precisos: sobrancelhas arqueadas, olhos escuros, queixo firme. A expressão não é inteiramente legível, há algo entre a compostura e o cansaço, entre a dignidade e o tédio.
As pinceladas são visíveis em todo o quadro, especialmente no fundo amarelo, onde se cruzam em direções diferentes, dando à superfície uma textura que vibre sem tremular.
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"Gostaria que as pessoas vissem neste trabalho a simplificação de uma figura heroica." Vincent van Gogh, carta ao irmão Theo, janeiro de 1889 (Carta 736, *The Complete Letters of Vincent van Gogh*).
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II
A história por trás
Van Gogh chegou a Arles em fevereiro de 1888, em busca de luz e cor. Instalou-se primeiro num hotel, depois alugou a famosa Casa Amarela. Passava os dias pintando, campos de girassóis, quartos, cafés, retratos de habitantes locais.
Marie Julien, casada com Joseph-Michel Ginoux, era co-proprietária do Café de la Gare, na Place Lamartine. Van Gogh frequentava o estabelecimento e ficou tão próximo do casal que mais tarde, já internado no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, continuou a receber cartas de ambos.
Gauguin chegou a Arles em outubro de 1888, num experimento de convivência que o próprio Van Gogh esperava que durasse anos. Durou dois meses.
Em novembro, enquanto a tensão aumentava, os dois pintaram Madame Ginoux. Gauguin fez um esboço a carvão, rápido e expressivo. Van Gogh trabalhou a partir desse esboço numa única sessão e produziu a versão do Metropolitan.
Ele mesmo descreveu o processo numa carta ao irmão Theo: havia pintado a figura em menos de uma hora, aproveitando a rapidez como método para capturar algo que a deliberação poderia destruir.
Van Gogh produziu depois ao menos mais quatro versões da L'Arlésienne, de tamanhos e composições ligeiramente diferentes, sempre baseadas no esboço de Gauguin. A versão do Metropolitan, de novembro de 1888, é considerada a primeira e a mais imediata. A ruptura com Gauguin veio em dezembro, com o episódio em que Van Gogh se mutilou a orelha.
III
Por que importa
L'Arlésienne é um retrato de uma pessoa real, Marie Ginoux, que viveu em Arles, que enviou cartas a Van Gogh enquanto ele esteve internado, que morreu em 1911. Mas é também algo mais: uma figura que Van Gogh transformou em símbolo de uma região, de um temperamento, de uma presença feminina que ele associava ao sul e à sua própria esperança de estabilidade.
O que o amarelo do fundo faz à figura é inseparável do que Van Gogh queria dizer com ela. Ele não pintava retratos para registar aparências. Pintava para fixar estados, da luz, da matéria, da pessoa diante de si. Marie Ginoux ficou sentada durante uma hora. Ele ficou com ela para sempre.
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Olhe com calma.
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