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O vestido é de um vermelho tão denso que ocupa quase metade da tela. Mas o olhar não fica no vestido: fica na criança, de azul e ouro, que ergue os braços em direção à mãe com a urgência impaciente de quem quer colo.
Van Dyck pintou este retrato em Gênova por volta de 1623, com vinte e quatro anos. Ainda era jovem para redefinir o gênero, mas foi exatamente o que fez.
I
O que você vê
A tela é vertical e monumental: quase dois metros e vinte de altura. A mulher está de pé, em tamanho natural, ligeiramente virada para a direita do observador. O rosto é sereno, com um leve sorriso nos lábios, e o olhar também se dirige levemente para a lateral. Na cabeça, uma rede bordada a vermelho prende os cabelos castanhos.
O vestido domina a composição: um casaco de cetim vermelho-escarlate com bordados dourados em arabescos, abotoado na frente por pequenos botões dourados, com manga longa e punhos cinza grafite. Sobre os ombros, o vestido cai em pregas volumosas. A escala do traje é impressionante, ele tem peso, textura, presença física.
Ao seu lado esquerdo, a criança. Pequena, de cabelos cacheados ruivos, vestida num traje azul e dourado com gola de renda, ela empurra as palmas das mãos contra a saia da mãe, num gesto completamente natural, à beira de um choro ou de uma risada.
A mãe não olha para ela, olha para o pintor, para nós. Mas a mão direita da mulher se aproxima da criança, num gesto protetor quase inconsciente.
Ao fundo, uma cortina escura cobre o lado esquerdo; à direita, um portal de arquitetura severa. O contraste entre o fundo sombrio e o vermelho incandescente do vestido é deliberado e eficaz, ela brilha.
O chão é um mosaico geométrico de pedra, cuidadosamente pintado nos cantos visíveis, que ancora a cena na realidade material de um palácio genovês.
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"Van Dyck transformou a tradição do retrato de elite, enviando ondas de choque por toda Gênova e mudando instantaneamente a direção do retrato aristocrático na cidade." Cleveland Museum of Art, ficha da obra, 1954.
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II
A história por trás
Anthony van Dyck nasceu em Antuérpia em 1599 e desde cedo revelou um talento perturbador. Aos dezoito anos já era membro da guilda de pintores local; aos dezenove, trabalhava no ateliê de Rubens como seu assistente mais talentoso. Mas Rubens era Rubens, cedo demais para Van Dyck se tornar grande em sua sombra.
Em 1621, Van Dyck partiu para a Itália. Passou por Veneza, Roma, Palermo e Turim, mas foi em Gênova que encontrou sua clientela mais fértil: a aristocracia mercantil da cidade, fabulosamente rica, que queria retratos à altura de sua fortuna.
Van Dyck ficou em Gênova de forma intermitente entre 1621 e 1627, e ali desenvolveu o que se tornaria sua marca registrada, o retrato em tamanho natural, com fundo de arquitetura clássica e cortinas dramaticamente dispostas.
Antes dele, os grandes retratos de poder enfatizavam os atributos do status: a cadeia de cargo, o brasão, a postura hierática. Van Dyck não abandonou esses elementos, mas acrescentou algo que faltava: a pessoa. O rosto pensativo, o gesto espontâneo, a relação entre a figura e o espaço ao redor.
Neste retrato, o detalhe da criança que se agarra à saia da mãe não estava em nenhum manual de retrato de elite. Van Dyck o colocou porque estava ali, diante de seus olhos.
A identidade da retratada permanece desconhecida. Sabe-se que pertencia à aristocracia genovesa, pelo porte, pela escala do retrato e pela qualidade da indumentária. O quadro foi adquirido pelo Cleveland Museum of Art em 1954 como doação do Hanna Fund.
III
Por que importa
Van Dyck inventou o modelo do retrato que ainda usamos, a ideia de que um bom retrato deve capturar não apenas a aparência, mas o caráter, o humor, a presença viva de quem está diante do pintor. Quando fotógrafos do século XIX começaram a fazer retratos formais, copiaram conscientemente a pose, a iluminação e o enquadramento que Van Dyck havia estabelecido dois séculos antes.
O que permanece vivo nesta tela não é o vestido vermelho, por mais espetacular que seja. É a criança impaciente, com os braços erguidos, à espera. Quatrocentos anos se passaram, e o gesto é o mesmo de qualquer criança de dois anos em qualquer tarde de hoje.
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Olhe com calma.
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