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Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 072

A Adoração dos Magos

Hugo van der Goes · Óleo sobre madeira

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A Adoração dos Magos

Ver obra original no The Met →

Quando uma cena já foi pintada por todo mundo, o que resta é o tom, e o tom aqui é de cerimônia quieta, quase missa ao amanhecer. É essa solenidade que distingue esta tábua flamenga. Repare no ritmo antes dos presentes.

A cena é das mais repetidas na história da pintura europeia: três sábios do oriente chegam diante de um recém-nascido numa estrebaria e lhe oferecem presentes. Centenas de pintores a executaram, de Giotto a Botticelli.

Mas esta versão, atribuída ao círculo de Hugo van der Goes e produzida nos Países Baixos por volta de 1500, tem um ritmo próprio, quieto, solene, quase cerimonial, que a distingue da maioria.

I

O que você vê

A tela é aproximadamente quadrada, 74 por 65 centímetros, e a composição organiza-se numa faixa horizontal densa, com as figuras preenchendo quase todo o espaço disponível.

Ao centro-esquerda está a Virgem, sentada de frente, de manto verde e toca branca, segurando o Menino recém-nascido com ambas as mãos. O bebê está completamente nu, deitado no colo da mãe. Atrás dela, São José, figura mais velha, barba grisalha, manto azul, observa a cena com discrição.

O primeiro Mago, ajoelhado, ocupa o centro exato da composição. É um homem idoso, de barba branca e vestes carmesim ricamente bordadas. Suas mãos juntas, em gesto de oferenda, seguram uma taça dourada já pousada diante do Menino.

Ao lado, de pé, um segundo Mago de tez mais jovem, com turbante avermelhado, segura um recipiente dourado. O terceiro Mago, de pele escura, jovem, com roupas de brocado laranja e dourado, observa da direita com um cálice ainda fechado nas mãos.

Ao fundo, entre os pilares de uma arquitetura simples, abre-se uma paisagem clara: céu azul, colinas e uma cidade ao longe, pintada com o mesmo cuidado aplicado ao primeiro plano.

A luz é difusa e uniforme, sem dramatismo barroco. As expressões são contidas. Ninguém sorri, ninguém gesticula. O que domina é uma seriedade contemplativa, a consciência de que o que acontece ali tem peso para além do momento.

"Os flamengos pintam com um pincel embebido em emoção e devoção, e raramente representam santos." Frei José de Sigüenza, *Historia de la Orden de San Jerónimo*, 1605, sobre a pintura dos Países Baixos.

II

A história por trás

Hugo van der Goes foi o mais ambicioso e o mais atormentado dos pintores flamengos do século XV. Nasceu por volta de 1440, provavelmente em Gand, e tornou-se mestre na guilda local em 1467.

Sua obra mais celebrada, o Tríptico Portinari, hoje nos Uffizi, foi encomendada por Tommaso Portinari, agente dos Médici em Bruges, e enviada a Florença por volta de 1480, onde causou sensação entre os pintores italianos.

Nos últimos anos de vida, Hugo retirou-se para o mosteiro de Rooden Dale, perto de Bruxelas, como irmão leigo. Lá continuou a pintar, mas sofreu uma crise mental severa, possivelmente melancolia profunda, como registrou um cronista contemporâneo, Gaspar Ofhuys, que o incapacitou temporariamente. Morreu em 1482 ou 1483.

Esta versão da Adoração dos Magos é datada pelo Metropolitan pelo estilo como produção do final do século XV ou início do XVI, ligada ao círculo de Hugo van der Goes, o que indica tanto aprendizes directos quanto artistas que absorveram e continuaram o seu vocabulário formal. A obra entrou para o Met em 1871, entre as primeiras aquisições da instituição recém-fundada.

O tema da Adoração era particularmente caro aos mecenas flamengos porque permitia incluir figuras de diferentes idades, origens e etnias, uma demonstração de universalidade que servia ao mesmo tempo à devoção e ao prestígio de quem encomendava.

III

Por que importa

Há uma contenção nesta pintura que é, em si mesma, uma posição estética. Numa época em que a pintura italiana trabalhava com gestos amplos e emoções manifestas, a tradição flamenga apostava no detalhe, no silêncio, na superfície cuidadosamente construída. Os tecidos são bordados com atenção de ourivesaria. Os rostos registam estados interiores sem os explicar.

O resultado é uma obra que não entrega tudo de imediato. Quanto mais tempo se passa diante dela, mais ela revela, um fio de dourado no manto, uma expressão ambígua no rosto do terceiro Mago, a proporção exata entre o Menino e as mãos que o seguram. Era essa camada de leitura lenta que os colecionadores flamengos valorizavam. E que ainda funciona.

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Verdadeiro ou Falso: Hugo van der Goes passou os últimos anos de vida num mosteiro nos arredores de Bruxelas, onde continuou a pintar até sofrer uma crise mental severa.

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