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Três objetos humildes bastaram pra uma jovem de vinte e poucos anos forçar as portas da Academia de Paris. O copo d'água transparente foi o exame final, e ela passou com folga. Demore nele antes de ler o porquê.
Sobre uma prateleira de pedra cinzenta, três objetos simples: uma cesta de vime cheia de ameixas roxas e vermelhas, um pão partido envolto em papel branco e um copo de água transparente. Nada mais.
Anne Vallayer-Coster pintou esta natureza-morta em 1769, aos 25 anos, e com ela abriu as portas da Academia Real de Pintura e Escultura de Paris, instituição que raramente admitia mulheres e que, quando o fazia, era quase sempre nos géneros considerados menores. A natureza-morta era um deles.
Vallayer-Coster transformou essa limitação em especialidade.
I
O que você vê
A tela é pequena e horizontal, 38 por 46 centímetros, com a composição disposta ao longo de uma linha baixa, como um friso. O fundo é escuro, quase negro, sem qualquer indicação de espaço ou profundidade além do plano imediato.
A cesta de vime ocupa a direita da composição. É de estrutura aberta, com bordas irregulares e um fio de palha solto que cai sobre a prateleira.
Dentro dela, as ameixas acumulam-se em camadas: roxas escuras na parte superior, com tons vermelhos e rosados aparecendo nas frutas mais próximas da luz. Entre elas, folhas verdes ainda presas aos galhos. A superfície das ameixas tem a opacidade ligeiramente aveludada da fruta madura.
À esquerda, o pão, que se revela um bolo ou biscoito ao ser examinado mais de perto, está partido ao meio e pousado sobre um pedaço de papel branco dobrado, que serve de embrulho.
A textura da crosta é construída com pinceladas visíveis, mais espessas, que imitam a irregularidade da massa assada.
Entre o pão e a cesta, o copo de água é quase invisível: um contorno de vidro fino contra o escuro, com apenas uma faixa de luz no topo a identificar o líquido transparente.
A luz vem da esquerda e é a única fonte de drama da tela. Ela toca o topo das ameixas, brilha no copo e ilumina o papel branco sem sombra nenhuma. O resto recua para a penumbra.
A obra tem uma compacidade notável. Cada elemento ocupa exatamente o espaço que precisa, não há nada supérfluo, nenhum gesto de ornamentação.
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"Ela está dotada de todos os talentos da pintura e pode rivalizar com os maiores pintores de flores e de natureza-morta." Denis Diderot, *Salons*, 1769, sobre Anne Vallayer-Coster.
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II
A história por trás
Anne Vallayer nasceu em Paris em 1744, filha de um ourives que trabalhava para a Manufatura Real de Gobelins. Cresceu rodeada de oficinas de arte aplicada e de artesãos que tratavam o detalhe com seriedade técnica, uma formação que se lê directamente na sua pintura.
Em 1770, um ano após ter pintado a Cesta de Ameixas, foi admitida na Academia Real de Pintura e Escultura. Tinha 26 anos. A admissão de mulheres na instituição era excepcional: de 1648 a 1706, apenas quatro tinham entrado; entre 1706 e 1770, a entrada feminina estava de facto bloqueada.
Vallayer-Coster foi admitida na categoria de pintora de flores e natureza-morta, géneros vistos como tecnicamente exigentes mas intelectualmente inferiores à pintura de história e ao retrato.
Ela ignorou o preconceito implícito nessa hierarquia e fez da natureza-morta um campo de investigação rigorosa. Expôs regularmente no Salon de Paris. Em 1781 casou com o advogado Jean-Pierre-Silvestre Coster, daí o nome duplo. Manteve a carreira ativa mesmo durante a Revolução Francesa, período em que a encomenda de pinturas decorativas secou quase completamente. Maria Antonieta tinha sido uma das suas protectoras.
A obra do Cleveland chegou à instituição em 1971. O museu identifica que existe uma obra companheira, um prato de pêssegos com ramo de cerejas, pintada no mesmo período, o que sugere que as duas foram concebidas como par.
III
Por que importa
A natureza-morta era considerada um género menor porque não narrava, não moralizava, não glorificava. Pintava coisas. Para a academia do século XVIII, isso era pouco. Para os colecionadores e para os artistas que vieram depois, foi precisamente isso que lhe deu valor: a presença direta dos objetos, sem a mediação de uma história.
Vallayer-Coster percebeu isso antes de muitos. A sua cesta de ameixas não diz nada além do que é, mas diz com tanta precisão que continua a parecer fresca depois de dois séculos e meio. É o paradoxo do género que ela escolheu ou que lhe foi imposto: quanto mais humilde o assunto, mais duradouro o resultado.
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Olhe com calma.
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