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Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 084

O Temerário

J.M.W. Turner · 1839 · Óleo sobre tela

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O Temerário

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Um pintor de sessenta e três anos viu um velho navio de guerra ser puxado rio acima por um rebocador cuspindo fumaça e decidiu que aquele reboco banal seria a imagem mais amada da Inglaterra.

O barco não ia para nenhuma glória. Ia para o desmanche. Um estaleiro no Tâmisa esperava para arrancar sua madeira, derreter seus pregos e vender o que sobrasse. Um herói de Trafalgar reduzido a matéria-prima, rebocado como um móvel velho.

Turner não pintou a batalha que fez a fama do navio. Pintou o funeral silencioso, o instante em que uma era inteira era arrastada para fora de cena por uma máquina fumegante. E envolveu tudo numa luz de pôr do sol tão dourada que a despedida virou celebração.

I

O que você vê

O Temerário ocupa a metade esquerda da tela, altíssimo, pálido, quase transparente. Seus mastros sobem finos contra o céu, a madeira clara reflete a luz como osso lavado. Ele parece mais fantasma do que navio, uma aparição de outro tempo flutuando sobre a água parada.

À frente dele, pequeno e escuro, vem o rebocador a vapor. Baixo, atarracado, com uma chaminé preta que solta fogo e fuligem para cima. É a única mancha suja de toda a composição, e é ela que arrasta o gigante branco para o seu fim.

O contraste é o quadro inteiro. O velho é alto, o novo é baixo. O velho é claro, o novo é preto. O velho navega em silêncio, o novo bufa vapor e faísca. Turner não precisa de uma única palavra para dizer que uma coisa está morrendo e outra tomando o lugar.

À direita, o sol se põe. O céu explode em laranja, ouro e um vermelho de brasa que escorre pela água até tocar o casco do rebocador. É o fim do dia, mas também o fim de um mundo, e a luz sabe disso. Ela banha a cena com uma solenidade que nenhum funeral consegue.

Repare no lado esquerdo, onde o Temerário está. Ali o céu é frio, azulado, quase lunar. Uma lua pálida já surge no alto. De um lado o pôr do sol quente do futuro que chega, do outro a luz fria e prateada do passado que se recolhe. A tela é dividida por uma linha invisível entre dois tempos.

E a água quase não se move. Não há onda, não há tempestade, não há drama. Só o reflexo dourado tremendo de leve e o navio deslizando devagar para onde nunca mais voltará. Turner transformou um evento portuário sem importância na coisa mais comovente que se podia pintar.

"O último dos meus filhos." Turner chamava assim algumas de suas telas mais queridas, e recusou por anos vender esta, apesar das ofertas. Ele deixou o quadro para a nação com a condição de que nunca fosse retirado da National Gallery, onde ainda hoje para o visitante no mesmo lugar.

 
◆︎◆︎◆︎
 

II

A história por trás

O HMS Temeraire foi um dos navios mais célebres da Marinha britânica. Em 1805, na Batalha de Trafalgar, ele lutou logo atrás do navio do almirante Nelson e resgatou o combate num momento crítico, capturando dois navios inimigos de uma vez. Virou lenda naval, cantado em poemas e brindado em tavernas por toda a Inglaterra.

Mas navios de madeira e vela têm vida curta diante do tempo. Três décadas depois de sua hora de glória, o Temerário estava velho, desarmado e sem função. A Marinha o vendeu a um comerciante de sucata em 1838. O que restava do herói de Trafalgar valia agora pela madeira e pelo metal.

Em setembro daquele ano, dois rebocadores a vapor o levaram de seu ancoradouro em Sheerness rio acima até um estaleiro em Rotherhithe, perto de Londres, para ser desmontado. A viagem final durou dois dias e cruzou o Tâmisa que Turner conhecia palmo a palmo. Reza a história que o próprio pintor teria visto a cena passar.

Turner tinha então mais de sessenta anos e era o artista mais famoso e mais controverso da Inglaterra. Guardou a imagem daquele reboco e a levou para o ateliê, onde a recompôs à vontade. Ele mudou detalhes para servir ao sentimento, não à precisão. Colocou um pôr do sol onde na verdade o navio seguia em direção contrária, e desenhou o Temerário com os mastros ainda de pé, embora já estivesse desmastreado na viagem real.

A tela foi exposta na Royal Academy em 1839 e caiu como um trovão. O público entendeu na hora do que se tratava. Não era apenas um navio, era a Inglaterra da vela, do heroísmo naval e das grandes velas brancas cedendo lugar ao ferro, ao vapor e à fumaça das fábricas. Todo mundo tinha um pai, um mundo ou uma época daquela cor pálida sendo rebocado para longe.

Turner segurou o quadro pelo resto da vida. Recusou compradores, recusou dinheiro e o deixou de herança para o povo britânico com a exigência de que ficasse pendurado ao lado das obras que ele mais admirava. Ele sabia o que tinha pintado.

 
◆︎◆︎◆︎
 

III

Por que importa

Porque Turner transformou uma perda em beleza sem mentir sobre a perda. O quadro não finge que o progresso é indolor. O rebocador é feio, preto e fumacento de propósito. Mas em vez de reclamar do novo, o pintor deu ao velho a despedida mais luminosa que a arte já concedeu, e ensinou que se pode honrar o que termina sem odiar o que começa.

A tela também marca o instante em que a paisagem virou emoção pura. Antes de Turner, o pôr do sol servia de cenário. Com ele, a luz vira personagem, sentimento e argumento. Aquele céu em brasa não decora a cena, ele é a cena. Meio século depois, os impressionistas franceses olhariam para essas explosões de cor e entenderiam que a luz podia ser o assunto inteiro de um quadro.

E há o gênio de escolher o momento certo. Turner poderia ter pintado Trafalgar, o canhão, o sangue, a vitória. Escolheu o anticlímax, o reboco silencioso trinta anos depois, quando ninguém batia palma. Descobriu que o fim de uma glória comove mais do que a glória em si, porque todo mundo, mais cedo ou mais tarde, é rebocado para fora de cena.

Quando os britânicos foram convidados a eleger o quadro favorito do país, em duas pesquisas diferentes, foi este que venceu. Não uma cena de coroação, não um retrato real, não uma batalha triunfante. Um navio velho indo para o desmanche ao pôr do sol. Algo naquela luz dourada tocou a nação inteira e nunca mais soltou, porque ninguém escapa de ver o próprio mundo ser levado embora, e todos gostariam que fosse com aquela luz.

Olhe com calma.

 

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