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O diagnóstico é inequívoco para quem conhece a gramática da pintura holandesa do século XVII: a jovem não está doente de nenhuma febre comum. O médico de chapéu de aba larga que se debruça sobre ela com um sorriso levemente malicioso sabe disso. O homem de traje escuro sentado ao fundo também sabe. Só a protagonista — de cabeça inclinada, mão na têmpora, olhar perdido — parece não encontrar palavras para explicar o que sente. Jan Steen pintou este quadro por volta de 1660 e o chamou, com precisão irônica, de *A donzela apaixonada*.
I
O que você vê
A tela é quase quadrada, medindo 86 por 99 centímetros, e o formato acomoda bem a cena de interior que Steen compõe com habilidade coreográfica. Três personagens principais, mais detalhes que contam histórias paralelas em cada canto.
Ao centro, ligeiramente deslocada para a esquerda, está a jovem. Ela usa um vestido de seda amarelo-dourado brilhante, com uma capa azul forrada de branco. Na cabeça, um lenço branco. A mão direita repousa sobre a têmpora como quem combate uma dor de cabeça; o rosto está voltado para baixo, a expressão entre o desânimo e o arrebatamento. É uma figura fisicamente presente mas mentalmente ausente.
O médico, ao lado esquerdo, usa um grande chapéu cônico preto e um casaco marrom-dourado. Inclina-se levemente em sua direção com um gesto que é ao mesmo tempo de exame e de cumplicidade — quase um sorriso contido. Ao fundo, sentado junto a uma cama com dossel escuro, outro homem observa a cena com atenção calma.
À esquerda, uma janela arqueada abre para um jardim ensolarado, com uma torre ao longe — detalhe tão característico de Steen que funciona quase como assinatura geográfica (provavelmente Leiden, sua cidade). Sobre uma mesa com toalha vermelha, uma jarra de prata e outros objetos. No chão, à direita, um cão branco e castanho dorme profundamente sobre uma almofada — a única criatura completamente indiferente ao drama.
No canto inferior esquerdo, objetos espalhados no chão: uma bacia de latão, uma coleira, pequenos objetos caídos. Steen adorava esse tipo de desordem calculada, carregada de simbolismo.
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"Steen era um observador tão agudo do comportamento humano que os holandeses ainda usam a expressão 'uma casa de Jan Steen' para descrever uma casa em desordem." Seymour Slive, *Dutch Painting 1600–1800*, 1995.
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II
A história por trás
Jan Steen nasceu em Leiden, na Holanda, em 1626, filho de um cervejeiro. Estudou pintura com Jan van Goyen — cujo nome carrega peso na tradição paisagística holandesa — e mais tarde casou-se com a filha do mestre. Trabalhou em Leiden, Haia, Delft e Haarlem. Em Delft chegou a gerir uma taverna para complementar a renda, o que inspirou décadas de especulação biográfica sobre seu próprio gosto pela desordem.
O tema do "médico visitando uma jovem doente" era um gênero estabelecido na pintura holandesa do século XVII. Artistas como Gerrit Dou e Frans van Mieris o cultivaram com detalhamento meticuloso. Mas a grande sacada do gênero era o duplo sentido: o espectador culto sabia que o médico não estava ali para diagnosticar febre ou infecção — estava diante do *mal de amor*, condição reconhecida pela medicina da época como causa legítima de prostração física.
Steen levou esse código ao extremo com ironia benevolente. Seus personagens sabem da situação, o espectador sabe, só a jovem parece não querer admitir. O sorriso do médico não é cruel: é o sorriso de quem viu essa cena muitas vezes e sabe que o remédio não cabe em nenhuma farmácia.
O quadro foi legado ao Metropolitan Museum em 1945 por Helen Swift Neilson e integra hoje o acervo de pinturas europeias do museu.
III
Por que importa
Steen é frequentemente subestimado como "o pintor cômico" da Holanda — o que é uma injustiça parcial. Sim, ele pintou cenas de taverna, crianças travessas e casas em caos festivo. Mas sob o humor há sempre uma observação precisa da condição humana: a autoilusão, a vulnerabilidade, o descompasso entre o que sentimos e o que conseguimos dizer.
Esta donzela apaixonada, com sua seda dourada e seu cão indiferente, ainda ressoa porque o mal que ela tem não envelhece. Não há diagnóstico para ele, e Steen sabia disso. Por isso o médico sorri — e não prescreve nada.
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Olhe com calma.
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