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Um crítico olhou pra este bar e chamou o homem do cravo vermelho de aranha esperando a mosca. Depois de ler isso, é impossível enxergar outra coisa na tela. Olhe com calma antes de continuar.
Uma mulher de negro senta entre dois homens que não se falam. À sua esquerda, um homem de terno marrom, com um cravo vermelho na lapela, olha diretamente para ela. À sua direita, outro homem se debruça sobre uma mesa com toalha branca e uma taça de vinho.
No meio, ela, com um grande chapéu preto, olha para a frente, sem retribuir nenhum dos olhares. É um bar em Filadélfia, 1901. John Sloan está observando.
I
O que você vê
A tela é vertical, com cerca de 90 por 69 centímetros. A cena se passa num interior sombrio e fechado: um estabelecimento com paredes bege-acinzentadas, molduras douradas com reflexos de espelhos ou pinturas decorativas ao fundo, e um barrado de madeira escura. No canto superior, cortinas de veludo preto prendem-se a varões e drapeiam o teto.
No primeiro plano à esquerda, o homem sentado numa cadeira de vime dobrado: elegante, com terno castanho-escuro, colete, gravata preta e um cravo vermelho na lapela. O olhar fixo, a postura relaxada mas vigilante. Segura algo na mão direita, talvez um charuto ou uma bebida.
No centro, a mulher está de perfil para a direita, vista da cabeça aos joelhos. Veste um conjunto escuro, quase preto, com detalhes na gola. O chapéu é imenso, uma construção negra que domina o topo da composição. Na mão direita, uma bolsa ou carteira. Ela não olha para nenhum dos dois homens.
À direita, o segundo homem se inclina sobre uma mesa redonda coberta por toalha branca. Sobre a mesa, uma taça de vinho já em uso. Ele parece escrevinhar ou ler.
Entre os dois planos, uma cadeira de vime vazia e, sobre ela, uma lanterna ou balde de gelo com canudos, um detalhe de ambiente que marca o tom descontraído do bar. No fundo, figuras fantasmáticas mal distinguíveis no espelho ou na parede.
A paleta é sombria, castanhos, pretos, bege desgastado, com os únicos pontos de cor claros na toalha branca da mesa e no cravo vermelho da lapela.
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"Sloan pinta sem ilusões, sem embelezamento, sem sentimentalismo. Ele olha para a cidade como ela é." Robert Henri, carta a John Sloan, c. 1905.
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II
A história por trás
John Sloan nasceu em 1871 em Lock Haven, Pensilvânia, e cresceu em Filadélfia. Trabalhou como ilustrador para o *Philadelphia Inquirer* e o *Philadelphia Press* ao longo dos anos 1890, desenvolvendo um olhar rápido e incisivo para a vida urbana cotidiana, a capacidade de capturar um gesto, uma situação, uma tensão social em poucos traços. Esse olhar jornalístico nunca abandonou a sua pintura.
Em 1901, quando pintou *O Rathskeller*, Sloan tinha 30 anos e ainda era relativamente desconhecido como pintor. Mas fazia parte de um grupo de artistas de Filadélfia em torno de Robert Henri que começava a questionar o academicismo dominante. Henri pregava que a arte deveria mergulhar na vida real, nas ruas, nos bares, nos quartos de pensão, nos parques populares.
A obra descreve um momento de tensão social discretíssima: num bar onde uma cerveja custava centavos e uma garrafa de champanhe marcava uma diferença de classe visível, uma mulher da classe trabalhadora está sentada entre um homem que toma cerveja com ela e outro, mais próspero, com o champanhe e a flor na lapela, que a observa de longe.
Um crítico contemporâneo descreveu o homem à esquerda como "uma aranha esperando a mosca". A mulher não demonstra intenção alguma.
Sloan mudou-se para Nova York em 1904 e tornou-se um dos membros fundadores do grupo conhecido como Ashcan School, pintores que colocaram o lado rude, real e sem glamour da vida urbana americana no centro da arte. O Cleveland Museum of Art adquiriu a obra em 1946.
III
Por que importa
Sloan pintou a vida como ela acontecia nos lugares onde pessoas comuns se reuniam, não heróis, não alegorias, não paisagens sublimes. Um bar de Filadélfia, três pessoas que se ignoram mutuamente, uma diferença de classe condensada em dois pedidos de bebida.
A cena não tem moral declarada. Sloan não julga a mulher, não condena o homem, não sentimentaliza a situação. Apenas a vê, com o mesmo olhar treinado nos anos de jornalismo, capaz de reconhecer que uma narrativa inteira pode estar contida num instante, num gesto que quase não aconteceu.
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Olhe com calma.
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