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Diana se prepara. As ninfas se equipam. Os cães puxam as coleiras. Tudo está em movimento, tudo está a ponto de acontecer. Rubens não pintou a caçada. Pintou o segundo antes da caçada. E nesse segundo, toda a energia do mundo parece concentrada.
I
O que você vê
Diana está no centro, seminua, com uma lua crescente na tiara e um arco na mão. Ao redor, ninfas em diferentes estágios de preparação: uma amarra sandálias, outra segura lanças, uma terceira controla um galgo que puxa impaciente. A composição é diagonal, da parte inferior esquerda à superior direita, criando um impulso visual que empurra tudo pra frente.
A carne é Rubens no estado puro. Corpos redondos, pele rosada, músculos que se movem sob a superfície. A luz bate nos ombros, nos seios, nas coxas, criando volumes que parecem tridimensionais. Cada corpo tem peso. Cada gesto tem inércia.
Os cães são pintados com a mesma atenção que as figuras humanas. Um galgo branco se estica, ansioso. Outro fareja o ar. São criaturas reais, observadas com a mesma intensidade que Rubens dedicava à anatomia humana.
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"Rubens pinta a vida como se ela estivesse prestes a transbordar da tela." Jacob Burckhardt, historiador da arte.
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II
A história por trás
Peter Paul Rubens nasceu em Siegen, na Alemanha, em 1577, mas cresceu em Antuérpia. Estudou na Itália entre 1600 e 1608, absorvendo Ticiano, Caravaggio e os antigos. Voltou pra Antuérpia e montou o maior ateliê da Europa: dezenas de assistentes, produção em escala, encomendas de toda a aristocracia continental.
Esta tela é de cerca de 1615, quando Rubens tinha 38 anos e já era o pintor mais famoso da Europa. Diana, deusa da caça e da castidade, era um tema que permitia combinar duas coisas que ele amava: nus femininos e animais em ação. A mitologia era o pretexto. O verdadeiro assunto era o corpo em movimento.
A técnica de Rubens era extraordinariamente rápida pra telas desse tamanho. Ele começava com um esboço a óleo sobre uma camada preparatória cinza-clara. Depois construía as figuras em camadas de cor cada vez mais opacas, deixando a preparação visível nas sombras. O resultado era uma pintura que parecia feita de luz: as sombras são finas e transparentes, os destaques são grossos e opacos.
Rubens era também diplomata. Serviu como embaixador entre a Espanha e a Inglaterra, negociando tratados de paz enquanto pintava. Era fluente em seis idiomas. Correspondia-se com reis, papas e filósofos. Era, provavelmente, o europeu mais cosmopolita do seu tempo. E tudo isso alimentava a pintura: amplitude, energia, confiança.
III
Por que importa
Rubens é muitas vezes reduzido a "o pintor das mulheres gordas". É uma caricatura injusta de um artista que era tão bom que intimidava todos ao redor. A energia das suas telas não vem do tema. Vem da mão. Cada pincelada carrega impulso.
Diana está prestes a sair pra caçar. Mas a caçada nunca acontece. Fica pra sempre nesse segundo de tensão máxima, antes do primeiro passo. E esse segundo, nas mãos de Rubens, é mais vivo que a ação que viria depois.
Olhe com calma.
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