Arte do Dia #022 · Diana e suas ninfas partindo para a caça
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 022

Diana e suas ninfas partindo para a caça

Peter Paul Rubens · c. 1615 · Óleo sobre tela

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Diana e suas ninfas partindo para a caça

Ver obra original no Cleveland Museum of Art →

Diana se prepara. As ninfas se equipam. Os cães puxam as coleiras. Tudo está em movimento, tudo está a ponto de acontecer. Rubens não pintou a caçada. Pintou o segundo antes da caçada. E nesse segundo, toda a energia do mundo parece concentrada.

I

O que você vê

Diana está no centro, seminua, com uma lua crescente na tiara e um arco na mão. Ao redor, ninfas em diferentes estágios de preparação: uma amarra sandálias, outra segura lanças, uma terceira controla um galgo que puxa impaciente. A composição é diagonal, da parte inferior esquerda à superior direita, criando um impulso visual que empurra tudo pra frente.

A carne é Rubens no estado puro. Corpos redondos, pele rosada, músculos que se movem sob a superfície. A luz bate nos ombros, nos seios, nas coxas, criando volumes que parecem tridimensionais. Cada corpo tem peso. Cada gesto tem inércia.

Os cães são pintados com a mesma atenção que as figuras humanas. Um galgo branco se estica, ansioso. Outro fareja o ar. São criaturas reais, observadas com a mesma intensidade que Rubens dedicava à anatomia humana.

"Rubens pinta a vida como se ela estivesse prestes a transbordar da tela." Jacob Burckhardt, historiador da arte.

II

A história por trás

Peter Paul Rubens nasceu em Siegen, na Alemanha, em 1577, mas cresceu em Antuérpia. Estudou na Itália entre 1600 e 1608, absorvendo Ticiano, Caravaggio e os antigos. Voltou pra Antuérpia e montou o maior ateliê da Europa: dezenas de assistentes, produção em escala, encomendas de toda a aristocracia continental.

Esta tela é de cerca de 1615, quando Rubens tinha 38 anos e já era o pintor mais famoso da Europa. Diana, deusa da caça e da castidade, era um tema que permitia combinar duas coisas que ele amava: nus femininos e animais em ação. A mitologia era o pretexto. O verdadeiro assunto era o corpo em movimento.

A técnica de Rubens era extraordinariamente rápida pra telas desse tamanho. Ele começava com um esboço a óleo sobre uma camada preparatória cinza-clara. Depois construía as figuras em camadas de cor cada vez mais opacas, deixando a preparação visível nas sombras. O resultado era uma pintura que parecia feita de luz: as sombras são finas e transparentes, os destaques são grossos e opacos.

Rubens era também diplomata. Serviu como embaixador entre a Espanha e a Inglaterra, negociando tratados de paz enquanto pintava. Era fluente em seis idiomas. Correspondia-se com reis, papas e filósofos. Era, provavelmente, o europeu mais cosmopolita do seu tempo. E tudo isso alimentava a pintura: amplitude, energia, confiança.

III

Por que importa

Rubens é muitas vezes reduzido a "o pintor das mulheres gordas". É uma caricatura injusta de um artista que era tão bom que intimidava todos ao redor. A energia das suas telas não vem do tema. Vem da mão. Cada pincelada carrega impulso.

Diana está prestes a sair pra caçar. Mas a caçada nunca acontece. Fica pra sempre nesse segundo de tensão máxima, antes do primeiro passo. E esse segundo, nas mãos de Rubens, é mais vivo que a ação que viria depois.

Olhe com calma.

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