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Reni pegou uma alegoria de manual e devolveu um colo de verdade, com peso, calor e cansaço. A virtude aqui não posa: amamenta. Demore no gesto antes de ler a história.
A Caridade, nas pinturas do século XVII, era quase sempre uma mulher cercada de crianças. A iconografia vinha da Roma antiga, a personificação de uma virtude, e os pintores barrocos a repetiram por gerações.
Mas Guido Reni fez algo diferente com ela: tirou toda a alegoria fria e deixou apenas o corpo, o peso, o calor. A mulher desta tela não representa a Caridade. Ela é a Caridade, no sentido mais físico e imediato que essa palavra pode ter.
I
O que você vê
A tela mede 137 por 106 centímetros, vertical, quase em formato de retrato, e é dominada por três figuras dispostas numa pirâmide densa que ocupa praticamente todo o espaço disponível.
No centro, uma mulher jovem de cabeça coberta por um véu castanho-acinzentado. O rosto é sereno, ligeiramente voltado para a direita do espectador, o olhar desviado para um ponto fora do quadro. A pele é muito clara, iluminada por uma luz suave que cai da esquerda. Os ombros estão parcialmente descobertos, com o tecido de manto rosa e castanho escorregando pelos braços.
No seu colo, deitado de costas, um bebê nu e gordinho, com os olhos semicerrados, adormecido ou prestes a adormecer. A mão da mulher repousa levemente sobre o ventre do bebê em gesto de protecção quase inconsciente.
À esquerda, um segundo menino de cabelos alaranjados apoia-se no ombro da mulher e observa a cena com atenção. À direita, um terceiro menino olha directamente para fora do quadro, em direcção ao espectador, com uma expressão entre a curiosidade e o convite. É ele quem quebra o isolamento da cena e nos inclui nela.
O fundo é quase negro, com apenas uma vertical mais clara à direita sugerindo uma cortina ou uma coluna. Toda a luz está concentrada nas figuras. Os corpos têm a qualidade porcelânica que era característica de Reni, pele que parece translúcida, modelada em gradações suaves, sem a rudeza de Caravaggio nem a secura do academicismo.
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"Reni tinha no pincel algo de celeste, e as suas figuras pareciam trazer a marca do paraíso." Giovanni Pietro Bellori, *Le vite de' pittori, scultori et architetti moderni*, 1672.
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II
A história por trás
Guido Reni nasceu em Bolonha em 1575 e formou-se na Academia dos Carracci, o atelier que reformou a pintura italiana no final do século XVI ao propor uma síntese entre o naturalismo de Caravaggio e a grandiosidade de Rafael. Reni foi o aluno mais dotado dessa geração e o que mais longe levou a tendência para a beleza idealizada.
Trabalhou em Roma, onde pintou para o papa Paulo V e para a família Borghese. Em 1614 voltou a Bolonha e ali ficou até à morte, em 1642. A sua carreira foi prodigiosa em volume e em reputação.
Era um dos pintores mais bem pagos da Europa, com encomendas de toda a Itália e de cortes estrangeiras. Consta que recusou convites de Carlos I de Inglaterra e de Filipe IV de Espanha para se instalar nas suas respectivas cortes.
A Caridade foi pintada por volta de 1630, numa fase em que Reni tinha já abandonado os seus fondos escuros mais intensos e trabalhava com uma paleta de cores mais claras e suaves. O tema era um dos seus favoritos: repetiu-o em várias versões ao longo da carreira, cada uma com variações na disposição das crianças e na posição da figura central.
A obra entrou para o Metropolitan Museum of Art como presente de Mr. e Mrs. Charles Wrightsman em 1974, parte de uma das maiores doações de pintura europeia que a instituição recebeu no século XX.
III
Por que importa
Durante muito tempo, Guido Reni foi considerado demasiado suave, demasiado doce, um pintor para gosto fácil. O século XX foi severo com ele. Mas essa leitura confunde beleza com superficialidade.
A Caridade de Reni não é suave porque o pintor evitava o difícil. É suave porque ele acreditava que a virtude tinha uma forma específica, que a bondade, quando pintada, devia ter a aparência da bondade.
O bebê adormecido no colo, o menino de cabelos cor de cobre que observa, o terceiro que nos olha directamente, tudo isso é calculado para produzir um efeito preciso: a sensação de que cuidar de alguém é a coisa mais natural do mundo. Que não é assunto de alegoria.
Que acontece todos os dias, em corpos reais, com peso real.
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Olhe com calma.
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