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Cinquenta e quatro anos. Rugas fundas, olhos cansados, boina de veludo gasta. Rembrandt se pintou mais de oitenta vezes ao longo da vida. Este autorretrato de 1660 é um dos últimos. E um dos mais honestos. Ele não se embelezou. Não se escondeu. Olhou no espelho e pintou o que viu.
I
O que você vê
O rosto ocupa quase toda a tela. A boina escura se funde com o fundo negro. As mãos estão cruzadas na frente do corpo, mal visíveis na penumbra. Só o rosto e o colarinho branco emergem da escuridão.
A luz vem da esquerda e bate no lado direito do rosto, deixando o esquerdo em sombra parcial. Os olhos são pequenos, ligeiramente caídos, e olham pro espectador com uma expressão que não é tristeza. É aceitação. Os lábios estão fechados, firmes. O nariz é largo, avermelhado. A pele tem textura: veias, manchas, a aspereza de quem viveu.
A tinta é espessa. Nos destaques da testa e do nariz, Rembrandt aplicou empasto grosso, quase escultórico. Na sombra, a tinta é fina, translúcida, deixando o fundo escuro respirar por baixo. Duas técnicas opostas na mesma face. Uma face construída com contradições.
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"Rembrandt se pintava como quem se confessa. Sem padre, sem absolvição. Só a verdade." Simon Schama, Rembrandt's Eyes.
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II
A história por trás
Em 1660, Rembrandt estava quebrado. Havia declarado falência em 1656. A casa da Jodenbreestraat, onde vivera por vinte anos, fora leiloada junto com toda a coleção de arte, antiguidades e curiosidades que acumulara obsessivamente. Ele, que fora o pintor mais bem pago de Amsterdã, agora dependia financeiramente do filho Titus e da companheira Hendrickje Stoffels, que administravam um negócio de arte em nome dele pra protegê-lo dos credores.
Mas 1660 também foi um ano de produção intensa. Rembrandt pintava com uma liberdade que os anos de sucesso comercial não permitiam. Sem clientes pra agradar, sem encomendas pra cumprir, ele experimentava. As pinceladas ficaram mais largas, a tinta mais espessa, as composições mais despojadas. Ele estava abandonando o acabamento que o público esperava e caminhando pra uma linguagem que só seria entendida dois séculos depois.
Os autorretratos de Rembrandt são um projeto único na história da arte. Começaram na juventude, quando ele se usava como modelo pra estudar expressões. Continuaram pela vida inteira, registrando cada fase: o jovem ambicioso, o artista no auge, o homem maduro, o velho que não se reconhece mais. Não há outro caso de um artista que tenha se documentado com tanta persistência e tanta crueldade.
Este autorretrato específico estava no inventário de Hendrickje e Titus. Não foi feito por encomenda. Foi feito porque Rembrandt precisava. O espelho era o modelo mais barato, mais paciente e mais honesto que ele tinha. E a pintura que saía desse encontro era a coisa mais próxima de uma autobiografia que a arte podia oferecer.
III
Por que importa
Rembrandt perdeu dinheiro, casa, reputação, esposa, amante e filho. E continuou se pintando. Não porque era vaidoso. Porque era corajoso.
Olhar pra própria decadência e registrá-la com a mesma habilidade que registrou a juventude é um ato de integridade que vai além da arte. Este rosto não pede compaixão. Não pede admiração. Pede apenas que você olhe. E aguente o que vê.
Olhe com calma.
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