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Uma mãe sentada. Dois meninos diante dela. Entre as mãozinhas, um pequeno pássaro de penas vermelhas e amarelas. Em 1547, a casa onde a tela estava desabou em um terremoto. Saíram dali 17 pedaços. Hoje a obra está inteira de novo, no centro da Galleria degli Uffizi.
I
O que você vê
A composição é uma pirâmide perfeita. No vértice, a cabeça de Maria, de cabelos castanhos cobertos por um véu sutilíssimo. Na base, os dois meninos: o pequeno João Batista, de pé à esquerda, segurando um pintassilgo com cuidado de quem está apresentando algo precioso, e o pequeno Cristo, em pé à direita, encostado no joelho da mãe, tocando a cabeça do pássaro.
Maria veste túnica vermelho-vivo e manto azul-cobalto, as cores tradicionais da iconografia mariana. Em uma mão, segura um livro aberto, com o dedo marcando a página. A outra envolve protetoramente os ombros do menino João. O olhar dela não está nos meninos. Está fora do quadro, num ponto distante, como quem antevê algo.
Ao fundo, uma paisagem rural italiana com colinas suaves, um lago, casas distantes, montes esverdeados. O céu é limpo, com nuvens leves. Tudo banhado por uma luz dourada de fim de tarde. Rafael esfumou os contornos do horizonte na técnica do sfumato, que ele havia estudado com Leonardo da Vinci em Florença.
A pincelada é invisível. As superfícies têm o acabamento do esmalte. Os tecidos caem com lógica anatômica perfeita. Os rostos infantis têm volume real, sem nenhum vestígio do rigor gótico que ainda dominava a pintura italiana há uma geração.
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"Rafael não nasceu pintor. Nasceu para mostrar como Deus teria pintado se tivesse pegado num pincel." Giorgio Vasari, Le Vite, 1550.
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II
A história por trás
Raffaello Sanzio nasceu em Urbino em 1483. Filho de pintor, órfão de mãe aos oito e de pai aos onze, foi educado entre tintas e pincéis desde a infância. Em 1504 mudou-se para Florença, onde ficou quatro anos absorvendo tudo o que podia de Leonardo da Vinci e Michelangelo Buonarroti. Pintou pelo menos uma dúzia de Madonas nesse período. Cada uma resolve um problema diferente de composição.
A Madona com o Pintassilgo foi pintada por volta de 1506, presente de casamento para Lorenzo Nasi, mercador florentino amigo do pintor. Ficou pendurada na casa da família por quatro décadas. Em 17 de novembro de 1547, um deslizamento de terra atingiu o palacete dos Nasi, e a obra foi soterrada nos escombros.
A família recuperou os fragmentos: 17 pedaços de tábua de madeira de álamo, alguns minúsculos. A pintura foi remontada por um restaurador da época, com técnicas grosseiras para padrões modernos: pregos atravessando o painel, massa de gesso, retoque heavy. Por mais de quatro séculos, a obra circulou em coleções aristocráticas com essa colcha visível.
Em 1998 começou um restauro de 10 anos no Opificio delle Pietre Dure, em Florença, considerado o restauro mais ambicioso já feito numa pintura renascentista. Os restauradores removeram os pregos, o gesso antigo e os retoques, recompondo a pintura camada por camada. O resultado foi apresentado ao público em 2008.
O pintassilgo é símbolo cristão antigo. A tradição diz que o pequeno pássaro, ao tirar um espinho da coroa de Cristo na crucificação, manchou-se com seu sangue, ganhando para sempre a marca vermelha na cabeça. O Cristo menino tocando o pássaro indica que ele já antecipa o próprio destino. A mãe, ao olhar para fora, parece saber também. A obra está hoje na Sala 35 dos Uffizi.
III
Por que importa
Há quadros que sobrevivem ao tempo. Este sobreviveu literalmente ao desastre. Foi enterrado, despedaçado, remontado, retocado, restaurado de novo. E a serenidade da cena nunca se perdeu.
Talvez seja isso que Rafael ensina. A calma de Maria não é ignorância do que vem. É lucidez sobre o que vem. Ela sabe o que o pintassilgo significa. Ela sabe o que o filho fará. E mesmo assim segura o livro aberto, abraça o menino João, deixa Cristo brincar com o pássaro. Há tempo ainda. Há esta tarde. Há esta luz. E ela basta.
Olhe com calma.
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