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Nem todo quadro começa num cavalete.
Munch não inventou o pânico para a tela. Ele sentiu primeiro, num fim de tarde real, e só depois traduziu o corpo em cor. O que você vê aqui não é alguém gritando, é alguém que ouviu o grito. Fique com essa diferença.
Este quadro começou numa frase de diário, rabiscada por Edvard Munch depois de um passeio ao fim da tarde, quando o céu ficou vermelho e ele sentiu, nas suas palavras, um grito infinito atravessar a natureza.
A tela veio depois, como tradução de uma crise real que o corpo sentiu antes de a mente entender. Não é um retrato de alguém gritando. É o registo de quem ouviu o grito.
I
O que você vê
Uma figura andrógina, quase sem feições, no primeiro plano de uma ponte. As mãos comprimem o rosto contra as bochechas, a boca aberta num oval escuro, os olhos arregalados em pânico. O crânio é liso, alongado, reduzido a uma forma que já não é bem humana.
O corpo ondula na mesma cadência da paisagem. As linhas do céu, da água e da margem não têm arestas: tudo se curva e escorre, como se o mundo inteiro tivesse perdido a firmeza.
Atrás da figura, a ponte segue em diagonal firme até ao fundo. Sobre ela, duas silhuetas escuras caminham de costas, indiferentes, verticais e rígidas onde tudo o resto se dissolve. O contraste é o ponto: elas não ouvem o que a figura da frente ouve.
O céu domina o topo da tela em faixas de laranja e vermelho ardentes, sobrepostas a azuis e verdes frios. A água do fiorde repete as mesmas ondas, num azul profundo cortado por reflexos.
A paleta é dividida entre o calor do céu e o frio da água, e a figura fica presa exatamente na fronteira entre os dois.
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"Eu andava por um caminho com dois amigos, o sol se punha, o céu de repente virou vermelho como sangue, parei, exausto, e me encostei numa cerca. Senti um grito infinito atravessar a natureza." Edvard Munch, anotação de diário, 1892, sobre a origem da obra.
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II
A história por trás
Edvard Munch nasceu em Løten, na Noruega, em 1863, e cresceu numa família marcada pela doença e pela perda precoce. A infância, cercada de luto, alimentou uma obra que faria da angústia o seu tema central, muito antes de o termo ansiedade entrar no vocabulário comum.
A cena que originou O Grito aconteceu num passeio real ao entardecer, no caminho de Ekeberg, nos arredores de Oslo, então chamada Kristiania. Munch anotou o episódio no diário: o céu vermelho, a exaustão súbita, o grito que sentiu vindo de fora e de dentro ao mesmo tempo.
A primeira versão pintada é de 1893. Munch retomaria o motivo várias vezes ao longo da vida, em pintura, pastel e litografia, como quem reescreve a mesma frase até acertar o tom. Cada versão mantém a figura, a ponte e o céu incendiado.
A obra pertence ao movimento expressionista, que Munch ajudou a fundar: a ideia de que a arte devia mostrar o estado interior, não a aparência exterior. O que se vê na tela não é a paisagem, é o que a paisagem fez sentir.
Hoje as versões estão divididas entre museus de Oslo, e a imagem tornou-se uma das mais reproduzidas da história da arte, ao lado da Mona Lisa.
III
Por que importa
Poucas imagens conseguem dizer tanto com tão pouco rosto. A figura de O Grito não tem nome, idade nem género definido, e é justamente essa ausência que a torna universal: qualquer pessoa pode ocupar aquele lugar na ponte.
Munch pintou uma sensação, não um acontecimento. A ansiedade que ele registou no diário como um episódio pessoal virou, na tela, uma linguagem visual que qualquer um reconhece sem precisar de legenda.
E há algo na honestidade do gesto que atravessa o século. Munch não escondeu o pânico atrás de beleza nem de heroísmo. Pintou o momento exato em que o mundo parece grande demais, e ao fazer isso deu a esse momento um rosto que a modernidade inteira acabou por adoptar como seu.
Olhe com calma.
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