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Nenhum movimento escolheu tão pouco o próprio nome.
Louis Leroy escreveu uma piada para enterrar uma tela e acabou gravando o nome dela na história da arte. O riso durou uma semana. A palavra que ele repetiu com desprezo virou a bandeira de um século. Nenhum crítico errou tão bem.
Em abril de 1874, um grupo de pintores recusados pelo Salão oficial montou a própria exposição num estúdio emprestado em Paris. Entre as telas, uma vista do porto do Le Havre ao amanhecer, pintada por Claude Monet dois anos antes, quase um esboço em azul e laranja.
O catálogo pedia um título. Monet achou que aquela bruma não podia passar por uma vista do Le Havre e respondeu: ponham Impressão. A palavra saiu impressa, um crítico a transformou em zombaria, e a zombaria batizou um movimento inteiro.
I
O que você vê
Um porto dissolvido na névoa da manhã. O sol sobe como um disco laranja, pequeno e exato, no meio de um céu azul-acinzentado que toma quase toda a tela. É a única forma realmente nítida da cena.
No primeiro plano, dois barcos a remo avançam em silhueta escura sobre a água. O mais próximo carrega duas figuras reduzidas a manchas. Atrás deles, um terceiro barco quase desaparece na bruma.
Ao fundo, o porto industrial do Le Havre: mastros, guindastes e chaminés de vapores, tudo sugerido em cinza-azulado, sem contorno firme. A cidade moderna está lá, mas filtrada pela névoa, mais pressentida que vista.
O reflexo do sol desce pela água em pinceladas curtas e soltas de laranja, quebradas pelo balanço da maré. Cada toque de tinta fica visível, sem acabamento, como se a mão não tivesse tido tempo de esconder o gesto.
E há um truque de luz dentro do quadro: o disco do sol tem quase a mesma luminosidade do céu ao redor. Numa reprodução em preto e branco, ele praticamente some. O que o faz arder é só o embate entre o laranja e o azul.
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"Impressão, eu tinha certeza. Já que estou impressionado, deve haver alguma impressão aí dentro. E que liberdade, que facilidade de execução! O papel de parede em estado embrionário é mais acabado que essa marinha." Louis Leroy, no jornal Le Charivari, 25 de abril de 1874, na crítica que batizou o movimento.
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II
A história por trás
Claude Monet nasceu em Paris em 1840 e cresceu no Le Havre, o grande porto da Normandia. Em 1872, hospedado num hotel de frente para o ancoradouro, pintou da janela o que via ao acordar: a bruma, os vapores, o sol subindo. Saiu uma tela pequena e rápida, pintada quase de uma só vez.
Dois anos depois, a obra entrou na primeira exposição independente de um grupo que incluía Renoir, Degas, Pissarro, Sisley e Berthe Morisot, montada no antigo estúdio do fotógrafo Nadar, no boulevard des Capucines, em Paris. Era uma afronta ao Salão oficial, que vivia recusando aqueles pintores.
Em 25 de abril de 1874, o crítico Louis Leroy publicou no jornal satírico Le Charivari um texto debochado chamado A Exposição dos Impressionistas. A palavra, roubada do título de Monet, era para ferir. O grupo preferiu vestir o insulto: três anos depois, chamava a própria mostra de exposição impressionista.
A tela passou pelo colecionador Ernest Hoschedé e pelo médico Georges de Bellio, amigo dos pintores, antes de chegar por doação da família ao Musée Marmottan, em Paris, em 1940. Ali virou a peça central da casa, exposta como certidão de nascimento de um movimento inteiro.
Em outubro de 1985, cinco homens armados entraram no museu em plena visita, renderam guardas e público e arrancaram nove telas das paredes, a Impressão entre elas. A obra ficou desaparecida por cinco anos, até a polícia francesa localizá-la em 1990 numa casa de veraneio na Córsega. No ano seguinte, voltou à parede.
III
Por que importa
Nenhuma tela resume tão bem a virada da arte moderna. O que Leroy apontou como defeito, a pincelada visível, o inacabado, a pressa, era exatamente o programa: pintar a percepção de um instante, não a descrição de um lugar. A crítica descreveu o método com precisão rara, só errou ao chamar o método de fracasso.
O nome importa. Movimentos costumam nascer de manifestos, e o Impressionismo foi batizado por um adversário. Aceitar o apelido foi um gesto de confiança: os pintores assumiram que a sensação diante da luz valia mais que o acabamento polido que o Salão exigia. A zombaria virou programa de trabalho.
E o assalto completou a biografia. Ninguém aponta arma para um esboço sem valor. A tela que um crítico comparou a papel de parede voltou da Córsega escoltada, para a mesma parede de Paris, com estatuto de relíquia fundadora. Poucas histórias da arte fecham o próprio círculo com tanta exatidão.
Olhe com calma.
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