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Dois homens vestidos de terno e gravata. Uma mulher nua, sentada na grama, encarando o espectador. Um piquenique. Pão, fruta, uma cesta caída. Em 1863, quando Paris viu este quadro, riu, gritou e tentou rasgá-lo. Hoje ele está no Musée d'Orsay.
I
O que você vê
A composição é triangular. À esquerda, uma mulher completamente nua está sentada na grama, com o queixo apoiado na mão e os pés cruzados. Encara o espectador com olhos diretos, sem nenhuma timidez. Suas roupas e um chapéu de palha estão amontoados ao lado, junto com uma cesta de piquenique virada e frutas espalhadas: cerejas, figos, um pão.
Ao centro e à direita, dois homens jovens conversam. Vestem ternos elegantes da década de 1860, com paletós escuros, camisas brancas e gravatas. Estão de cabelos curtos, barba aparada, sapatos lustrados. O da direita gesticula com a mão estendida, como se estivesse no meio de uma frase. O da esquerda escuta, recostado na grama. Ambos parecem alheios à mulher nua a apenas dois passos de distância.
Ao fundo, uma segunda mulher, vestida com camisola branca, está dentro de um pequeno lago, agachada ou se levantando da água. A escala dela é estranha: parece grande demais em relação à perspectiva da clareira, dando a sensação de uma colagem entre dois espaços diferentes.
A floresta circundante é densa, com árvores escuras, folhagens e tons de verde profundo. A luz é difusa, como em um dia nublado. Mas o corpo da mulher nua é iluminado de frente, com luz forte que produz pouca sombra, dando à pele um aspecto plano, quase recortado contra o fundo. Manet aboliu deliberadamente o sfumato. As bordas das figuras são duras, gráficas, modernas.
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"O Sr. Manet, ao expor uma obra como esta, não nos oferece arte. Oferece ao público o seu desprezo." Théophile Gautier, Le Moniteur Universel, 22 de junho de 1863.
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II
A história por trás
Édouard Manet nasceu em Paris em 1832, filho de uma família burguesa próspera. Estudou pintura no ateliê de Thomas Couture e visitou o Louvre obsessivamente, copiando Velázquez, Tiziano e Goya. Em 1863, aos 31 anos, submeteu três obras ao Salon oficial. Todas foram recusadas pelo júri.
Naquele ano, o número de rejeitados foi tão grande que Napoleão III ordenou a criação de um Salon des Refusés, um Salão dos Recusados, para que o público julgasse por conta própria. Manet exibiu lá o Almoço sobre a Relva (que então se chamava Le Bain). A reação foi histérica. Visitantes riam, apontavam, alguns tentaram atacar a tela com guarda-chuvas. A imperatriz Eugênia, em visita ao salão, virou ostensivamente o rosto.
O escândalo não vinha apenas da nudez. A pintura clássica europeia tinha o nu como tema desde a Antiguidade. O problema era que esta mulher não era deusa. Era Victorine Meurent, modelo profissional parisiense, cujo rosto e corpo Manet havia pintado em outros quadros. Os homens não eram pastores nem deuses. Eram dois jovens parisienses contemporâneos, em traje de cidade, num piquenique normal. A nudez se tornava obscena porque era contemporânea, identificável, situada no presente.
A composição é uma citação direta. Manet baseou-se em uma gravura de Marcantonio Raimondi feita a partir de uma obra perdida de Rafael, O Julgamento de Páris (c.1515). Os três personagens em primeiro plano reproduzem com precisão a posição de três deuses fluviais da gravura. Manet, ao usar a referência clássica para uma cena moderna, estava dizendo: a tradição cabe no presente. E forçando os críticos a ver isso.
A obra foi comprada pelo cantor Jean-Baptiste Faure em 1878, depois pelo industrial Étienne Moreau-Nélaton, que a doou ao Estado francês em 1906. Está hoje no Musée d'Orsay, em Paris. Mede 208 por 264 centímetros. É grande. Você não escapa dela.
III
Por que importa
O Almoço sobre a Relva é considerado o quadro que iniciou a pintura moderna. Não pelo escândalo, mas pela atitude. Manet rejeitou três regras simultâneas. Rejeitou a perspectiva tradicional, achatando o espaço. Rejeitou o sfumato, dando às figuras contornos duros. Rejeitou a hierarquia de temas, tratando uma cena cotidiana com a mesma seriedade que uma cena mitológica.
A partir dele, Cézanne, Monet, Picasso e tantos outros teriam permissão para fazer o mesmo. A Olympia (também de 1863, exibida em 1865) levaria essas ideias adiante. Mas foi aqui, no piquenique impossível, que tudo começou. Cento e sessenta e três anos depois, Victorine ainda nos olha de frente. E o piquenique continua sem fazer sentido nenhum. Que é exatamente o ponto.
Olhe com calma.
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