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Dois corpos ajoelhados num campo de flores. Cobertos por um manto dourado que parece um casulo. Ele beija a face dela. Ela fecha os olhos. Em volta de tudo, ouro. Folha de ouro de verdade, aplicada com pincel sobre tela. Klimt pintou isso entre 1907 e 1908. A obra mais famosa de Viena.
I
O que você vê
A tela é quadrada, 180 por 180 centímetros. No centro, um casal ajoelhado se abraça. O homem está atrás, ligeiramente acima, e curva a cabeça para beijar a face direita da mulher. Ela inclina o pescoço, oferecendo o rosto, com olhos fechados e expressão de êxtase contido. As mãos dela seguram a mão dele com firmeza próxima do desespero, cada dedo dobrado em ângulo deliberado.
Os dois estão envolvidos por um manto dourado que se estende ao redor das costas e da cabeça do homem. Esse manto não tem volume real. É uma forma plana, decorativa, ornamentada. No lado dele, o tecido carrega retângulos pretos e brancos, formas geométricas firmes. No lado dela, há círculos, ondas e flores, formas curvas e maleáveis. A oposição é deliberada: o masculino angular, o feminino circular. Ambos cobertos pelo mesmo ouro.
Os pés do casal repousam sobre um terreno de gramado, um prado cheio de flores miúdas em vermelho, branco, azul e verde. A borda do prado se desenha em linha curva sobre um fundo de ouro batido. Essa flora termina exatamente onde os dedos dos pés da mulher tocam a beirada. Um passo a mais, e ela cai no abismo dourado.
Ao redor de toda a composição, o ouro inunda a tela. Klimt aplicou folhas reais de ouro de 23 quilates, em camadas finas, com adesivo. A textura não é uniforme. Ele variou os tons, criando granulações, brilhos, áreas mais ricas e áreas mais sutis. À luz, o quadro muda de cor conforme você se move diante dele.
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"Uma única forma de amor sobrevive a tudo, a do êxtase imediato, e talvez seja a única coisa que valha a pena pintar." Gustav Klimt, em conversa com Berta Zuckerkandl, registrada em 1907.
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II
A história por trás
Gustav Klimt nasceu em Viena em 1862, filho de um gravador em ouro. A familiaridade com o metal nasceu na oficina do pai. Em 1897 ajudou a fundar a Secessão Vienense, movimento que rompeu com a Academia tradicional e abriu espaço para a arte moderna na Áustria. O lema do grupo: "A cada época sua arte. A cada arte sua liberdade."
O Beijo foi pintado entre o final de 1907 e o início de 1908, no auge da chamada fase dourada de Klimt, que durou aproximadamente de 1903 a 1909. Nessa fase, o pintor incorporou o ouro como pigmento principal, inspirado em uma viagem feita a Ravena, Itália, em 1903, onde estudou os mosaicos bizantinos da Basílica de San Vitale. As túnicas douradas dos imperadores Justiniano e Teodora deixaram marca permanente em sua imaginação.
A identidade dos modelos é discutida há mais de cem anos. A hipótese mais aceita é que a mulher seja Emilie Flöge, estilista, dona de boutique e companheira intelectual de Klimt por quase três décadas. Eles nunca casaram, mas sua relação foi a mais longa e estável da vida do pintor. Outras leituras sugerem que o casal não retrata pessoas específicas e sim uma alegoria do amor universal.
Quando o quadro foi exibido pela primeira vez, na Kunstschau de 1908, em Viena, foi imediatamente comprado pelo governo austríaco para a coleção da Österreichische Galerie por 25.000 coroas, o preço mais alto pago a um artista vivo na Áustria até então. A obra está hoje no Belvedere Superior, em Viena, sala 9.
A Viena de 1908 era uma cidade às vésperas do colapso. O Império Austro-Húngaro vivia seus últimos anos. Sigmund Freud publicava seus livros sobre o inconsciente. Schoenberg compunha música atonal. Mahler conduzia a Ópera. Klimt estava no centro desse fervor cultural. Em poucos anos, a Primeira Guerra Mundial varreria tudo. Klimt morreu em 1918, no mesmo ano em que o Império se desfez.
III
Por que importa
O Beijo virou pôster, capa, estampa de bolsa. Foi reproduzido até o cansaço. Mas diante do original, em Viena, o efeito é outro. O ouro vibra. O casal pulsa. A borda do prado lembra que falta um passo para o vazio.
O que Klimt pintou não é só um beijo. É a tentativa de fixar um instante de plenitude antes que tudo desabe. Em 1907, ele talvez intuísse que a Viena dourada não duraria. Pintou então o último abraço antes da queda. E embrulhou esse abraço em folha de ouro real, como quem guarda uma relíquia para o futuro. Ainda funciona. Mais de cem anos depois, o casulo ainda brilha.
Olhe com calma.
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