Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 080

As Três Idades da Mulher

Gustav Klimt · 1905 · Óleo sobre tela

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As Três Idades da Mulher

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Klimt cobriu a tela de ouro para falar de uma coisa que nenhum ouro compra: o tempo passando por cima da pele.

Todo mundo lembra do dourado de O Beijo como sinônimo de êxtase. Poucos sabem que o mesmo pintor usou o mesmo ouro para pintar o oposto do amor eterno: o medo de envelhecer. Aqui o metal precioso não celebra nada, ele ilumina a conta que ninguém quer fazer.

Num único bloco de figuras, ele encaixou um bebê, uma mãe jovem e uma velha, três corpos que na verdade são um só, atravessado do começo ao fim de uma vida. O dourado que fez a fama de O Beijo está todo aqui, mas serve a outro sentimento.

Ali não há celebração de amor, há um cálculo silencioso sobre quanto dura a beleza. E a resposta, escrita na própria composição, é dura. A ternura da mãe com o filho ocupa a luz, enquanto a velhice desaparece na sombra, empurrada para a borda como se o quadro também quisesse não olhar para ela.

I

O que você vê

Três figuras femininas ocupam o centro da tela, recortadas contra um fundo abstrato de manchas escuras e douradas que parece flutuar no vazio. Não há chão, não há parede, não há cenário. Só os corpos, suspensos no tempo.

No coração da cena, uma mãe jovem segura um bebê adormecido colado ao próprio corpo. A criança está entregue, a bochecha grudada no ombro dela, um braço pendendo relaxado. É a imagem exata do sono seguro, protegido, o único sono sem medo que um ser humano tem.

A mãe inclina a cabeça e encosta o rosto no cabelo do filho, de olhos fechados. Ela não olha para nós nem para o mundo, olha para dentro daquele instante. O manto que envolve os dois é uma explosão de círculos, triângulos e flores em ouro, azul e vermelho, o padrão decorativo que virou a assinatura de Klimt.

À esquerda, separada por um vão, está a velhice. Uma mulher idosa, de corpo curvado e nu, cobre o rosto com a mão. A pele dela é pintada com veias saltadas, ventre caído, seios vazios, os cabelos grisalhos escorrendo para baixo. Nada nela foi suavizado.

Repare no gesto dela. A mão sobe até a testa e esconde parcialmente o rosto, num movimento que é ao mesmo tempo vergonha e cansaço. Enquanto a mãe se banha na luz dourada, a velha está mergulhada num tom acinzentado, quase apagando-se no fundo escuro.

E repare na diferença de tratamento. A jovem e o bebê são idealizados, lisos, luminosos, quase decorativos. A velha é realista até o osso, pintada com uma crueza que Klimt reservava a poucas figuras. O contraste não é acidente, é a tese do quadro.

"Toda arte é erótica." Frase atribuída a Gustav Klimt, resumindo a obsessão que atravessa quase toda a sua obra: o corpo, o desejo e a passagem do tempo tratados sem pudor, mesmo quando o assunto era a decadência da própria carne.

 
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II

A história por trás

Gustav Klimt nasceu perto de Viena em 1862, filho de um gravador de ouro. O ofício do pai não é detalhe pequeno: a folha metálica que ele aprendeu a admirar em casa virou o material que definiria toda a sua fase mais famosa, a chamada fase dourada.

No começo dos anos 1900, Klimt já era ao mesmo tempo celebrado e escandaloso em Viena. Tinha rompido com a arte oficial para fundar a Secessão, o movimento que queria libertar a pintura das regras acadêmicas. Suas telas misturavam simbolismo, ornamento e uma sexualidade explícita que chocava a sociedade conservadora do império.

Foi nesse clima que ele pintou As Três Idades da Mulher, concluída por volta de 1905. O tema em si era antigo: a passagem da infância à velhice, um assunto que artistas repetiam havia séculos como alegoria. Klimt pegou esse molde velho e o encheu do seu próprio ouro e da sua própria angústia.

A obra estreou em 1911, numa grande exposição internacional em Roma, onde levou uma medalha de ouro. O Estado italiano comprou a tela logo depois, e por isso ela não ficou na Áustria como a maioria das telas douradas de Klimt. Hoje vive na Galleria Nazionale d'Arte Moderna, em Roma.

O momento pessoal do pintor ajuda a explicar o peso da imagem. Klimt vivia cercado de mulheres, modelos, amantes, e mantinha uma relação central e ambígua com a estilista Emilie Flöge. A maternidade, o desejo e o medo do envelhecimento eram temas que ele revisitava sem parar, quase como uma obsessão.

Há também o pano de fundo da própria Viena de 1900. Era a cidade de Freud, do estudo dos sonhos, da angústia moderna sobre o desejo e o fim da vida. A ideia de que sob a superfície dourada da vida burguesa havia medo e decadência estava no ar, e Klimt a traduziu em imagem melhor que quase ninguém.

Vale notar o que ele fez com a figura da velha. Ela é frequentemente comparada a uma escultura de Auguste Rodin, que Klimt admirava, e que também pintava corpos idosos sem qualquer idealização. Ao colocar essa crueza ao lado de um bebê perfeito, o pintor forçou o olho a comparar o começo e o fim na mesma tela.

 
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III

Por que importa

A tela importa porque diz a verdade que quase toda arte decorativa esconde. É fácil pintar a juventude bonita e o amor materno luminoso. É raro colar, do lado, a velhice nua e sem disfarce, e obrigar o espectador a entender que são a mesma pessoa em três momentos.

Ela também mostra o lado sombrio da fase dourada de Klimt. Quando pensamos em ouro na obra dele, pensamos em O Beijo, em êxtase, em amor eterno. Aqui o mesmo material serve a uma meditação fria sobre a perda. O ouro não salva ninguém do tempo, apenas ilumina melhor o contraste entre quem começa e quem termina.

Há força no jeito como Klimt trata a velhice sem piedade fácil e sem crueldade gratuita. Ele não transforma a idosa em monstro nem em vítima chorosa. Ela apenas existe, curvada, cansada, real, com a dignidade dura de um corpo que atravessou uma vida inteira. É um retrato de idade mais honesto que quase tudo que se pinta hoje.

E há a razão pela qual a imagem continua atravessando um século. Ninguém escapa daquelas três figuras. O bebê que dorme protegido, a mulher no auge que embala e é embalada, a velha que se cobre diante do que vem. Olhar para a tela é olhar para a própria linha de chegada, com toda a ternura e todo o medo que ela carrega.

Olhe com calma.

 

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Depois de estrear numa exposição internacional em 1911 e ser comprada pelo Estado italiano, em qual cidade a tela de Klimt está exposta hoje?

AViena, na Áustria, cidade natal do pintor
BRoma, na Galleria Nazionale d'Arte Moderna
CParis, no Musée d'Orsay
DNova York, no Neue Galerie

Resultado da última edição: 62% acertaram.

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