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Sem montanhas, sem rostos, sem objetos. Apenas círculos, triângulos, linhas e arcos. Wassily Kandinsky pintou esta tela em 1923, durante seu período na Bauhaus. Era a tentativa de fazer pintura como se faz música: tudo composição, ritmo, vibração.
I
O que você vê
A tela tem 140 por 201 centímetros, formato horizontal. O fundo é um campo branco-creme com manchas suaves de rosa, amarelo e cinza, dispostas em zonas vagas que parecem nuvens ou regiões de luz. Não há horizonte, não há referência espacial. O olhar entra na tela sem saber onde pousar.
Sobre esse fundo, dezenas de elementos geométricos. À esquerda, um círculo grande, escuro nos bordos e claro no centro, ocupa o canto superior esquerdo. Suas bordas concêntricas criam o efeito de um eclipse ou de um disco solar. Logo abaixo dele, um círculo menor, vermelho-rosado, com um ponto preto no centro.
No centro da tela, espalham-se triângulos de várias cores: amarelos, azuis, vermelhos, alguns transparentes, outros sólidos. Linhas finas e grossas atravessam a composição em diagonais e curvas. Algumas linhas terminam em pequenos círculos, como notas musicais. Outras se cruzam em ângulos exatos.
À direita, uma constelação de pequenos círculos coloridos cria um conjunto que sugere uma fileira ou uma escala. Um arco preto envolvente atravessa a parte superior do quadro, conectando elementos distantes. Damas-de-tabuleiro, retângulos divididos, semicírculos, todos ocupam suas posições com a precisão de uma partitura.
Apesar da aparente complexidade, a tela é equilibrada. As cores quentes ocupam o centro e a direita. As frias, a esquerda e o alto. Nenhum elemento brilha sozinho. Cada um deve sua presença ao diálogo com os vizinhos.
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"A cor é a tecla. O olho é o martelo. A alma é o piano de muitas cordas. O artista é a mão que toca, fazendo a alma vibrar com a tecla certa." Wassily Kandinsky, Do Espiritual na Arte, 1912.
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II
A história por trás
Wassily Kandinsky nasceu em Moscou em 1866. Estudou direito e economia. Aos 30 anos, em 1896, depois de ver uma série de Almoreiros de Monet em uma exposição em Moscou, decidiu abandonar a carreira jurídica e se dedicar à pintura. Mudou-se para Munique, onde pintou paisagens, montanhas, cavaleiros, igrejas. Em 1910 começou a abstração.
Kandinsky escreveu Do Espiritual na Arte em 1911, livro que defendia a ideia de uma pintura desligada do mundo visível, capaz de transmitir emoção pura como a música transmite. Pintou as primeiras Composições, série numerada de obras experimentais, a partir de 1910. Cada Composição era um exercício de equilíbrio entre forma e cor, com nome inspirado em sinfonias.
Em 1922, Kandinsky aceitou o convite de Walter Gropius para se juntar à Bauhaus, escola de arte e design fundada em Weimar, Alemanha, em 1919. Lecionou pintura mural, teoria da forma e cor, e tornou-se uma das figuras mais influentes da escola. A Bauhaus reunia artistas como Paul Klee, Lyonel Feininger, László Moholy-Nagy, Josef Albers e Oskar Schlemmer.
Composição VIII foi pintada em 1923, no primeiro ano de Kandinsky na Bauhaus. Marca uma virada na obra do pintor. As Composições anteriores (I a VII, todas de 1910 a 1913) ainda traziam fragmentos figurativos, restos de cavalos, montanhas, cidades. A Oitava abandona qualquer resquício do mundo visível. Tudo é forma pura. Kandinsky havia desenvolvido uma teoria, exposta em Ponto e Linha sobre o Plano (1926), em que cada forma geométrica tem caráter próprio: o triângulo é amarelo, agudo. O círculo é azul, calmo. O quadrado é vermelho, terreno.
A obra foi adquirida por Solomon R. Guggenheim, magnata americano e colecionador, em 1929, antes mesmo da abertura do museu que leva seu nome. Faz parte da coleção fundadora do Guggenheim de Nova York. A Bauhaus seria fechada pelos nazistas em 1933. Kandinsky deixaria a Alemanha e morreria na França em 1944. Sua obra seria classificada como arte degenerada e parcialmente destruída. As Composições sobreviveram porque já estavam fora do país.
III
Por que importa
Composição VIII é o ponto em que a pintura abandonou definitivamente o dever de imitar o mundo. Não é a primeira obra abstrata, mas é uma das primeiras a fazê-lo com tamanha confiança e tamanha elegância. As formas que aparecem nela seriam usadas e reusadas pela geração seguinte: na arquitetura, no design gráfico, na publicidade, no cinema.
E talvez ainda hoje, quando você abre o aplicativo no celular e vê círculos, triângulos, linhas, planos coloridos, está olhando para descendentes desta tela. Kandinsky inventou uma gramática visual que durou um século e ainda dura. Ele dizia que pintava como quem compõe sinfonias. Diante da Composição VIII, dá para escutar os instrumentos. Eles estão todos afinados. E ainda tocando.
Olhe com calma.
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