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Um velho gigantesco, de olhos arregalados, mastiga o corpo de um filho. As mãos apertam o tronco com força que descola a pele dos dedos. Não há cenário. Não há narrativa. Goya pintou isso direto na parede da própria casa. E não contou para ninguém.
I
O que você vê
A cena emerge de um fundo preto absoluto. No centro, a figura de Saturno, divindade romana do tempo, é representada como um homem velho, nu, monstruoso. O corpo é desproporcional, com pernas magras e tronco rugoso. O cabelo branco selvagem emoldura um rosto contorcido, com olhos saltados, brancos, fixos em algo fora do quadro.
Em suas mãos, o corpo de uma figura humana adulta, decapitada, ensanguentada. A cabeça já foi devorada. O braço esquerdo da vítima também. Saturno agora morde o ombro direito, com a boca aberta em rictus que mistura fome, raiva e horror. O sangue escorre, denso, quase preto.
A composição é antinatural. Saturno aparece de joelhos ou semi-agachado, mas a perspectiva não bate. As proporções entre as pernas e o tronco estão erradas. As mãos são pesadas demais. Os pés desaparecem na escuridão. Goya não tentou fazer o corpo funcionar como anatomia. Tentou fazê-lo funcionar como pesadelo.
A pincelada é violenta, raspada, gestual. Não há acabamento. As tintas foram aplicadas com pincel grosso, espátula e provavelmente os próprios dedos. As bordas se esfumam no escuro. A obra parece feita em poucas horas, ou em vários dias frenéticos, com o pintor parado diante da parede, na sua casa, sem testemunhas.
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"O sonho da razão produz monstros." Francisco Goya, lenda da gravura nº 43 dos Caprichos, 1799.
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II
A história por trás
Francisco Goya nasceu em Fuendetodos, Espanha, em 1746. Foi pintor de corte, retratou reis, rainhas e a aristocracia espanhola por décadas. Em 1792, uma doença grave o deixou surdo. Em 1808, Napoleão invadiu a Espanha. Em 1819, com 73 anos, Goya comprou uma casa fora de Madrid, conhecida hoje como Quinta del Sordo, "Quinta do Surdo".
Lá, entre 1819 e 1823, Goya pintou diretamente nas paredes 14 obras que hoje são chamadas de Pinturas Negras. Saturno é a mais famosa. Foram pintadas no andar térreo e no andar superior, em quartos e corredores. Goya não as encomendou, não as vendeu, não as exibiu. Pintou para si mesmo. Talvez para os fantasmas que o cercavam. Não há registros de que ele tenha discutido essas obras com ninguém.
A datação exata é incerta, mas a maioria dos historiadores de arte concorda que Saturno foi pintada entre 1820 e 1823. Em 1823, Goya partiu para o exílio em Bordeaux, França, fugindo da repressão política do rei Fernando VII. A casa ficou abandonada. As Pinturas Negras permaneceram nas paredes por meio século.
Em 1873, o novo proprietário da casa, o barão Frédéric Émile d'Erlanger, contratou o restaurador Salvador Martínez Cubells para transferir as pinturas das paredes para tela, processo extremamente delicado e destrutivo. Algumas obras se danificaram seriamente. Em 1881, d'Erlanger doou as 14 obras ao Museo del Prado, em Madri, onde estão até hoje na Sala 67.
A história contada pelo Saturno é o mito grego e romano em que o titã Cronos (Saturno em Roma) devora os próprios filhos para impedir que eles o destronem. Como interpretação direta, a obra fala de paranoia, de poder que se devora, de pais que destroem filhos. Mas também pode ser lida como autorretrato simbólico de Goya, velho, doente, surdo, devorando o futuro porque já não confiava nele.
III
Por que importa
Quase todas as outras grandes obras da arte foram feitas para serem vistas. Esta foi feita para não ser. Goya pintou Saturno na parede da sala de jantar, segundo os registros da casa. Quem comesse ali tinha o monstro pendurado diante de si. O gesto inteiro é incomum: pintar um pesadelo no lugar onde se serve a comida.
Talvez seja isso o que deu permanência ao quadro. Goya pintou sem pedido, sem cliente, sem prazo. Pintou como quem confessa em voz alta dentro de uma casa vazia. E o que saiu desse momento privado virou, dois séculos depois, uma das imagens mais reproduzidas do horror humano. O monstro está olhando você. E continua mastigando.
Olhe com calma.
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