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O pai de Danaë havia recebido uma profecia: seu neto o mataria. Para impedir o cumprimento do oráculo, ele trancou a filha numa câmara de bronze, longe de qualquer homem. Mas Zeus transformou-se em chuva de ouro e encontrou um caminho.
Orazio Gentileschi pintou o instante dessa chegada, e fez com que, por um momento, a mitologia parecesse mais próxima da experiência humana do que qualquer alegoria.
I
O que você vê
A tela é horizontal e grande, medindo 162 por 228 centímetros. O formato apaisado serve perfeitamente à figura reclinada que domina quase toda a composição. Danaë está deitada num leito de tecidos dourados e brancos, o corpo estendido em diagonal da esquerda para a direita, o olhar voltado para cima e para a direita, para a fonte da chuva que cai.
O corpo de Danaë é pintado com luminosidade cuidadosa, pele clara contra o brilho dos tecidos dourados que cobrem o leito. O braço direito se estende para cima, a mão aberta recebendo as moedas de ouro que caem do canto superior da tela.
Um véu translúcido e levíssimo cobre parte de seu corpo, criando uma camada intermediária entre a carne e o tecido opaco dos lençóis.
No canto superior esquerdo, um cupido alado, de costas para o espectador, com asas cinza-acastanhadas, flutua ou gesticula, participando do prodígio. As moedas de ouro formam uma cascata diagonal que estrutura a composição: entram pelo canto superior direito, cruzam o espaço e aterrisam na mão estendida.
O fundo é escuro, quase preto no centro e à esquerda, com uma cortina de tecido verde-escuro que fecha a cena. A cama tem cabeceira e pés trabalhados em dourado. Um travesseiro e lençóis brancos contrastam com a exuberância dourada do resto. O canto inferior esquerdo tem uma faixa de vermelho, possivelmente um cobertor ou almofada.
A luz vem da direita, coincidindo com a direção da chuva de ouro. Ela recorta o corpo de Danaë e os tecidos com nitidez, sem o dramatismo excessivo de Caravaggio, Gentileschi suaviza os contrastes, dá à cena um brilho quente e poético.
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"Gentileschi adotou o método de Caravaggio de pintar diretamente a partir de modelos, puxados para o primeiro plano do plano pictórico, o que dá à pintura uma qualidade surpreendente e tangível. Contudo, a maneira graciosa como ele manejava a tinta e os gestos humanos empresta à obra uma qualidade poética única ao artista." Museu de Arte de Cleveland, nota curatorial, 1971.
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II
A história por trás
Orazio Gentileschi nasceu em Pisa, em 1563. Chegou a Roma no final do século XVI e foi um dos primeiros pintores a reconhecer, e absorver, a revolução de Caravaggio.
Trabalharam na mesma cidade, no mesmo momento, e a influência foi decisiva: Orazio adotou o naturalismo caravagesco, a iluminação dramática, o uso de modelos reais. Mas onde Caravaggio era violento e perturbador, Gentileschi era lírico e controlado.
Sua filha, Artemisia Gentileschi, tornou-se ainda mais famosa que o pai, especialmente após o escândalo de seu estupro pelo pintor Agostino Tassi, em 1611, e o processo judicial que se seguiu. Artemisia é hoje reconhecida como uma das maiores pintoras do século XVII. Orazio viveu à sombra desse legado póstumo, mas em vida era o mais célebre dos dois.
Por volta de 1621, Orazio deixou Roma e a Itália. Trabalhou em Gênova, depois em Paris, e por fim em Londres, onde morreu em 1639 como pintor da corte do rei Carlos I, uma trajetória que o levou dos estúdios romanos até o topo do patronato europeu.
Esta *Danaë* data de cerca de 1623, provavelmente pintada em Gênova. O véu que cobre a figura era um acessório de ateliê documentado: aparece em outras obras do artista, identificável pela mesma textura gasosa. O Cleveland Museum of Art adquiriu a tela em 1971, com o fundo Leonard C. Hanna Jr.
III
Por que importa
A *Danaë* de Gentileschi é uma das pouquíssimas representações deste mito em que a protagonista não parece vítima de uma violência disfarçada de divindade. Ela não dorme, não está inconsciente, não recua. O braço estendido é um gesto de recepção, ativo, presente, até curioso.
É possível que Gentileschi, pai de uma filha que havia sofrido violência real, pintasse Danaë de um ângulo diferente: não o do deus que invade, mas o da mulher que, dentro de seus limites, escolhe o que pode escolher. Essa leitura não pode ser confirmada, mas a imagem a autoriza. E isso, por si só, é raro.
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Olhe com calma.
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