Arte do Dia #021 · Ia Orana Maria (Ave Maria)
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 021

Ia Orana Maria (Ave Maria)

Paul Gauguin · 1891 · Óleo sobre tela

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Ia Orana Maria (Ave Maria)

Ver obra original no Metropolitan Museum →

Maria é taitiana. O Menino Jesus senta nos ombros dela como qualquer criança do Pacífico. Duas mulheres rezam em pose budista. Gauguin levou a Anunciação para o outro lado do mundo e descobriu que o sagrado não precisa de catedrais. Precisa de cor.

I

O que você vê

A cena é exuberante. Duas mulheres de pele morena estão em pé à direita, com as mãos juntas em oração. Uma terceira mulher, com auréola, carrega uma criança nos ombros. As três vestem pareos coloridos. Um anjo de asas amarelas aparece entre as folhas à esquerda. O chão é coberto de frutas tropicais. As árvores são vermelhas, amarelas, verdes.

A paleta é violenta. Verdes saturados, amarelos quentes, vermelhos terrosos, azuis profundos. Nenhuma cor é natural. Gauguin não copiava o que via. Intensificava. Cada cor é uma decisão emocional, não uma observação.

A composição é dividida em faixas horizontais: frutas no chão, figuras no meio, folhagem no topo. Não há perspectiva linear. O espaço é achatado, decorativo, como um vitral ou uma tapeçaria. As figuras não estão num lugar. Estão numa visão.

"Eu fecho os olhos para ver." Paul Gauguin.

II

A história por trás

Gauguin chegou ao Taiti em junho de 1891, fugindo de Paris, da esposa, dos filhos, do mercado de arte, da civilização europeia. Tinha 43 anos e uma convicção: a arte verdadeira estava nos povos que a Europa não tinha contaminado. Era uma fantasia colonial, arrogante e simplificadora. Mas produziu algumas das pinturas mais poderosas do século XIX.

"Ia Orana Maria" foi a primeira grande tela taitiana. Gauguin a descreveu numa carta: "Um anjo de asas amarelas revela Maria e Jesus, taitianos mesmo assim, a duas mulheres taitianas, pareos, flores na orelha." As poses das duas mulheres em oração foram copiadas de um relevo do templo de Borobudur, na Indonésia, que Gauguin conhecia por fotografias. O sincretismo era deliberado: budismo, cristianismo, Polinésia, tudo junto.

A técnica é cloisonnisme: áreas de cor plana separadas por contornos escuros, como vitrais medievais. Gauguin aprendeu o método com Émile Bernard e o levou além. Em "Ia Orana Maria", as linhas de contorno são às vezes azuis, às vezes vermelhas, mudando conforme a emoção de cada área.

A pintura foi exposta em Paris em 1893 e causou escândalo e fascínio em partes iguais. O título em taitiano chocava. As figuras morenas com auréolas cristãs incomodavam. E as cores, aquelas cores impossíveis, eletrizavam. Gauguin a considerava sua obra-prima. O Metropolitan Museum a adquiriu em 1921.

III

Por que importa

Gauguin era problemático como pessoa. Abandonou a família, explorou culturas que não entendia, construiu mitos sobre si mesmo. Nada disso apaga o fato de que esta pintura funciona.

A ideia de que o sagrado existe em qualquer corpo, em qualquer paisagem, em qualquer cor, é poderosa. Não precisa de Gauguin pra ser verdadeira. Mas foi Gauguin quem a pintou primeiro com essa clareza. A Virgem é taitiana. E não é menos Virgem por isso.

Olhe com calma.

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