|
Alguém canta. Alguém toca alaúde. Alguém ri. A sala é rica, os tecidos são caros, as taças estão cheias. Gerbrand van den Eeckhout, aluno favorito de Rembrandt, pintou uma festa que você ouve com os olhos. E onde ninguém parece ter pressa de ir embora.
I
O que você vê
O grupo está reunido ao redor de uma mesa. Um homem toca alaúde, uma mulher segura uma partitura, outros levantam taças de vinho. As roupas são opulentas: cetins, veludos, bordados. A iluminação vem de uma vela ou lamparina fora do quadro, criando sombras quentes nos rostos.
As expressões são vivas. Um homem à esquerda se inclina pra frente, sorrindo. A mulher com a partitura concentra-se na música. Outro personagem olha pro espectador com uma cumplicidade que convida a entrar na cena. Não há pose. Há interação.
Os tecidos são o espetáculo técnico. O cetim do vestido de uma das figuras reflete a luz com brilho líquido. O veludo escuro ao lado absorve a luz e desaparece. Van den Eeckhout sabia que a diferença entre cetim e veludo é a diferença entre mostrar e esconder. E usou isso pra criar ritmo visual.
|
"Van den Eeckhout era o melhor amigo e o melhor aluno de Rembrandt. As duas coisas são raras de encontrar na mesma pessoa." Arnold Houbraken, 1718.
|
II
A história por trás
Gerbrand van den Eeckhout nasceu em Amsterdã em 1621 e entrou no ateliê de Rembrandt por volta de 1635. Dos muitos alunos de Rembrandt, ele foi o mais próximo pessoalmente. Mantiveram amizade até a morte de Rembrandt em 1669. Van den Eeckhout sobreviveu apenas cinco anos ao mestre.
Cenas musicais eram populares na pintura holandesa do século XVII. Representavam riqueza, cultura e sociabilidade. Eram compradas por burgueses que queriam ver na parede o que viviam nos salões. A festa musical de Van den Eeckhout é uma das melhores do gênero: as figuras são individualizadas, a composição é natural, a luz é sofisticada.
A influência de Rembrandt é visível: o claro-escuro dramático, os fundos escuros, a atenção aos rostos. Mas Van den Eeckhout adicionou algo que Rembrandt raramente tinha: leveza. As cenas de Rembrandt são profundas, pesadas, introspectivas. As de Van den Eeckhout são sociáveis. As pessoas em seus quadros se divertem. E isso, na tradição rembrandtiana, é quase uma rebelião.
O ano de 1650 marca o auge da República Holandesa. Amsterdã era a cidade mais rica da Europa. O comércio global enchia os armazéns e os salões. Havia dinheiro, havia tempo, e havia uma cultura que valorizava a música como forma de convívio civilizado. Esta pintura é um espelho desse momento: confiança, abundância e prazer compartilhado.
III
Por que importa
A festa acabou faz tempo. As taças foram esvaziadas, o alaúde foi guardado, os convidados saíram. Mas o que Van den Eeckhout fixou na tela é o que toda festa tenta criar e poucas conseguem: um momento em que ninguém quer estar em outro lugar.
Esse momento, pintado com a técnica de quem aprendeu com o maior pintor do século, dura 375 anos. A música parou. Mas a sala ainda está cheia.
Olhe com calma.
|