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Duncanson nunca viu a Caxemira: pintou o vale a partir de um poema, do outro lado do oceano. A paisagem mais serena que você verá hoje nasceu da necessidade de imaginar um lugar livre. Olhe com esse peso em mente.
Em 1867, dois anos após o fim da Guerra Civil americana, um pintor negro de Cincinnati chamado Robert Duncanson colocou sobre a tela um vale de sonho: palmeiras exóticas, montanhas azuladas ao fundo, um lago sereno cortado por um barco e uma corte elegante reunida à beira-d'água.
Não era a América que ele conhecia. Era o leste imaginado por um poema inglês, e era também, talvez, o único lugar onde um homem como ele podia existir livre de qualquer restrição.
I
O que você vê
A tela é horizontal e generosa, 73 por 132 centímetros, estruturada como um teatro natural em que o olho percorre da esquerda para a direita sem obstáculo. No primeiro plano, sombra densa: vegetação tropical espessa, folhagem pesada, raízes que mergulham num chão escuro. Um grande carvalho de copas amplas ancora o lado esquerdo da composição.
O plano médio abre-se sobre um lago calmo, de um azul acinzentado que reflete o céu. Um barco comprido e vermelho avança pelo centro das águas. Na margem oposta, perto de uma escadaria monumental, uma comitiva de figuras vestidas com clareza, branco, amarelo, azul, converge em torno de uma fonte que lança um jato alto. Uma cúpula islâmica aparece à esquerda, semiescondida entre as árvores.
Ao fundo, as montanhas sobem em gradações de azul e violeta pálido, dissolvendo-se numa névoa dourada onde o céu já quase não se distingue da terra. A luz é de final de tarde: quente nos cumes, branda no lago, fria nas sombras do primeiro plano.
O detalhe mais surpreendente são as palmeiras altas que flanqueiam a cena, completamente anacrônicas para qualquer paisagem americana, e que assinalam desde o início que este é um lugar inventado, uma visão, não uma reportagem.
As figuras humanas são pequenas demais para ter rostos. Existem para mostrar escala e movimento, não para contar histórias individuais. A história, aqui, é da paisagem.
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"A natureza é a arte de Deus." Thomas Browne, *Religio Medici*, 1643., Máxima frequentemente citada pelos pintores da Hudson River School, movimento ao qual Duncanson se filiava.
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II
A história por trás
Robert S. Duncanson nasceu por volta de 1821 em Fayette, Nova York, filho de mãe afro-americana e pai de origem escocesa. Cresceu em Ohio e aprendeu a pintar por conta própria, sem acesso à formação acadêmica reservada aos brancos.
Em Cincinnati, recebeu apoio de abolicionistas da Liga Anti-Escravidão que financiaram uma viagem à Europa em 1853, o primeiro de vários contatos com a pintura europeia que moldaram seu estilo.
Duncanson foi o primeiro artista negro a obter reconhecimento nacional e internacional nos Estados Unidos. Expôs no Canadá, na Inglaterra e na Escócia. Durante a Guerra Civil, relocou-se para Montreal, onde influenciou pintores paisagistas canadenses. Ao voltar, encontrou um país formalmente reunificado mas profundamente dividido.
O Vale da Caxemira foi pintado em 1867, logo após seu retorno de uma segunda estadia europeia. A inspiração foi o poema épico *Lalla-Rookh* (1817), do irlandês Thomas Moore, um texto de grande sucesso no século XIX que narrava a jornada de uma princesa persa ao subcontinente indiano.
Duncanson escolheu o episódio da chegada ao vale encantado e construiu em torno dele uma paisagem imaginária que mistura elementos indianos, islâmicos e tropicais com a tradição da Hudson River School.
A obra pertenceu a colecionadores privados por gerações e só entrou para o acervo do Cleveland Museum of Art em 2014, um século e meio depois de pintada.
III
Por que importa
Duncanson trabalhou dentro de uma tradição que não foi feita para ele. A Hudson River School era o projeto pictórico da expansão americana, uma celebração da terra como destino manifesto, e esse destino era branco.
Duncanson pegou as mesmas ferramentas, o mesmo vocabulário visual, e construiu com eles um espaço que não pertencia a ninguém: um oriente fantástico, uma nação que ainda não existia, um paraíso fora do alcance da história.
Há algo de radical nessa escolha. Enquanto a América brigava consigo mesma sobre quem era humano o suficiente para ser livre, ele pintava um lugar onde essa pergunta simplesmente não se colocava. O Vale da Caxemira é, ao mesmo tempo, uma obra magnífica de paisagem romântica e um ato silencioso de recusa. A beleza, aqui, é também uma posição.
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Olhe com calma.
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