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Trinta figuras disputam a atenção numa tela escura e movimentada. No centro, uma figura de branco, Cristo, estende o braço sobre um homem prostrado. Em torno deles, a multidão se comprime: doentes, mendigos, crianças, espectadores com turbantes e mantos. A cena é de 1742, mas poderia ter saído de um ateliê de Amsterdã de cem anos antes. Isso não é coincidência.
I
O que você vê
A tela é horizontal, com cerca de 89 por 105 centímetros. O fundo é quase inteiramente negro, uma escuridão densa que absorve os cantos e as bordas. Desse escuro emergem as figuras, iluminadas por uma luz que parece vir de Cristo mesmo.
Cristo está de pé no centro-direito da composição, elevado numa base de pedra, possivelmente os degraus de um portal ou uma sacada de muro. Veste uma túnica branca longa, com um manto azul pálido caído sobre um ombro.
O braço direito está estendido em direção a um homem curvado, doente, que se apoia numa bengala. A luz branca concentra-se em Cristo e irradia para as figuras ao redor.
À esquerda, uma multidão compacta se agita: homens com turbantes brancos, mulheres que carregam crianças, figuras encurvadas, corpos seminus em postura de sofrimento. No primeiro plano, um homem deita de costas sobre uma maca improvisada, os braços cruzados sobre o corpo, como se estivesse morto ou em transe. A seu lado, um cão de pelo claro fareija o chão.
No canto direito inferior, detalhes que parecem caídos por acaso: uma roda, um pedaço de corda, um pano branco dobrado, objetos de vida cotidiana que ancoram a cena no mundo material. Ao fundo, entre as figuras, um clarão amarelo-ocre ilumina ruínas de arquitetura e um céu de tempestade.
A paleta é sombria: castanhos, ocres, cinzas, com o branco de Cristo como único ponto de luz fria. O conjunto lembra, intencionalmente, as grandes composições de Rembrandt.
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"Dietrich tinha uma facilidade de imitação que o tornava capaz de enganar os mais experientes conhecedores, ele pintava no estilo de Rembrandt, de Watteau, de Brouwer, com igual habilidade e sem aparente esforço." Johann Wolfgang von Goethe, *Dichtung und Wahrheit*, 1811–1833.
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II
A história por trás
Christian Wilhelm Ernst Dietrich nasceu em Weimar em 1712, filho de um pintor de corte. Desde jovem revelou uma capacidade extraordinária de assimilar e reproduzir os estilos dos grandes mestres, em particular os pintores holandeses e flamengos do século XVII. Essa habilidade lhe rendeu o apelido de "Dietricy" (uma germanização de seu nome) e uma reputação ambivalente: admirado pela técnica, criticado pela falta de originalidade.
Em 1741, foi nomeado pintor da corte de Augusto III, Eleitor da Saxônia e Rei da Polônia, um dos mais importantes patronos artísticos da Europa central, cujas coleções em Dresden eram célebres. Dietrich passou a maior parte da carreira em Dresden, onde também ensinou na Academia de Belas-Artes.
Esta tela, pintada em 1742 com apenas 30 anos, é um exemplo da sua habilidade de operar na tradição rembrandtesca: a composição em multidão, o uso dramático da luz, os tipos humanos variados e o tratamento do tema sagrado de forma concreta e carnal, tudo remete ao modo holandês do século anterior.
Goethe, que o conheceu pessoalmente, era ao mesmo tempo fascinado e desconfiado de seu talento camaleônico.
Dietrich morreu em Dresden em 1774. A obra integra a coleção do Metropolitan Museum of Art desde 1885, doada por William H. Webb.
III
Por que importa
A carreira de Dietrich levanta uma questão que não tem resposta fácil: onde termina a habilidade e começa a cópia? Ele não fingia ser Rembrandt, assinava suas obras, datava-as, não escondia o que fazia. Mas dominava tão bem a linguagem dos mestres que a usava como a própria língua.
Há algo libertador nessa postura, e algo limitante. A liberdade de trabalhar em qualquer estilo; o limite de nunca ter inventado o seu próprio. Esta tela, pintada trinta anos depois de Rembrandt, é um documento de quanto a linguagem de um grande artista pode perdurar, e de quanto é possível saber pintar sem saber o que dizer.
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Olhe com calma.
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