Arte do Dia #035 · A Liberdade guiando o povo
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 035

A Liberdade guiando o povo

Eugène Delacroix · 1830 · Óleo sobre tela

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A Liberdade guiando o povo

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Ela avança sobre cadáveres com a bandeira tricolor numa mão e um mosquete na outra. O peito está nu. O olhar, fixo no que vem depois. Eugène Delacroix pintou essa imagem em três meses, no fim de 1830, com a fumaça das barricadas ainda no ar.

I

O que você vê

No centro da tela, uma figura feminina monumental avança em direção ao espectador. É a Liberdade personificada, com o gorro frígio vermelho, símbolo dos revolucionários. A mão direita levanta a bandeira azul, branca e vermelha da França. A esquerda segura uma baioneta. Os pés estão descalços, as roupas em desalinho, o torso desnudo da cintura para cima.

Ao redor dela, os combatentes da Revolução de Julho de 1830. Um burguês de cartola e fraque, com fuzil em punho. Um menino de boina à direita, com duas pistolas, gritando. Um operário com camisa branca aberta. Um soldado caído no canto inferior esquerdo, com calças cruas. Outro corpo nu na base da composição, sem dignidade nenhuma. A morte serve de pedestal.

Ao fundo, a fumaça das barricadas. Mais para a direita, as torres da catedral de Notre-Dame mal aparecem entre o cinza. Delacroix coloca a cena no coração de Paris, mas não detalha o cenário. Quem importa é a multidão.

A pincelada é rápida, ampla, dramática. Os corpos são modelados com luz forte. As cores se concentram no tricolor da bandeira: o azul, o branco e o vermelho aparecem repetidos no boné do menino, na faixa do operário, na meia do morto. A composição inteira é uma pirâmide cuja ponta é a bandeira.

"Eu empreendi um tema moderno, uma barricada. E se eu não combati pela pátria, ao menos pinto por ela." Eugène Delacroix, carta ao irmão Charles-Henri, outubro de 1830.

II

A história por trás

Em julho de 1830, Paris se levantou contra Carlos X, último rei Bourbon, que tentava restaurar privilégios da nobreza e censurar a imprensa. Em três dias, conhecidos como Les Trois Glorieuses (27, 28 e 29 de julho), barricadas tomaram a cidade. O rei abdicou. Em seu lugar entrou Luís Filipe, o "rei-cidadão". A Revolução de Julho não derrubou a monarquia, mas reescreveu o pacto entre povo e poder.

Eugène Delacroix tinha 32 anos. Havia escrito ao irmão dizendo que não pegaria em armas, mas pintaria pelo país. Em outubro começou a obra. Em dezembro estava pronta. Foi exibida no Salão de 1831 com o título original Le 28 juillet: La Liberté guidant le peuple.

A reação foi dividida. O governo de Luís Filipe comprou a tela por 3.000 francos, mas a manteve fora de exposição pública por temer que a imagem incitasse novas revoltas. A obra ficou guardada por 18 anos. Só foi exibida permanentemente após 1874, no Louvre.

A figura central não é uma mulher real. É uma alegoria, herdeira da Marianne, símbolo da República Francesa desde 1792. Mas Delacroix faz dela algo novo: uma deusa popular, com axilas peludas e pés sujos de barricada. Não é a Vênus de Milo idealizada. É a República com a roupa rasgada e a cara suja de pólvora.

O menino à direita, com duas pistolas e olhar de êxtase, inspirou diretamente o personagem Gavroche dos Miseráveis, romance que Victor Hugo publicaria em 1862. A imagem do garoto correndo entre as barricadas virou ícone da consciência popular francesa. A pintura tem 2,60 metros de altura por 3,25 de largura. Está hoje no Louvre, na Sala Mollien.

III

Por que importa

Delacroix não pintou uma vitória. Pintou um instante. O momento em que o povo cruza o limite entre obediência e ação. Os corpos no chão lembram que esse instante custa caro.

A imagem virou universal. Foi capa do álbum dos Coldplay, foi pichada em Hong Kong, foi recriada em protestos no Chile, no Líbano e no Sudão. Quando uma multidão precisa de uma imagem que diga estou aqui, ela ainda recorre a esta. Quase 200 anos depois, a Liberdade ainda avança. E o tecido tricolor continua erguido, mesmo quando a mão muda.

Olhe com calma.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Delacroix pintou A Liberdade guiando o povo para celebrar a Revolução Francesa de 1789, que derrubou a monarquia dos Bourbon.

VVerdadeiro FFalso

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