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Um barco prestes a virar e, no centro dele, um homem em sono profundo. Esse contraste impossível é o assunto inteiro da tela. Olhe primeiro pra calma, depois pro caos.
O céu está quase negro. As ondas levantam espuma e arremessam o barco de um lado para o outro. Os discípulos gesticulam, gritam, se agarram uns aos outros, e no centro da embarcação, enrolado num manto azul com auréola dourada, Cristo dorme.
Eugène Delacroix voltou a este tema várias vezes ao longo da vida, como se a imagem de um homem capaz de descansar no meio do caos fosse uma questão que ele não conseguia encerrar.
I
O que você vê
A tela é relativamente pequena, cerca de 50 por 61 centímetros, e isso aumenta a intensidade da cena. Tudo está comprimido: o barco de madeira escura ocupa quase toda a largura da composição, com proa voltada para a esquerda e a popa quase submersa nas ondas à direita.
O mar é o tema visual dominante. Delacroix construiu a água em camadas de verde-azulado e branco espumante, com ondas de cristas elevadas que ameaçam engolir a embarcação. O céu carrega nuvens tempestuosas de cinza escuro, quase preto, com uma fresta de luz pálida no horizonte à esquerda, onde as montanhas surgem como sombras.
No interior do barco, oito ou nove figuras em poses de desespero. Os discípulos vestem mantos vermelhos, ocres e roxos, cores quentes que contrastam com o azul frio do mar. Alguns estendem os braços para o céu ou se agarram à borda; outros se curvam sobre si mesmos. O movimento é caótico, centrífugo.
E ali, à esquerda, embrulhado num manto azul real, Cristo repousa com a cabeça ligeiramente inclinada. A auréola dourada ao redor da cabeça é o único elemento de serenidade na composição inteira. Não é uma cena de milagre, pelo menos ainda não. É o segundo imediatamente anterior ao momento em que alguém acorda e a tempestade cessa.
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"O que faz os gênios, ou melhor, o que eles fazem, é aplicar novas ideias à velha ordem das coisas." Eugène Delacroix, *Journal*, entrada de 7 de maio de 1824.
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II
A história por trás
Eugène Delacroix nasceu em 1798 perto de Paris e tornou-se o representante mais célebre do Romantismo francês. Pintor de temperamento apaixonado e intelectual voraz, seus diários revelam um leitor de Shakespeare, Byron e Dante, interessou-se ao longo de toda a carreira por cenas de movimento extremo, emoção intensa e contrastes dramáticos de cor.
O tema da tempestade no lago de Genesaré (Marcos 4, 35–41) atraiu Delacroix em diferentes momentos da vida.
A versão do Met, datada de cerca de 1853, é uma das mais íntimas: pequena em escala, de execução vigorosa, quase esboçada em alguns pontos, como se o pintor ainda estivesse tomado pela urgência da cena.
É uma obra de maturidade, quando Delacroix havia abandonado boa parte da espetacularidade decorativa de sua juventude em favor de uma expressão mais direta.
A tela pertenceu à coleção de H. O. Havemeyer e chegou ao Metropolitan Museum por meio do legado de Louisine Havemeyer em 1929, a mesma colecionadora que introduziu nos Estados Unidos obras de Manet, Degas e outros modernos franceses.
Delacroix não era um homem de fé convencional, mas voltou repetidamente a temas bíblicos ao longo da vida. Nesta cena, o que parece interessá-lo não é a teologia, mas o paradoxo: a figura do absoluto que dorme enquanto o mundo afunda.
III
Por que importa
Há algo perturbador nesta imagem que vai além da narrativa religiosa. Delacroix não pintou um Deus todo-poderoso em repouso tranquilo, pintou a ausência de resposta no momento em que ela seria mais necessária. Os discípulos não têm certeza se ele vai acordar. O espectador também não.
É por isso que o quadro continua a incomodar, mais de 170 anos depois. Não é uma imagem de conforto. É uma imagem sobre a espera, sobre o que fazemos quando o socorro não chega na hora que esperamos e o barco continua sacudindo. Delacroix pintou a fé não como uma resposta, mas como uma pergunta que se mantém no meio da tempestade.
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Olhe com calma.
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