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Não a apresentação. O ensaio. Bailarinas espalhadas pela sala. Uma se coça. Outra ajeita o laço. Uma bocejando. No centro, um velho de bengala observa. Edgar Degas pintou a Ópera de Paris pelo avesso. E descobriu que a coreografia mais reveladora é a que acontece antes do espetáculo.
I
O que você vê
A composição é descentralizada. O ponto focal não está no meio da tela. As figuras se distribuem em diagonal, da esquerda inferior para a direita superior, criando uma sensação de instantâneo, como se o pintor tivesse fotografado o momento. Degas era admirador da fotografia japonesa e das gravuras ukiyo-e, e usou os recortes assimétricos das duas tradições.
No centro da sala, um homem idoso vestido de preto, com cabelo grisalho e bigode, apoia-se em uma bengala alta. É Jules Perrot, mestre de balé da Ópera de Paris, figura real, retratada por Degas a partir de fotografias e estudos. Ele observa as bailarinas com expressão neutra, quase entediada.
Ao redor dele, cerca de vinte bailarinas em diversos estados de atenção. Uma se coça nas costas com a mão alongada de forma cômica. Outra ajusta a fita do tutu. Outra escora-se no piano à direita, com a cabeça baixa. Uma terceira está de costas no canto inferior esquerdo, sentada num banco, com a perna levantada para amarrar a sapatilha. Quase nenhuma está dançando. O ensaio é de espera.
A sala é o velho prédio da Ópera de Paris da rue Le Peletier, que pegaria fogo um ano depois, em 1873. Tem chão de tábuas de madeira, espelho ao fundo, paredes brancas, uma janela alta no canto. O leque de uma das bailarinas no primeiro plano cria um eco visual com a curva do espelho do fundo.
A pincelada de Degas mistura técnicas. Os tutus são pintados com toques rápidos e quase abstratos de branco e cinza. Os corpos têm desenho nítido. Os rostos não. Os pés, que sempre fascinavam Degas, são detalhados com a precisão anatômica de um anatomista.
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"As pessoas me chamam de pintor de bailarinas. Não percebem que para mim a bailarina é só um pretexto para pintar tecidos e movimentos." Edgar Degas, em conversa com o crítico Louis Vauxcelles, c.1894.
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II
A história por trás
Edgar Degas nasceu em Paris em 1834, em família burguesa abastada. Foi educado para advogado. Largou tudo para pintar e estudou na École des Beaux-Arts. Na década de 1860 dedicou-se a temas históricos e retratos. Em 1872, depois de uma viagem a Nova Orleans para visitar parentes, voltou a Paris e começou a frequentar diariamente os bastidores da Ópera. Pintaria bailarinas pelos próximos 35 anos. Calcula-se que tenha produzido mais de 1.500 obras com o tema.
Bailarinas no Ensaio (também chamada de A Aula de Dança) foi pintada por volta de 1874, no momento em que Degas se aproximava do grupo dos impressionistas. Participou da primeira exposição impressionista em abril daquele ano, na rue des Capucines, ao lado de Monet, Renoir, Pissarro e Cézanne. Mas Degas resistia ao rótulo. Não pintava ao ar livre, não buscava captar a luz mutável. Pintava em estúdio, baseado em estudos rigorosos. Era um realista ácido travestido de impressionista.
A Ópera de Paris dos anos 1870 não era apenas teatro. Era também um mercado social. Os assinantes ricos, os abonnés, tinham acesso aos bastidores e às salas de ensaio. Muitos cortejavam as bailarinas, que vinham de famílias pobres e dependiam financeiramente desses patronos. As mães das meninas frequentemente intermediavam essas relações. Degas conhecia essa dinâmica e a registrou.
Esta tela específica pertenceu ao colecionador francês Henri Lerolle, depois passou para coleções americanas. Foi adquirida pelo Metropolitan Museum of Art de Nova York em 1987, doada por Mrs. Harry Payne Bingham. Está hoje na Sala 815 do Met, junto com outras pinturas e pastéis impressionistas.
A escolha do ensaio em vez da apresentação é teórica. Degas, leitor dos irmãos Goncourt, escritores naturalistas franceses, acreditava que a verdade de uma profissão estava no momento em que ninguém olhava. Pintar a bailarina no palco era pintar uma máscara. Pintá-la no ensaio era pintar a pessoa que vestia a máscara.
III
Por que importa
Degas inverteu a hierarquia da cena teatral. Mostrou que o backstage é o palco verdadeiro. Que o espetáculo acontece na sala dos atletas, não no teatro do público. Que uma bailarina coçando as costas é mais bonita que dez bailarinas em pose para o pôster.
Cento e cinquenta anos depois, a lógica dele invadiu tudo. Documentários sobre artistas mostram o estúdio. Reality shows mostram os bastidores. Redes sociais mostram o "antes e depois", o "tudo o que aconteceu antes do post". Tudo o que hoje chamamos de autenticidade começou aqui, nesta sala da Ópera, com Jules Perrot apoiado na bengala e meia dúzia de meninas espreguiçando-se. Degas estava de pé na porta, esboçando, há 152 anos.
Olhe com calma.
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