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O rosto é largo, sério, inabalável. João, o Constante, não ganhou esse nome à toa. Foi o príncipe que bancou Lutero quando o papa queria sua cabeça. Cranach, que era amigo pessoal dos dois, pintou o retrato de um homem cuja firmeza mudou a Europa.
I
O que você vê
O Eleitor aparece de perfil, contra um fundo verde-azulado uniforme. O rosto é carnudo, com queixo duplo, nariz forte e olhos pequenos e penetrantes. Veste um casaco escuro com gola de pele e uma corrente de ouro no peito. A barba é rala, grisalha.
Cranach não lisonjeou. O queixo duplo está ali, o excesso de peso está ali, a idade está ali. Mas não como defeitos. Como evidências de poder. Na linguagem visual do século XVI, um corpo robusto significava abundância e autoridade. Cranach pintou o corpo do príncipe como pintaria o mapa de um território: como prova de domínio.
O perfil é uma escolha deliberada. Retratos de perfil remetem a moedas romanas, a medalhas, a poder institucional. Não é um homem conversando. É um homem cunhado em tinta.
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"Cranach era pintor, empresário e propagandista. E fazia os três com a mesma excelência." Dieter Koepplin, curador do Kunstmuseum Basel.
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II
A história por trás
Lucas Cranach, o Velho, nasceu em Kronach, na Francônia, em 1472. Mudou-se para Wittenberg em 1505, a convite de Frederico, o Sábio, Eleitor da Saxônia. Ali ficou por quase cinquenta anos, como pintor oficial da corte e, na prática, como diretor de uma empresa de imagens.
O ateliê de Cranach era uma fábrica. Empregava dezenas de assistentes que produziam retratos, retábulos, gravuras e ilustrações em escala industrial. Cranach supervisionava tudo, mas muitas obras eram executadas por ajudantes seguindo seus desenhos. Era o sistema de produção mais eficiente do Renascimento alemão.
João I, o Constante, sucedeu o irmão Frederico como Eleitor da Saxônia em 1525. Enquanto Frederico protegia Lutero nos bastidores, João assumiu publicamente a causa protestante. Formou a Liga de Esmalcalda, uma aliança militar dos príncipes protestantes contra o imperador Carlos V. Era um risco enorme. Carlos V controlava o maior exército da Europa.
Cranach pintou este retrato em 1532, o mesmo ano em que João morreu. É ao mesmo tempo um registro e um monumento. O perfil rígido, a postura firme, a corrente de ouro: tudo comunica a mesma mensagem. Este homem não cedeu. E o pintor que o registrou era seu amigo, seu aliado, e o padrinho de seus filhos.
III
Por que importa
A Reforma Protestante não foi só teologia. Foi política, e a política precisa de rostos. Cranach forneceu esses rostos. Cada retrato de um príncipe protestante era um panfleto visual, uma declaração de lado.
João I morreu. A Reforma sobreviveu. E o rosto dele, pintado por um amigo que entendia o poder das imagens, continua dizendo a mesma coisa que dizia em vida: eu não mudo de posição.
Olhe com calma.
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