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Em dezembro de 1877, Gustave Courbet morreu na Suíça antes de terminar esta tela. Ele a havia começado como uma grande aposta: a paisagem seria exibida na Exposição Universal de Paris de 1879, uma tentativa de redenção pública depois de anos de exílio e humilhação. O quadro ficou inacabado. E ainda assim é uma das suas obras mais poderosas.
I
O que você vê
A tela é grande, mais de um metro e meio de altura por dois de largura.
O olhar é puxado imediatamente para a cadeia de montanhas que domina o centro e o fundo da composição: Les Dents du Midi, cujas cristas nevadas cortam o horizonte sob um céu de nuvens brancas e pesadas.
As montanhas têm uma presença quase ameaçadora, são escuras, maciças, pintadas em tons de verde-cinza e antracite, com manchas de neve nas cumeeiras.
No centro, entre as montanhas e o primeiro plano, um lago se estende horizontalmente, uma faixa de azul escuro que funciona como divisor de mundos, a vastidão selvagem lá atrás, a planície habitada aqui na frente.
No primeiro plano, à esquerda, um pastor deita sobre uma pequena colina verde, rodeado por cabras escuras. A figura humana é diminuta diante da escala das montanhas, quase um sinal de que a natureza não se importa com os dramas dos homens. Rochas brancas pontuam a encosta, e flores azuis minúsculas aparecem dispersas na relva.
Tecnicamente, a tela revela o método de Courbet: o canto inferior direito está notavelmente inacabado, com a tinta apenas esboçada. No topo das montanhas, a diferença entre a textura das nuvens e a da neve é construída com pinceladas e com espátula, camadas grossas que criam relevo físico na superfície.
O resultado é uma paisagem que não convida ao descanso. Convida ao confronto.
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"Pintar é uma arte do concreto e só pode consistir na representação de coisas reais e existentes." Gustave Courbet, *Manifeste du Réalisme*, 1855.
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II
A história por trás
Gustave Courbet nasceu em Ornans, no leste da França, em 1819, filho de um proprietário rural. Chegou a Paris aos vinte anos determinado a se tornar pintor sem seguir nenhuma escola. Recusou o academicismo, recusou a pintura histórica, recusou os deuses e alegorias. Queria pintar o que via: pedras, neve, trabalhadores, festas camponesas, o mar.
Tornou-se o líder do Realismo francês e uma figura polêmica, celebrado e ridicularizado ao mesmo tempo. Em 1871, envolveu-se na Comuna de Paris e foi acusado de ter ordenado a derrubada da Coluna Vendôme, símbolo do Império napoleônico. Condenado a pagar os custos de restauração, uma quantia que ele jamais poderia reunir, fugiu para a Suíça em 1873 para evitar a prisão.
Nos últimos anos de vida, instalou-se em La Tour-de-Peilz, às margens do Lago de Genebra, de onde podia ver Les Dents du Midi ao sul. Continuou pintando com a mesma intensidade, mas o exílio o pesava. Os processos legais consumiram sua fortuna. Ele vendia obras para pagar dívidas.
Esta tela monumental foi concebida para a Exposição Universal de Paris de 1879, um último gesto de presença no cenário artístico que o havia banido. Courbet morreu de hidropisia em 31 de dezembro de 1877, com 58 anos, sem jamais retornar à França. A pintura ficou como ele a deixou: montanhas acabadas, primeiro plano ainda em processo.
O Cleveland Museum of Art adquiriu a obra em 1964.
III
Por que importa
Courbet não pintava paisagens para embelezar paredes. Pintava para reivindicar o mundo real como matéria legítima da grande arte. Nesta tela, as montanhas suíças não são um cenário bucólico, são a realidade de um homem que perdeu o país, a liberdade e a fortuna, mas não perdeu a vontade de olhar.
O inacabamento da tela não é fraqueza. É o registro honesto de uma interrupção. Courbet não chegou a pôr a última pincelada, e isso, paradoxalmente, nos aproxima dele: vemos o trabalho por dentro, a construção antes da fachada. Toda grande obra carrega, em algum ponto, a marca de quanto custou fazê-la.
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Olhe com calma.
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