|
Corot, velho e consagrado, gastou todo esse prestígio no assunto mais simples possível: um colo e uma tarde. É preciso muita estrada pra confiar tanto no pouco. Repare no que falta, de propósito.
Não há paisagem grandiosa aqui, nem tema histórico, nem virtude personificada. Há uma mulher sentada, um bebê no colo, uma tarde qualquer.
Corot pintou este painel de 32 centímetros provavelmente nos anos 1860, quando tinha já passado dos sessenta anos e estava no cume de uma reputação que levara décadas a construir.
A economia desta imagem, tudo o que ela recusa mostrar, tudo o que deixa para o espectador completar, é o resultado de uma vida inteira de trabalho.
I
O que você vê
A tela é pequena e vertical: 32 por 22 centímetros, óleo sobre madeira. A composição é directa: uma mulher sentada de três quartos ocupa quase toda a superfície, com um bebê aninhado no seu braço direito.
A mulher usa uma blusa de mangas compridas de cor escura, verde muito escuro ou preto, e tem os cabelos pretos presos na nuca com o que parece ser uma fita ou tiara simples.
O rosto está inclinado para a frente e para a esquerda, os olhos baixos, voltados para o bebê que sustenta. A expressão é de atenção absorta, não existe mais nada no mundo para ela neste momento além da criança que segura.
O bebê está enrolado em tecido branco e pousado no colo da mãe, a cabeça virada para o ombro dela. A mão da mulher ampara-lhe as costas. Com a outra mão, estendida sobre o colo, ela mantém o equilíbrio do conjunto.
O fundo é construído em manchas largas de castanho-avermelhado e cinzento, sugerindo uma paisagem exterior vaga, talvez um talude, talvez uma porta. À esquerda, ao fundo, uma figura minúscula com chapéu. Nada é definido com precisão. O foco da pintura está inteiramente nas duas figuras do primeiro plano.
A assinatura "COROT" está no canto inferior direito, em letras largas, quase como uma rubrica. A paleta é austera, verdes, castanhos, cinzentos, com o branco do babygrow como único elemento claro.
As pinceladas são soltas e visíveis. Corot não buscou a invisibilidade técnica. Buscou o essencial: a inclinação de uma cabeça, a curva de um braço, o peso de uma criança sustentada.
|
"O belo na arte é a verdade mergulhada na impressão que recebemos da natureza." Camille Corot, citado em Alfred Robaut, *L'Œuvre de Corot*, 1905.
|
II
A história por trás
Jean-Baptiste-Camille Corot nasceu em Paris em 1796, filho de um comerciante de chapéus bem-sucedido. Por pressão familiar, trabalhou no comércio de tecidos até os 26 anos. Só então o pai lhe concedeu uma renda anual e o libertou para se dedicar à pintura.
Formou-se estudando ao ar livre, em Fontainebleau e na Normandia, e fez três longas estadias em Itália entre 1825 e 1843. Desenvolveu uma linguagem de paisagem em que a atmosfera e a luz eram mais importantes do que o detalhe topográfico. O Salon de Paris rejeitou-o repetidamente antes de reconhecê-lo.
Quando o reconhecimento veio, foi definitivo: nos anos 1860 era o paisagista mais admirado de França.
Esta obra, datada pelos especialistas da década de 1860, é um exemplo do lado menos divulgado de Corot: as figuras humanas. Ao longo da carreira ele pintou regularmente pessoas, camponesas, modelos do seu ateliê, figuras anónimas em paisagens, mas essas obras circularam menos do que as suas paisagens nebulosas. Muitas estão em colecções privadas ou em museus onde ocupam salas secundárias.
A obra do Metropolitan chegou ao museu em 1930 como parte da colecção Havemeyer, a mesma colecção que trouxe ao Met obras de Degas, Monet e Manet, reunida por Louisine e Henry Osborne Havemeyer ao longo de décadas.
III
Por que importa
Corot passou vinte anos sendo rejeitado antes de ser aceite. Quando a aceitação chegou, ele já não precisava dela da mesma forma, tinha encontrado o que procurava na própria prática da pintura.
Mãe e filho é uma pequena obra privada, sem ambição de exposição. É o tipo de coisa que um pintor faz porque precisa de pintar, não porque vai expor. Há nessa escala e nessa ausência de pretensão uma honestidade que as grandes obras de museu raramente conseguem.
Uma mulher olha para o filho. Corot olha para a mulher. E o resultado permanece, mais de um século depois, com a mesma temperatura de uma tarde comum.
---
Olhe com calma.
|