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Hurd tinha dinheiro pra posar de peruca empoada e escolheu o turbante de seda e o colarinho aberto. Essa franqueza, raríssima no século dele, é o verdadeiro retrato. Copley entendeu e pintou a escolha junto com o homem.
A primeira coisa que você nota é que ele não tem peruca. Em meados do século XVIII, na Boston colonial, aparecer num retrato sem a peruca empoada e a casaca formal era uma declaração.
Nathaniel Hurd, ouriveseiro, gravurista e um dos artistas mais respeitados de sua cidade, escolheu sentar para Copley exatamente como era: com a cabeça raspada coberta por um turbante de seda inclinado, a camisa aberta no colarinho, e o olhar de quem está à vontade porque não tem nada a provar.
I
O que você vê
A tela mede cerca de 76 por 65 centímetros e está organizada em torno de uma presença muito direta: o rosto de Hurd ocupa a parte superior da composição, levemente voltado para o espectador, com os olhos castanhos fixos e um sorriso contido nos lábios, não um sorriso de cerimônia, mas o de quem reconhece alguém.
O personagem está sentado diante de uma mesa coberta de tecido verde-azulado, com as mãos entrelaçadas à frente, em posição relaxada. Sobre a mesa, à esquerda, dois livros encadernados em couro, um de lombada dourada com letras vermelhas parcialmente legíveis, o outro mais discreto. São provavelmente volumes de referência para um artesão-artista: compêndios de desenho, de heraldria ou de modelos decorativos.
Hurd veste um casaco salmão-rosado bordado de detalhes, sobre um colete verde-escuro abotoado com botões dourados, e uma camisa branca cujo colarinho está aberto, sem gravata ou peitilho formal.
O turbante de seda escura, inclinado sobre a cabeça raspada, era uma moda doméstica do período, o que se usava em casa, sem cerimônia. Aqui, dentro de um retrato formal, esse detalhe muda o tom de toda a cena.
O fundo é escuro, num gradiente de marrom-chumbo que ilumina suavemente o lado esquerdo do rosto. A luz cai com precisão sobre o rosto, as mãos e a gola aberta, deixando o restante na penumbra característica dos retratos coloniais americanos.
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"A perfeição de uma obra artesanal não é menor do que a de qualquer bela-arte; apenas seus instrumentos diferem." Benjamin Franklin, *Poor Richard's Almanack*, 1748.
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II
A história por trás
Nathaniel Hurd (1730–1777) era filho de um dos mais renomados ourives de Boston e herdou do pai tanto o ofício quanto a reputação. Tornou-se um dos gravuristas mais solicitados da colônia, produzia ex-libris, brasões, selos e documentos para particulares e instituições, além de peças em prata de alta qualidade. Era uma figura do mundo intelectual e artístico de Boston, e Copley o conhecia pessoalmente.
John Singleton Copley nasceu em Boston em 1738 e aprendeu a pintar de forma quase inteiramente autodidata, estudando gravuras europeias e as obras dos poucos pintores que trabalhavam na colônia. Aos vinte e poucos anos, já era o retratista mais procurado da Nova Inglaterra.
Este retrato de Hurd, pintado por volta de 1765, é considerado um de seus trabalhos mais espontâneos e bem-sucedidos, o Museum of Art de Cleveland o descreve como fruto de uma amizade genuína entre os dois artistas, o que explicaria a informalidade da pose.
A cumplicidade é visível. Hurd não foi posado como um mercador rico querendo demonstrar status. Foi retratado como um artífice orgulhoso, com seus livros à vista, sem a armadura social da peruca e da casaca. Copley, que viria a partir em 1774 para Londres e nunca mais voltaria à América, preservou aqui algo que a história colonial raramente oferece: uma pessoa, não um símbolo.
III
Por que importa
Retratos coloniais americanos tendem à rigidez: a pose ereta, a roupa de cerimônia, o olhar que afirma dignidade antes de tudo. Este de Copley é diferente. É o retrato de um homem que gosta de si mesmo sem precisar se impor, e que encontrou num pintor jovem alguém capaz de ver isso.
O que Copley fez aqui não foi apenas registrar uma fisionomia. Foi capturar a postura de quem sabe o que vale, sem precisar de peruca para provar. Hurd morreu em 1777, aos quarenta e seis anos, durante a Guerra de Independência. O retrato chegou ao Cleveland Museum em 1915 e continua sendo uma das faces mais vivas daquele tempo.
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Olhe com calma.
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