|
Uma casa de fazenda. Um cão na margem. Uma carroça atravessando um pequeno córrego. Acima, o céu inglês muda de cor a cada nuvem. John Constable pintou isso em 1821, e a Inglaterra não percebeu. Mas três anos depois, em Paris, esta tela ajudou a inventar o impressionismo.
I
O que você vê
À esquerda, uma casa de fazenda em estilo Tudor, com paredes de tijolo, telhado de telha vermelha e janelas pequenas, parcialmente coberta por árvores. Pertence a Willy Lott, lavrador local cujo nome o quadro carrega na biografia até hoje. Na frente da casa, uma estradinha de terra desce até a água.
No centro da composição, uma carroça vazia atravessa um córrego raso. Dois cavalos puxam o veículo, com o carroceiro de chapéu branco sentado na boleia. A água do córrego está limpa, refletindo o céu, e os cavalos a vadeiam sem pressa. Atrás da carroça, na margem direita, um cão preto observa a cena.
Ao fundo, um campo aberto onde camponeses trabalham na colheita do feno. As figuras são minúsculas, dispersas no horizonte. Mais ao longe, árvores altas formam uma linha verde contra o céu. A profundidade da paisagem é construída em três planos: a casa e o córrego em primeiro plano, o campo no meio, as árvores no fundo.
O céu ocupa metade superior da tela. É um céu tipicamente inglês: nuvens cumulus brancas e cinzentas se movendo da esquerda para a direita, com manchas de azul entre elas. A luz é variável, com áreas de sombra atravessando o campo conforme as nuvens passam. Constable pintou esse céu com pinceladas livres, quase modernas, deixando a tinta visível e granulada.
|
"O som da água escapando das comportas dos moinhos, salgueiros velhos podres, postes escorregadios e tijolos. Eu amo essas coisas. Foram elas que me fizeram pintor." John Constable, carta a John Fisher, 23 de outubro de 1821.
|
II
A história por trás
John Constable nasceu em 1776 em East Bergholt, Suffolk, no leste da Inglaterra. Filho de um próspero moleiro, foi criado entre rios, moinhos e fazendas. A paisagem que pintaria a vida inteira começava no fim do quintal de casa. A região onde a Carroça de Feno se passa é hoje conhecida como Constable Country, parte do vale do rio Stour.
Constable pintou esta tela no inverno de 1820 e início de 1821, em seu estúdio em Hampstead, Londres, baseado em esboços a óleo feitos no local nos verões anteriores. O método era radical para a época. Constable trabalhava com dois sistemas paralelos: esboços rápidos e gestuais ao ar livre, capturando luz e atmosfera, e composições finais lentas no estúdio, integrando os estudos em uma única obra de seis pés.
A obra foi exibida na Royal Academy de Londres em 1821 com o título A Landscape: Noon. A crítica foi educada e morna. Não vendeu. A Inglaterra ainda preferia paisagens idealizadas, com ruínas clássicas, deuses pastoris, pinceladas lisas. Constable, com sua tinta empastada e seu interesse pela atmosfera real, parecia rústico demais.
Em 1824, o marchand francês John Arrowsmith comprou a obra junto com outras duas paisagens de Constable e as exibiu no Salon de Paris daquele ano. O efeito foi imediato. Eugène Delacroix viu a tela e voltou ao seu estúdio para repintar o céu de uma de suas obras já terminadas. Os pintores da Escola de Barbizon, e depois Monet, Pissarro e Renoir, citariam Constable como referência.
A Carroça de Feno foi premiada com a medalha de ouro do Salon pelo rei Carlos X. Voltou para a Inglaterra anos depois e foi adquirida pela National Gallery de Londres em 1886, onde está até hoje na Sala 34. A casa de Willy Lott ainda existe em Flatford, em East Bergholt, e pertence ao National Trust.
III
Por que importa
A Carroça de Feno mostra um momento sem importância: um homem atravessando um córrego com sua carroça vazia, no meio do dia, num campo qualquer da Inglaterra rural. Ninguém é herói. Nada acontece. O sol vai e volta atrás das nuvens.
Constable disse uma vez que pintava para mostrar que a paisagem comum também merecia atenção. Que o céu sobre o quintal era tão digno quanto o céu sobre Roma. Que um cão na margem de um rio podia segurar uma tela de dois metros. Mais de duzentos anos depois, ele tinha razão. Ainda olhamos para esta carroça parada na água como se ali estivesse uma promessa: a de que a beleza não exige drama. Basta presença.
Olhe com calma.
|