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O temporal acabou de passar. Do alto do monte Holyoke, em Massachusetts, a vista se abre sobre um vale inteiro: lá embaixo, o rio Connecticut faz uma curva tão fechada que quase desenha um anel de água no meio da planície. Nuvens escuras ainda pesam sobre a esquerda da cena, agarradas à mata, enquanto a direita já recebe o sol limpo que vem depois da chuva. O ar parece lavado, e a terra molhada brilha.
Repare mais um pouco e a tela se divide diante dos olhos. De um lado, a floresta selvagem, escura, castigada pelo vento, com árvores retorcidas e um tronco partido em primeiro plano. Do outro, campos arados, cercas, fumaça mansa subindo de fazendas. E, escondido entre as rochas, no ponto exato onde os dois mundos se encontram, existe um pintor minúsculo, de cavalete e chapéu, virado para trás, encarando quem observa.
A obra chama-se O Oxbow, pintada por Thomas Cole em 1836. O título completo é quase um parágrafo: Vista do monte Holyoke, Northampton, Massachusetts, depois de uma tempestade. Cole foi o fundador da primeira grande escola de pintura dos Estados Unidos, a Escola do Rio Hudson, e nesta tela enorme condensou a pergunta que atravessava o país inteiro: o que fazer com a natureza que ainda restava.
I
O que você vê
A composição corta a tela numa diagonal precisa. À esquerda, o mundo selvagem: céu carregado, cortina de chuva ao longe, copas vergadas pela ventania e, em primeiro plano, um tronco quebrado e retorcido, cicatriz da tempestade que acabou de passar. A pincelada ali é agitada, escura, cheia de nervos. É a natureza sem dono, anterior a qualquer estrada.
À direita, tudo muda. O sol abre sobre o vale do rio Connecticut e revela uma planície domesticada: lavouras em retalhos claros, cercas retas, barcos pequenos na água, dezenas de fios de fumaça subindo de chaminés distantes. A curva do rio, o tal oxbow que dá apelido ao quadro, fecha-se como um espelho no centro da cena, refletindo o céu que clareia. É a paisagem depois do homem, arrumada, produtiva, serena.
Agora procure o detalhe que quase ninguém vê na primeira olhada. Na base da tela, entre as pedras do morro, há um cavalete armado, um guarda-sol fincado na rocha e um homem sentado diante de uma pintura em andamento. Ele usa chapéu, veste o casaco escuro dos retratos da época e interrompeu o trabalho para virar o corpo e olhar diretamente para fora do quadro. É o próprio Cole, num autorretrato do tamanho de um polegar, flagrado no ato de pintar a cena que você está vendo.
Há ainda um enigma no morro ao fundo. Nas encostas mais distantes, clareiras abertas a machado formam marcas claras na mata. Estudiosos notaram que os cortes parecem desenhar letras do alfabeto hebraico: lidas de um jeito, lembram o nome Noé; viradas de cabeça para baixo, o nome Shaddai, o Todo-Poderoso. Se foi intenção ou acaso, Cole nunca explicou. Mas a dúvida combina com a tela, uma paisagem onde até as cicatrizes do desmatamento podem esconder uma mensagem.
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Cole subiu o morro, armou o cavalete e pintou os dois futuros possíveis do seu país numa tela só. Depois fez algo mais raro: pintou a si mesmo na fronteira entre eles, pequeno como um inseto, e virou o rosto para perguntar em silêncio de que lado ficamos nós.
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II
A história por trás
Thomas Cole não nasceu diante daquele vale. Nasceu na Inglaterra, em 1801, no coração da região industrial de Lancashire, onde as fábricas engoliam os campos a olhos vistos. A família emigrou para os Estados Unidos quando ele tinha dezessete anos, e o jovem gravador encontrou do outro lado do Atlântico o que a Inglaterra já havia perdido: florestas imensas, rios de margens vazias, uma natureza que parecia intocada. Foi amor imediato, e desconfiança imediata do que viria a seguir.
Em 1836, Cole estava mergulhado na encomenda mais ambiciosa da carreira, a série O Curso do Império, cinco telas sobre a ascensão e a queda de uma civilização. O trabalho consumia meses, o dinheiro apertava, e a exposição anual da Academia Nacional se aproximava. O pintor interrompeu a série para produzir, em poucas semanas, um quadro grande que pudesse ser vendido. Escolheu uma vista famosa, o mirante do monte Holyoke, destino favorito de turistas da época, e trabalhou depressa sobre esboços que havia feito no local anos antes.
A pressa não aparece na tela, mas as decisões aparecem. Cole não copiou a vista: editou. Carregou a tempestade para o lado selvagem, limpou o céu sobre o vale cultivado, inclinou a fronteira entre os dois mundos até a diagonal ficar perfeita. A natureza real do vale nunca se dividiu de forma tão nítida. A divisão é um argumento, construído pincelada a pincelada por alguém que sabia exatamente o que queria dizer.
No mesmo ano, Cole publicou um ensaio sobre a paisagem americana em que lamentava o avanço do machado sobre as florestas. Ele via o país inteiro celebrando o progresso, as ferrovias, as lavouras avançando para o oeste, e admirava a civilização que crescia. Mas via também o preço, a mata recuando ano após ano. O Oxbow é esse conflito interior esticado em quase dois metros de tela: nenhum dos lados é vilão, e os dois não cabem juntos no mesmo vale para sempre.
O quadro foi exposto na Academia Nacional em 1836 e vendido por quinhentos dólares, dinheiro que aliviou as contas do pintor. Passou de coleção em coleção até chegar, em 1908, ao Metropolitan Museum de Nova York, onde está até hoje. Com o tempo, virou a imagem que resume a Escola do Rio Hudson e uma das pinturas mais estudadas dos Estados Unidos: a paisagem que deixou de ser cenário para virar uma questão.
III
Por que importa
O Oxbow importa porque transformou paisagem em pergunta. Até então, um vale pintado servia para decorar, registrar ou impressionar. Cole usou o gênero para colocar um dilema diante do espectador: eis a mata virgem, eis o campo arado, os dois belos, os dois em disputa. A tela não responde qual lado vence. Ela apenas mostra que escolher é inevitável, e que toda geração escolhe, mesmo quando finge que não.
Importa também pelo gesto do autorretrato. Ao se pintar minúsculo na linha exata da fronteira, Cole se recusou a ficar fora do dilema. O pintor não observa o vale de longe, protegido: está dentro da cena, com o cavalete fincado entre a tempestade e o sol. E o rosto virado para trás faz o resto. Quem olha o quadro é visto por ele, convocado como testemunha. Poucas pinturas do século transformam o espectador em cúmplice com tão pouca tinta.
Há ainda a atualidade desconfortável do tema. Cole pintou o vale décadas antes de existir a palavra ecologia, e formulou em imagem o debate que o mundo trava até hoje: quanto progresso cabe numa paisagem antes que ela desapareça. O tronco partido do primeiro plano e a fumaça mansa das fazendas contam, juntos, uma história que nenhum dos dois conta sozinho. O quadro envelheceu para a frente, cada década o deixa mais contemporâneo.
Diante da tela hoje, vale refazer o caminho do olhar: primeiro o espetáculo, a tempestade recuando e o anel de água brilhando no vale. Depois a geometria, a diagonal que separa os dois mundos. Por fim, o homem minúsculo entre as rochas, de chapéu e cavalete, esperando pacientemente que você o encontre. Quando os olhares se cruzam, o quadro termina de acontecer. A paisagem era enorme, mas a pergunta sempre foi pessoal.
Olhe com calma.
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