|
Um pintor foragido, condenado a perder a cabeça, resolveu entregá-la ele mesmo: pintou o próprio rosto na cabeça decapitada de Golias e mandou a tela para a corte papal.
Todo mundo conhece Davi e Golias como a fábula do fraco que vence o forte. Aqui o pintor torce a história: em vez de se retratar no herói, ele se coloca no derrotado. O quadro deixa de ser troféu de vitória e vira um bilhete de socorro pendurado pelos cabelos.
Quando pegou o pincel, Caravaggio carregava uma sentença capital nas costas. Qualquer homem nos territórios do papa podia executá-lo onde o encontrasse e apresentar a cabeça como prova para cobrar a recompensa. A imagem que ele escolheu pintar, portanto, não era metáfora distante. Era o retrato exato do que a lei prometia fazer com ele.
O quadro nasceu como súplica. Uma obra-prima enviada a quem tinha poder de perdoar, com a confissão embutida na própria tinta. Nenhum artista tinha se retratado no lugar do monstro vencido, de boca aberta e olhos se apagando. A pintura virou julgamento de si mesmo, assinado diante de todos.
I
O que você vê
O fundo é um breu quase completo, sem cenário, sem chão, sem testemunhas. Da escuridão emergem só duas figuras: um adolescente de camisa branca aberta e a cabeça enorme que ele ergue pelos cabelos, afastada do próprio corpo como se o peso e o cheiro incomodassem.
A luz entra dura e lateral, recortando o ombro, o peito e o braço estendido do menino. Todo o resto afunda na sombra. É o tenebrismo que virou assinatura de Caravaggio: pouquíssima luz, usada como um facho de interrogatório, revelando apenas o que importa para a cena.
Na mão direita, Davi ainda segura a espada, apontada para baixo, com a lâmina cruzando o quadro em diagonal. Sobre o aço corre uma inscrição abreviada, quase invisível a olho nu. Ela guarda a chave moral da tela, e voltaremos a ela daqui a pouco.
Na mão esquerda, o troféu. A cabeça de Golias pende pesada, com o sangue descendo em fios grossos do pescoço cortado. A testa mostra a marca da pedra da funda. A boca se abre num grito que não chegou a sair, um olho ainda guarda brilho, o outro já se apaga.
Esse rosto arruinado é o retrato do próprio Caravaggio. A comparação com outros retratos e descrições do pintor não deixa margem: a sobrancelha densa, o nariz forte, a barba escura, as feições inchadas de um homem perto dos quarenta, marcadas por anos de fuga e violência.
E repare no rosto de Davi. Não há triunfo nenhum ali. O menino contrai o cenho e olha para a cabeça com uma mistura de pena e tristeza, como quem lamenta o gesto que acabou de cumprir. O vencedor carrega a vitória como um luto. Essa inversão é a alma do quadro.
|
"A humildade abate a soberba." Tradução da divisa latina Humilitas occidit superbiam, gravada em abreviação na lâmina da espada de Davi. Na leitura mais aceita, o pintor escreveu na arma a sentença que aplicava a si mesmo diante de toda a corte romana.
|
II
A história por trás
Michelangelo Merisi nasceu em Milão em 1571 e cresceu na cidadezinha de Caravaggio, que acabou virando seu nome de guerra. Chegou a Roma jovem, pobre e desconhecido. Em poucos anos era o pintor mais disputado e mais copiado da cidade, com um realismo cru que tirava santos e mártires diretamente da rua.
A fama veio colada à violência. Caravaggio acumulava passagens pela polícia, brigas de taverna, processos por difamação e porte de espada sem licença. Em maio de 1606, o barril estourou: num duelo marcado depois de uma disputa de pallacorda, um ancestral do tênis, ele feriu Ranuccio Tomassoni, que não sobreviveu ao golpe.
A pena foi a mais dura do direito papal: o bando capitale. Caravaggio virou um homem fora da lei em todos os territórios do papa, e a sentença autorizava qualquer pessoa a cumpri-la por conta própria, mediante prova. E a prova exigida era justamente a cabeça do condenado.
Começou então uma fuga de quatro anos. Nápoles, onde os encomendantes o disputavam. Malta, onde chegou a ser nomeado cavaleiro da Ordem e foi expulso depois de ferir um superior e escapar da prisão. A Sicília, cidade a cidade, dormindo vestido e armado. E Nápoles outra vez, onde uma emboscada na porta de uma taverna deixou seu rosto desfigurado.
A esperança tinha nome e endereço: Scipione Borghese, cardeal, sobrinho do papa Paulo V e colecionador voraz, o homem com poder real de costurar um perdão. É nesse tabuleiro que entra o Davi. Pintada por volta de 1609 ou 1610, a tela foi concebida como presente e petição: o condenado entregava a própria cabeça em pintura para não entregá-la de verdade.
Em julho de 1610, Caravaggio embarcou rumo a Roma com quadros na bagagem, convencido de que a graça estava próxima. Não chegou. Detido por engano num porto do caminho e solto dias depois, adoeceu na costa toscana e morreu em Porto Ercole, aos 38 anos. O perdão veio, mas ele já não estava vivo para lê-lo.
A tela ficou com Scipione Borghese e nunca mais deixou a coleção. Hoje está pendurada na Galleria Borghese, em Roma, a poucos quilômetros dos becos onde a história desandou. Parte dos estudiosos vê no rosto do jovem Davi um segundo autorretrato, o Caravaggio adolescente encarando aquilo em que o adulto se transformou.
III
Por que importa
Porque nenhum pintor tinha feito nada parecido. Retratar a si mesmo no vilão derrotado, com a cabeça separada do corpo, era um gesto sem precedente na arte europeia. Séculos antes de qualquer arte confessional, Caravaggio transformou uma cena bíblica em autobiografia, e a autobiografia em pedido de clemência.
A tela também é um resumo brutal da revolução que ele impôs à pintura. O escuro como palco, a luz como bisturi, o corpo real no lugar do ideal. Gerações inteiras saíram daqui: Ribera, Artemisia Gentileschi, Rembrandt, Georges de La Tour. Metade do barroco europeu aprendeu a iluminar olhando para telas como esta.
E há a lição moral, rara em qualquer época. O quadro julga sem ódio. Davi, que poderia posar de justiceiro, olha o derrotado com compaixão, e o derrotado é o próprio autor da obra. Caravaggio não pediu absolvição se declarando inocente. Pediu mostrando que entendia, melhor que ninguém, o tamanho da própria culpa.
Quatro séculos depois, quem para diante da tela na Galleria Borghese não vê apenas técnica. Vê um homem negociando a vida com o único talento que tinha, e perdendo a corrida por poucos dias. Poucas imagens na história da arte dizem tanto sobre culpa, genialidade e o preço de um erro.
Olhe com calma.
|