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Uma torre gigante se ergue do chão até as nuvens. Tem oito andares em espiral, varandas, arcos, rampas. Mil operários carregam pedras. No canto inferior, um rei observa tudo. A obra parece em pleno andamento. Mas algo já saiu errado, e Bruegel pintou esse instante.
I
O que você vê
A torre domina a tela inteira. Foi construída sobre um afloramento de rocha viva, que ainda aparece nos primeiros andares, como se o edifício tivesse brotado da própria pedra. Os níveis superiores são feitos de tijolo cozido, mais regulares, mais artificiais. A passagem entre rocha e tijolo é gradual, e mostra o esforço humano de transformar montanha em arquitetura.
Os andares se enrolam numa rampa contínua, como uma fita que sobe. Bruegel se inspirou no Coliseu romano, que ele tinha visto pessoalmente em uma viagem à Itália por volta de 1552. Mas em vez de um anel, multiplicou a estrutura em espiral, criando algo que nenhum coliseu jamais foi: um edifício que sobe por dentro de si mesmo.
Ao redor da torre, uma cidade portuária se espalha. Casas baixas, telhados vermelhos, ruas estreitas. Um rio corre à direita, com navios atracados, descarregando pedra e madeira. À esquerda, um campo aberto se estende até o horizonte. O céu é claro, com nuvens que tocam o topo da torre. A luz vem de cima, como se descesse direto do alto.
No canto inferior esquerdo, uma cena pequena salta aos olhos. O rei Nemrode, segundo a tradição bíblica responsável pela construção, chega com sua corte para inspecionar a obra. Pedreiros se ajoelham diante dele. A figura é minúscula em relação à torre, mas Bruegel a colocou em primeiro plano para que o espectador entenda a relação. Quem manda é pequeno. O que se constrói é imenso. E o desequilíbrio é o tema.
A pincelada é finíssima. Bruegel pintou cada pedra, cada janela, cada operário com paciência de miniaturista. Há mais de mil figuras humanas espalhadas pela tela, cada uma com sua tarefa. Um homem carrega tijolos numa cesta. Outro corta madeira. Outro descansa numa varanda. A vida da obra está toda ali, congelada num único momento.
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"Vinde, façamos uma cidade e uma torre cujo cume toque os céus, e tornemos célebre o nosso nome." Gênesis 11:4.
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II
A história por trás
Pieter Bruegel nasceu por volta de 1525 em algum lugar de Brabante, hoje Bélgica ou Holanda. Os registros são confusos. Sabe-se que se formou pintor em Antuérpia, viajou para a Itália entre 1551 e 1554, voltou para o norte, e em 1563 mudou-se para Bruxelas, onde casou e ficou até morrer em 1569. Era próximo de humanistas, geógrafos e filósofos do círculo de Christophe Plantin, e tinha clientela burguesa rica.
A Torre de Babel pintada em 1563 é a versão maior e mais conhecida. Há outra versão menor, sem a figura do rei, no Museu Boijmans Van Beuningen em Roterdã, pintada na mesma década. Esta, em painel de carvalho de 114 por 155 centímetros, está no Kunsthistorisches Museum de Viena desde o século XVII, depois de passar pela coleção do imperador Rodolfo II em Praga.
A história bíblica, narrada no capítulo 11 do Gênesis, conta que os homens, depois do dilúvio, tentaram construir uma torre que tocasse o céu. Deus, vendo a soberba, confundiu suas línguas para que ninguém mais entendesse o vizinho. A obra parou. As línguas se multiplicaram. E os povos se espalharam pela terra.
Bruegel pintou esse mito num momento de grande tensão religiosa. Os Países Baixos viviam o avanço da Reforma, perseguições de heréticos, censura de livros, conflito com a Espanha católica de Filipe II. A torre podia ser lida como crítica à arrogância papal, à ambição imperial, à vaidade humana em geral. Mas Bruegel nunca explicou. Deixou aberto.
A escolha de fazer a torre semelhante ao Coliseu não foi casual. Para um europeu do século XVI, o Coliseu era símbolo do orgulho romano, da civilização que caiu. Construir Babel com forma de Coliseu é dizer, sem palavras: o que está sendo erguido aqui já foi erguido antes. E já caiu antes. A história se repete em pedra.
III
Por que importa
Bruegel pintou um momento que se repete sempre. Sempre há uma torre sendo construída em algum lugar. Sempre há um rei que vem inspecionar. Sempre há mil operários carregando pedra. E sempre, em algum ponto, o projeto falha.
A pintura não mostra o castigo. Mostra o instante imediatamente antes. A torre ainda está de pé. Os tijolos ainda sobem. A obra parece avançar. Mas o espectador já sabe o final. E é nesse saber, que o pintor não escreve mas a Bíblia conta, que a tela se completa.
Quatrocentos e sessenta anos depois, a torre continua subindo. A linguagem continua se confundindo. E ninguém ainda aprendeu a parar a tempo.
Olhe com calma.
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