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Cinco homens. Uma taverna escura. Fumaça, álcool, rostos sem filtro. Adriaen Brouwer não pintava a Holanda dos canais limpos e das tulipas caras. Pintava a Holanda que bebia, cuspia e ria alto. E fazia isso com a mesma precisão técnica que seus contemporâneos dedicavam a madonas.
I
O que você vê
Os cinco homens estão agrupados ao redor de uma mesa. Um fuma de olhos fechados, soprando fumaça pro teto com uma expressão de prazer quase religioso. Outro segura o cachimbo com as duas mãos, concentrado. Um terceiro virou-se pro espectador com um sorriso torto, como se compartilhasse uma piada particular.
A paleta é restrita: marrons, ocres, cinzas. Nenhuma cor grita. A luz vem de um ponto indefinido à esquerda e ilumina os rostos de forma desigual, criando sombras profundas nos cantos dos olhos e embaixo dos narizes. As expressões são tão específicas que parecem retratos, não tipos genéricos.
O detalhe notável é a fumaça. Brouwer a pintou como uma névoa translúcida que se mistura ao ar da taverna, borrando levemente as figuras do fundo. É um efeito sutil, mas transforma o ambiente. Você quase sente o cheiro.
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"Brouwer era o maior pintor entre os pequenos mestres. Ou o menor entre os grandes. Depende de como você mede." Peter Sutton, curador do Museum of Fine Arts de Boston.
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II
A história por trás
Adriaen Brouwer nasceu em Oudenaarde, na Flandres, por volta de 1605. Quase nada se sabe de sua infância. Surgiu em Haarlem por volta de 1625, provavelmente como aluno de Frans Hals. De Hals herdou a pincelada rápida, a capacidade de capturar expressões em poucos traços, e o gosto pela vida como ela é.
Em 1631 mudou-se para Antuérpia, onde foi aceito na Guilda de São Lucas. Ali conheceu Rubens, que colecionou dezessete de suas obras. Rubens, o mestre das grandes composições heroicas, admirava Brouwer, o pintor de bêbados e fumantes. A qualidade reconhece qualidade, mesmo quando os temas são opostos.
O tabaco tinha chegado à Europa havia menos de um século. Fumar era novidade, era moda, era suspeito. Médicos alertavam sobre vapores nocivos. Moralistas condenavam o vício. E as tavernas holandesas e flamengas enchiam de fumaça todas as noites. Brouwer documentou esse momento cultural com a precisão de um etnógrafo e o humor de quem estava sentado na mesa ao lado.
A técnica de Brouwer era enganosamente simples. As pinturas são pequenas, geralmente sobre madeira. As pinceladas são rápidas, quase improvisadas, mas cada uma está no lugar certo. Os rostos são construídos com três ou quatro tons e parecem mais vivos do que retratos formais com doze camadas de tinta. A rapidez era o ponto. Brouwer pintava como seus personagens bebiam: sem cerimônia.
Morreu em 1638, com cerca de trinta e dois anos. A causa é desconhecida. Deixou poucas dezenas de obras. Cada uma vale, hoje, milhões. Ele provavelmente morreria de rir se soubesse.
III
Por que importa
A pintura de gênero, cenas do cotidiano, sempre foi tratada como menor que a pintura histórica ou religiosa. A hierarquia acadêmica dizia que pintar camponeses fumando era inferior a pintar deuses no Olimpo.
Brouwer provou o contrário. Não com manifestos, não com argumentos. Com tinta. Cinco homens fumando numa taverna, pintados com honestidade radical e habilidade absoluta. Quatrocentos anos depois, os deuses do Olimpo parecem distantes. Esses cinco parecem gente que você conhece.
Olhe com calma.
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