Arte do Dia #053 · Retrato de um menino
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 053

Retrato de um menino

Sébastien Bourdon · Óleo sobre tela

Leia ouvindo

Arte do Dia

Spotify
Retrato de um menino

Ver obra original no The Met →

Não sabemos quem ele é. Não sabemos quando nasceu, nem a quem pertencia aquele manto escuro pesado demais para uma criança. Sébastien Bourdon pintou este retrato em algum momento de sua carreira no século XVII, e a identidade do menino se perdeu em algum ponto dos três séculos seguintes.

O que restou foi o olhar, direto, sério, ligeiramente perturbador, de alguém que parece saber que está sendo observado e não recua.

I

O que você vê

A tela é um retrato busto, medindo cerca de 59 por 50 centímetros, formato quase quadrado, íntimo. A imagem é em tons muito escuros, próximos ao preto e branco: o fundo é negro, o manto é de um cinza-azulado profundo, e apenas o rosto e o colarinho branco rompem a penumbra com alguma claridade.

O menino aparece da cintura para cima, levemente girado para a direita, mas com o rosto voltado diretamente para o espectador. Os olhos são escuros e grandes, com um brilho que Bourdon capturou com precisão, há vida ali, e também uma seriedade que é incomum em retratos infantis da época.

Não é a expressão de uma criança distraída; é a de alguém que posa com consciência.

Os cabelos são abundantes, cacheados, castanho-escuros, caindo livremente dos dois lados do rosto. O colarinho é branco e franzido, simples, sem a opulência de rendas que marcaria uma família de alta nobreza. Sobre os ombros, o manto pesado de tecido cinza cobre quase todo o corpo visível, com uma dobra ampla que dá ao conjunto uma qualidade clássica, quase romana.

O fundo é inteiramente neutro, nenhum objeto, nenhuma janela, nenhuma paisagem. Toda a atenção converge para o rosto. A pintura é monocromática na sua paleta mas não fria: há calor na pele, nas bochechas ligeiramente coradas, no brilho úmido dos olhos.

"Bourdon tinha um talento singular para capturar a graça sem cair na afetação." André Félibien, *Entretiens sur les vies et les ouvrages des plus excellents peintres*, 1688.

II

A história por trás

Sébastien Bourdon nasceu em Montpellier, em 1616, filho de um pintor de vidro. Órfão cedo, foi criado em Paris por parentes protestantes.

Sua formação como pintor foi autodidata em parte, e Paris em parte, mas foi em Roma, onde passou vários anos na década de 1630, que ele desenvolveu sua voz própria, absorvendo Claude Lorrain, os bamboccianti e as pinturas do Norte que circulavam pela cidade.

De volta a Paris, tornou-se membro fundador da Académie Royale de Peinture et de Sculpture em 1648. Mas o grande desvio biográfico veio logo depois: em 1652, a rainha Cristina da Suécia, uma das patronas mais cultas e excêntricas do século, o chamou para Estocolmo como seu pintor oficial.

Bourdon passou dois anos na corte sueca, retratando a rainha e sua corte numa paisagem de inverno que era o oposto de tudo que ele conhecia.

Voltou a Paris após a abdicação de Cristina em 1654. Passou o resto da carreira alternando entre grandes encomendas religiosas, paisagens históricas e retratos, que eram, talvez, o gênero em que sua sensibilidade se manifestava com mais contenção e precisão.

Este retrato não tem data e não tem nome do retratado. O Met o recebeu em 1949 como parte da coleção Jules Bache. A atribuição a Bourdon é sustentada pelo estilo, especialmente o modo como ele trata a luz sobre o rosto, suave e direta, sem os contrastes dramáticos do caravagismo.

III

Por que importa

Há algo perturbador na combinação de uma expressão adulta num rosto infantil. Bourdon não suavizou o menino, não o tornou angelical ou decorativo. Pintou alguém que existe, que ocupa espaço, que sustenta o olhar de volta.

E o fato de não sabermos quem ele era acrescenta uma camada estranha à experiência. Alguém, pai, mãe, tutor, encomendou este retrato para que o rosto desta criança sobrevivesse. Sobreviveu. O nome não.

---

Olhe com calma.

 

Recomendação de Newsletter

Civilizações Perdidas

Civilizações que já foram o futuro, até deixarem de ser. O que construíram, por que ruíram e o que ficou. História que parece roteiro de série.

Quero ler →

Recomendação de uma newsletter parceira que achamos que vale o seu tempo.

Como foi a edição de hoje?

Toque nos quadros pra avaliar:

🖼️🖼️🖼️🖼️🖼️  ótima 🖼️🖼️🖼️🖼️  boa 🖼️🖼️🖼️  ok 🖼️🖼️  ruim 🖼️  péssima

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Sébastien Bourdon foi nomeado pintor oficial da rainha Cristina da Suécia e passou um período em Estocolmo trabalhando na corte.

VVerdadeiro FFalso

Clique para descobrir se acertou.

Continue lendo