Arte do Dia #018 · Descanso
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 018

Descanso

William Adolphe Bouguereau · 1879 · Óleo sobre tecido

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Descanso

Ver obra original no Cleveland Museum of Art →

A mulher senta na grama, uma criança no colo, outra ao lado. A pose é simples. A execução é assustadora. Cada fio de cabelo, cada prega de tecido, cada sombra na pele é pintada com uma perfeição que parece impossível. Bouguereau não pintava pessoas. Pintava a ideia platônica de pessoas.

I

O que você vê

Uma mulher jovem, vestida como camponesa, está sentada num campo. No colo, uma criança pequena descansa com os olhos fechados. Ao lado, uma segunda criança se apoia nela. A mulher olha diretamente pra frente, o rosto iluminado por uma luz suave e uniforme.

A pele é luminosa, quase translúcida. Os pés estão descalços, limpos, perfeitos. O tecido do vestido cai com um peso convincente, mas sem uma dobra fora do lugar. A grama ao redor é verde-escura, pintada folha por folha. Tudo é real e ao mesmo tempo impossível. Real demais.

O fundo é discreto: um campo, umas árvores distantes, um céu neutro. Nada compete com as figuras. Bouguereau sabia que num quadro sobre pessoas, o fundo deveria servir, não competir.

"Bouguereau podia pintar qualquer coisa. E pintava tão bem que irritava quem não conseguia." Damien Bartoli, biógrafo de Bouguereau.

II

A história por trás

William Adolphe Bouguereau nasceu em La Rochelle em 1825. Ganhou o Prix de Rome em 1850 e passou três anos na Itália estudando os mestres do Renascimento. Voltou pra Paris e tornou-se o pintor mais famoso, mais rico e mais condecorado da França. E, a partir dos impressionistas, o mais ridicularizado.

A guerra entre Bouguereau e os impressionistas não era sobre talento. Era sobre o que a arte deveria ser. Bouguereau representava a academia: técnica impecável, acabamento liso, temas elevados, beleza idealizada. Os impressionistas queriam mancha, luz real, imperfeição, a verdade do momento. As duas visões eram incompatíveis. E a história escolheu os impressionistas.

Mas a técnica de Bouguereau é inegável. Ele dominava o corpo humano como poucos na história. A pele em suas pinturas é construída com dezenas de veladuras translúcidas sobrepostas, cada uma adicionando um tom: rosado, azulado, dourado, esverdeado. O resultado é uma superfície que parece viva, que muda de cor conforme a luz. Nenhuma fotografia consegue reproduzir o efeito.

"Descanso" é de 1879, o mesmo ano em que Renoir pintava cenas de dança borradas e Monet experimentava com reflexos na água. Bouguereau, impermeável à revolução, continuava produzindo figuras perfeitas para clientes que pagavam fortunas. Vendia tudo. Os americanos, especialmente, compravam seus quadros aos lotes.

Morreu em 1905, após ter produzido mais de oitocentas pinturas. A geração seguinte o desprezou. O século XX o esqueceu. E o século XXI começou a reconsiderar.

III

Por que importa

Existe um preconceito contra a perfeição técnica. Se é perfeito demais, não pode ser arte verdadeira. Se é bonito demais, não pode ser profundo. Essa lógica dominou o século XX.

Bouguereau pintou pessoas bonitas fazendo coisas simples com uma habilidade que beira o sobrenatural. Não há mensagem escondida. Não há ironia. Há apenas uma mulher descansando com duas crianças, pintada tão bem que parece respirar. Às vezes, isso é suficiente.

Olhe com calma.

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