Arte do Dia #034 · O Jardim das Delícias Terrenas
Arte do Dia

EDIÇÃO Nº 034

O Jardim das Delícias Terrenas

Hieronymus Bosch · c.1500 · Óleo sobre painel de carvalho

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O Jardim das Delícias Terrenas

Ver obra original no Museo del Prado →

Três painéis. À esquerda, Adão e Eva no Éden. No centro, uma multidão nua entregue ao prazer. À direita, o inferno tocando música em instrumentos gigantes. Hieronymus Bosch pintou isso por volta de 1500, e ninguém ainda decifrou tudo.

I

O que você vê

O tríptico tem mais de dois metros de altura e quase quatro de largura quando aberto. Painel esquerdo: o Paraíso. Deus apresenta Eva a Adão. A paisagem é luminosa, cheia de animais, com uma fonte rosa no centro e criaturas estranhas saindo dos lagos. Já há sinais de estranheza, girafas, pássaros impossíveis, peixes voadores, mas tudo ainda é jardim.

Painel central, o maior: o Jardim das Delícias propriamente dito. Centenas de figuras nuas, brancas e negras, em poses de prazer, jogo, dança, perseguição. Cavalos gigantescos. Frutas enormes nas quais as figuras entram e saem. Bolhas de vidro que aprisionam casais. Um lago no fundo com torres orgânicas. Não há violência. Há excesso.

Painel direito: o Inferno. Escuro, ardente, com cidades pegando fogo no horizonte. Instrumentos musicais gigantes torturam pecadores: uma harpa de prego, um alaúde como tábua de execução, uma flauta atravessando um corpo. No centro, a Árvore-Homem, figura cuja casca é o tronco e cujo rosto olha o espectador. Um demônio-pássaro engole pecadores e os defeca em um buraco.

A composição é frenética. A precisão de cada detalhe, milimétrica. Bosch pintou em óleo sobre painel de carvalho, com camadas finíssimas. Cada criatura tem cor própria, sombra própria, identidade própria. É uma multidão sem nenhum personagem repetido.

"Bosch é o pintor do qual ainda não terminamos de aprender o vocabulário." Erwin Panofsky, Early Netherlandish Painting, 1953.

II

A história por trás

Hieronymus Bosch nasceu em 's-Hertogenbosch, nos Países Baixos, por volta de 1450. Veio de uma família de pintores. Trabalhou principalmente sob encomenda da igreja e da nobreza local. Morreu em 1516, deixando uma obra pequena e enigmática que escapava ao classicismo italiano que dominava o resto da Europa.

A datação do Jardim das Delícias varia entre 1490 e 1510. A análise dendrocronológica do painel sugere uma execução entre 1495 e 1505. A obra foi encomendada provavelmente por Engelbrecht II de Nassau, nobre dos Países Baixos. Não era um quadro de igreja. Era um objeto de salão, exibido em ocasiões privadas, talvez em casamentos, como matéria de conversa entre convidados cultos.

Quando o tríptico está fechado, mostra na parte externa o globo terrestre no terceiro dia da Criação, em tons de cinza. O mundo ainda sem cor, sem humanidade, sem pecado. Abrir o tríptico é sair desse cinza para o caos colorido do que aconteceu depois.

Por séculos, ninguém entendeu o que Bosch queria dizer. Alguns viram um aviso moral contra o pecado da carne. Outros, uma alegoria heterodoxa da humanidade caída. No século XX, o psicanalista Wilhelm Fränger sugeriu que o painel central representava o ideal de uma seita herética, o Livre Espírito, que pregava a inocência sexual recuperada. A maioria dos historiadores hoje rejeita essa leitura, mas reconhece que o quadro permanece aberto.

A obra foi parar nas mãos de Filipe II da Espanha em 1591, que a manteve em El Escorial. Em 1939 foi transferida para o Museo del Prado, em Madri, onde está até hoje. É a peça mais visitada do museu.

III

Por que importa

Cinco séculos depois, o Jardim ainda não cabe em explicação. Cada geração tira dele o seu próprio inferno. Os surrealistas viram Bosch como avô. Os freudianos, como ilustrador do subconsciente. Os teólogos, como pregador. Os cibernéticos, como profeta da hibridização entre corpo e máquina.

E talvez seja por isso que ele importa. Bosch pintou um espelho onde cada época se vê refletida. O paraíso à esquerda permanece intocado. O inferno à direita permanece quente. E o painel central, com sua festa nua e infinita, continua perguntando ao espectador: você está olhando ou está dentro?

Olhe com calma.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: A análise dendrocronológica do tríptico de Bosch sugere execução entre 1495 e 1505, e a obra está hoje no Museo del Prado.

VVerdadeiro FFalso

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